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Libertadores: fantasmas exorcizados

Wagner Teodoro com Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Além da cobiçada vaga para o Mundial de Clubes da Fifa, que será disputado em dezembro, no Japão, o título da Libertadores garantiu o fim do fantasma que perseguia o Corinthians na competição continental. Foram necessárias dez participações no torneio para que o clube finalmente chegasse à decisão e, com a vitória diante do Boca Juniors, à primeira conquista.

A primeira vez que o Corinthians disputou a Libertadores foi em 1977, quando acabou eliminado na primeira fase, em grupo que tinha ainda Internacional, do Brasil, El Nacional e Deportivo Cuenca, ambos do Equador. Mas o trauma da equipe começou bem mais tarde, já na década de 90.

Em 1990, o clube do Parque São Jorge acabou com a fama de ser “regional” ao conquistar seu primeiro título brasileiro. A vitória deu a vaga na Libertadores do ano seguinte, mas o Corinthians não foi muito longe e acabou caindo nas oitavas de final diante do Boca Juniors, após derrota por 3 a 1, fora de casa, e empate por 1 a 1, em São Paulo.

O desejo corintiano de vencer a Libertadores só cresceu nos anos seguintes. Com o bicampeonato do São Paulo, em 1992 e 1993, o torneio continental ganhou força entre os clubes brasileiros, que passaram a vê-lo com outros olhos. Foi assim que o Corinthians chegou à competição em 1996. A diretoria não poupou esforços e trouxe nomes como o atacante Edmundo. Sem sucesso.

Com o bicampeonato brasileiro de 1998 e 1999, o Corinthians ganhou o direito de participar das Libertadores de 1999 e 2000, as duas mais traumáticas para a torcida. Na primeira, depois de uma grande campanha na primeira fase, com direito a goleada por 8 a 2 diante do Cerro Porteño, a equipe passou pelo Jorge Wilstermann (Bolívia) nas oitavas de final e se credenciou a enfrentar o Palmeiras, nas quartas. Diante do maior rival, o time do Parque São Jorge viu nascer o mito de “São Marcos” na primeira partida, quando o goleiro foi fundamental na vitória palmeirense por 2 a 0. No jogo de volta, os corintianos devolveram o placar, levaram a decisão para os pênaltis, mas viram Vampeta e Dinei errarem e acabarem com o sonho do título. Para piorar, o Palmeiras seria campeão do torneio naquele ano.

Foi neste cenário, e credenciado pelo título do Mundial de Clubes da Fifa, conquistado no início daquele ano, que o Corinthians voltou a encontrar seu maior rival, e atual campeão, na Libertadores de 2000, desta vez nas semifinais. Depois de uma vitória emocionante na primeira partida por 4 a 3, o time comandado por Oswaldo de Oliveira vencia também a segunda partida por 2 a 1, mas acabou permitindo a virada, perdeu por 3 a 2 e o jogo foi novamente para os pênaltis. Desta vez, o vilão seria justamente o maior ídolo da torcida, Marcelinho Carioca, que perdeu o último pênalti, defendido por Marcos, e selou a eliminação corintiana.

Depois das eliminações para o Palmeiras, o River Plate se tornaria o carrasco corintiano nas participações seguintes. Em 2003, as equipes se enfrentaram nas oitavas de final. E deu River. Três anos depois, novamente o River Plate pelo caminho nas oitavas. Comandado por Carlitos Tevez, o Corinthians perdeu a primeira partida na Argentina por 3 a 2, e 3 a 1 no Pacaembu.

Os últimos dois anos marcaram as últimas decepções corintianas na Libertadores. Em 2010, com Ronaldo no ataque, a equipe caiu nas oitavas de final diante do Flamengo, após perder por 1 a 0, no Maracanã, e vencer por 2 a 1, no Pacaembu. Já em 2011, o time comandado por Tite precisou participar da fase preliminar da Libertadores, na qual acabou sendo eliminado pelo fraco Deportes Tolima. Depois de um empate por 0 a 0 no Pacaembu, o Corinthians caiu por 2 a 0 na Colômbia. No entanto, naquele mesmo ano, a equipe se recuperou e conseguiu o título brasileiro que a credenciou para o torneio continental deste ano.

 

Ansiedade e confiança

Noite de decisão e corintianos se reúnem pela cidade para acompanhar a partida e vivem um misto de ansiedade, nervosismo e confiança. A crença no inédito título da Libertadores é forte, mesmo com a expectativa de uma partida difícil, dramática. Sofrimento é uma palavra recorrente, assim como campeão. A história da final seria contada pelos 22 jogadores em campo em instantes, mas os torcedores já projetavam heróis e até arriscavam placares à espera de um desfecho feliz e inédito para o Alvinegro.

A torcedora Edna Silva, que acompanhava a decisão ao lado dos filhos Ruan Vitor Queiroz e Gabriel Lima Queiroz, era um exemplo de corintiana que vivia a ansiedade, mas mantinha a fé no título. “Estou ansiosa, mas minha expectativa é 2 a 1 para o Corinthians”, apontava pouco antes do início da partida. A aposta era um jogo duríssimo, mas com final feliz. “Corintiano sofre. Vai ser sofrido, mas a gente vai ganhar”, garantia.

A confiança da família era unânime. Ruan custava a esperar o transcorrer da partida para, enfim, poder comemorar. “O Corinthians vai, finalmente, depois de 102 anos, sair com a taça da Libertadores”, proclamava. O torcedor, porém, estava preparado para aguentar as emoções de uma partida sofrida. “Vai ser duro, como foi na Bombonera, mas o Corinthians vai sair com a vitória”, reiterava. O irmão, Gabriel, tinha discurso afinado com a família e concordava até no palpite do placar da finalíssima. “Vai dar Corinthians e vai ser 2 a 1”, cravava.

Erolnildes Matos dos Santos estava acompanhado do filho Leandro Rocha dos Santos, da esposa e nora e apostava em um placar um pouco mais dilatado, mas em igual tensão durante o duelo final. “O jogo é difícil, mas o Coringão vai ganhar. Vai ser 2 a 0”, acreditava. Eronildes até arriscava sugerir a estratégia para garantir o inédito troféu diante do temível Boca. “O jogo vai ser sofrido, complicado. O Boca é um time que já conquistou muitos títulos. O Coringão tem que entrar marcando bem, se não marcar bem, pode até perder o jogo. Mas é o seguinte, nossa confiança é na vitória”, reiterava.

O filho, Leandro, concordava com o pai. “Vai ser bastante difícil, mas acredito em 2 a 0”, projetava. Porém, a esperança de faturar o troféu tinha um nome: Romarinho. “A chave é a entrada do Romarinho. O Romarinho entrando no segundo tempo, pode saber que aí vai dar resultado. É o que vai dar diferença no jogo”, observava. “Mas espero sofrimento, gostaria de estar no estádio”, confessava.

 

Tranquilidade

Em meio ao nervosismo geral, a tranquilidade de Michael Vinícius Félix de Oliveira, que assistia à partida ao lado da namorada, Vanessa Kaufmann, destoava. “Vai ser 2 a 0 Corinthians. Estou confiante e tranquilo”, declarava. O time argentino, tradicional carrasco de brasileiros em final da Libertadores e dono de seis conquistas da competição, não metia medo. “O Boca não assusta aqui (Pacaembu), poderia ter assustado lá. Aqui é tranquilo”, dizia. E antecipava a sensação caso a conquista se concretizasse. “Vai ser um título diferente, bem legal”, considerava. 

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