“Crianças pequenas descobrem o mundo através da boca”. A frase do diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, soa como um alerta nesta época do ano, em que os pequenos estão em férias e, portanto, mais tempo dentro de casa.
Conforme dados da pasta, a cada dia são registrados mais de quatro casos de intoxicação na rede pública municipal e a maioria dos pacientes são crianças pequenas, de até 4 anos de idade. A faixa etária é mais vulnerável porque, ao menor descuido, é facilmente atraída por um comprimido colorido, um medicamento de gosto saboroso ou um produto de limpeza com embalagem chamativa que estiverem ao alcance das mãos.
“Por instinto, elas levam quase tudo à boca. De detergente a água sanitária, desinfetante e sabonete. E, no período de férias, quando elas passam mais tempo em casa, as ocorrências aumentam muito”, revela Sabbag.
De acordo com dados da secretaria, de janeiro a maio deste ano foram atendidos 707 pacientes com intoxicação no Pronto-Socorro Central (PSC) e no Pronto Atendimento Infantil (PAI). No ano passado, a média foi de três casos por dia, num total de 1.180 registros. Em todo o Estado, Bauru é a quinta região - do total de 15 - com maior quantidade de internações por intoxicação (leia mais ao lado).
Entre as crianças, os casos mais recorrentes são de ingestão indevida de medicamentos e produtos de limpeza. Já entre adultos, são mais frequentes as tentativas de suicídio (por overdose de remédios ou envenenamento) ou acidentes de trabalho com inalação de gases e produtos químicos, como os agrotóxicos.
Sabbag alerta que, na maioria das vezes, as consequências não são graves porque a ingestão de produtos tóxicos é pequena. “Uma criança que põe um produto de limpeza na boca vai sentir o gosto amargo e rejeitar logo em seguida. Mas, principalmente se a substância contiver soda cáustica, as consequências podem ser graves”, alerta.
Segundo o diretor do DUE, a intoxicação pode irritar o esôfago e o estômago e provocar sangramentos. Os casos de morte nestes casos, felizmente, são raros. “Mas uma estenose (estreitamento) de esôfago, por exemplo, pode deixar sequelas permanentes (como a dificuldade para deglutição)”, completa.
Campo de visão
O cirurgião plástico e médico do Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências (Grau) da Secretaria de Estado da Saúde, Roberto Stefanelli, explica que os acidentes acontecem, geralmente, porque medicamentos e produtos de limpeza são armazenados em locais inapropriados, no campo de visão dos pequenos. “Exemplos são armários localizados embaixo da pia do banheiro ou em mesas de cabeceira no quarto, que são de fácil acesso para as crianças”, diz.
O médico também alerta para o risco do reaproveitamento de embalagens de bebidas e alimentos para a conservação de produtos químicos ou de limpeza. “As crianças são atraídas pelos rótulos de garrafas de refrigerante ou de doces, o que também pode resultar neste tipo de acidente”, completa.
Em casos de envenenamentos e intoxicações, Sabbag e Stefanelli ressaltam que a primeira medida a ser tomada é acionar a equipe de resgate e manter a vítima deitada de lado, além de ler o rótulo do produto ingerido enquanto aguarda o socorro. “Às vezes, na própria embalagem há alguma orientação sobre os procedimentos a serem adotados até a chegada de ajuda médica”, salienta Sabbag.
De qualquer maneira, o ideal é nunca oferecer líquidos ou forçar o vômito, pois o produto químico, que já irritou o aparelho digestivo, pode causar mais prejuízos ao fazer o caminho de volta para ser expelido. Ao procurar uma unidade de saúde, a recomendação é apresentar ao médico a embalagem da substância ingerida.
5ª região com mais registros
Levantamento divulgado ontem pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo aponta que Bauru é a quinta região paulista com mais casos de internação nos hospitais estaduais devido a intoxicações. Ao todo, em 2011, foram 50 registros nos 68 municípios abrangidos pela Divisão Regional de Saúde de Bauru (DRS-6).
Entre as 15 regiões consideradas, Bauru está atrás somente da Capital e região metropolitana, São José do Rio Preto, Sorocaba e Marília. Figura à frente, no entanto, de regiões como Ribeirão Preto, Campinas, Piracicaba, Franca, Araçatuba e Araraquara.
Em todo o Estado, de acordo com a secretaria, foram registradas 951 internações por intoxicação no ano passado. Desse total, 29 pessoas morreram e 199 eram crianças de 1 a 4 anos de idade. Em 2010, foram contabilizadas 1.132 internações e 26 mortes.
Os mais comuns são
ingestão de medicamentos
ingestão de produtos químicos e de limpeza
inalação de gases e produtos químicos
envenenamento
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