Seis décadas: é o tempo de vida que o curso de direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE) de Bauru completa hoje. Em 9 de julho de 1952 era realizada a primeira cerimônia de abertura.
Participavam dela o então prefeito Nuno de Assis, o diretor da instituição, Ulysses Silveira Guimarães, e Antônio Eufrásio de Toledo, fundador da unidade, entre outros.
Foi neste evento que aconteceu também a primeira prova oral, fundamental para a aprovação de cerca de 350 alunos que formariam a primeira turma de direito da ITE - até então uma escola técnica.
E a primeira matrícula na turma inédita foi a do bauruense Abel Apparecido Cortez, que completará 80 anos neste próximo dia 28 de julho e ainda exerce a profissão de advogado.
Na verdade, desde criança, o sonho de Abel era ser médico. Quem tirou essa ideia de sua cabeça foi Eliseu dos Santos, na época secretário de Antônio Eufrásio de Toledo.
“Ele quase me intimou a prestar o vestibular”, brinca Abel. “Era o primeiro exame vestibular da instituição, primeira universidade instalada em Bauru e pioneira do Interior a oferecer o curso, que só existia, geralmente, em capitais. O Eliseu chegou em casa e disse: ‘fiz a sua matrícula no vestibular’. Eu respondi: ‘quero medicina e não direito’. Eu tinha uns 19 anos, topei, e fiz o vestibular. Passei na prova escrita e fui chamado para a prova oral, segunda parte da seleção de alunos”.
O que Abel não sabia era de que a prova seria aplicada pelo próprio Ulysses Guimarães logo após a cerimônia de inauguração da instituição de ensino. Ulysses, aliás, que também se notabilizou como professor de direito constitucional da ITE até se tornar uma das maiores figuras da política nacional em prol da democracia.
Número 7: Bilac
Enfim, como a lista dos candidatos era por ordem alfabética, mais uma vez Abel era o primeiro.
“Fui o primeiro a ser chamado. Então também inaugurei a faculdade”, avalia com bom humor. “Ulysses pediu para sortear o ponto [tema da prova]. “Acabei escolhendo o número 7, que era falar sobre Olavo Bilac. Ele me perguntou: ‘o que o senhor sabe sobre o Olavo Bilac?’ Eu respondi: ‘Olavo Brás dos Guimarães Bilac, poeta da escola Parnasiana, cujo nome já é um verso decassílabo, é um dos poetas que mais admiro.’ Ainda recitei a poesia ‘Ora direis ouvir estrelas’. Quando eu declamei a poesia, o Ulisses disse: ‘Dez! Está aprovado!’. Com essa aprovação, eu fui o primeiro aluno a ‘colocar o pé’ na faculdade”.
Cargos de chefia
Apesar de sua escolha inicial ser para medicina, Abel conta que gostou muito já das primeiras aulas de direito. “Eu tenho muito orgulho de ser o primeiro aluno a ingressar na faculdade de direito porque depois, mais tarde, o rumo da minha vida foi outro, da medicina para o direito”.
O que desanimou Abel a cursar medicina inicialmente foi a distância das cidades que ofereciam o curso e ter que pagar ainda pelo cursinho preparatório.
Em 1957, durante o seu curso de direito, Abel prestou concurso público para a rede ferroviária de Bauru, antiga Noroeste do Brasil (NOB), e passou. Na autarquia federal ele teve oportunidade de ser promovido. O fato de estar estudando direito proporcionou a Abel cargos de chefia no departamento jurídico, no de assistente ferroviário, no de patrimônio, de assessor do superintendente, até chegar a chefe de gabinete.
Em 1960, como tinha cargo federal, foi beneficiado com uma lei que equiparava os assistentes jurídicos dos ministérios a procurador da República. “Passei a procurador e continuei cedido à rede ferroviária”.
Juiz, professor e pai
Quando começou a “prever” a decadência das ferrovias, Abel Cortez prestou concurso para juiz de direito em 1978 e foi aprovado, assumindo como substituto inicialmente em Botucatu. Foi titular de Cafelândia, Pirajuí, Santa Cruz do Rio Pardo e em Bauru na 2ª Vara Cível. Também atuou em São Paulo, e lá se aposentou em 1981.
“Após a aposentadoria comecei a advogar e ainda estou na ativa. Quando era juiz, passei a lecionar, ao mesmo tempo, direito administrativo na ITE. Lecionei por vários anos, sendo eleito diretor pelo voto dos alunos, do qual muito eu me orgulho. Comecei como aluno e terminei como diretor. Tive uma vida muito gostosa que eu posso, nesta idade, ainda reviver com as lembranças. Me lembro com muita saudade do doutor Eufrásio, um idealista realmente extraordinário”, finalizou.
Em tempo: Abel Cortez se casou com Marly Paes de Barros Cortez, com quem teve seus três filhos: Abel Fernando (delegado de polícia), Luiz Ricardo (veterinário) e Ana Paula.
O advogado e juiz aposentado também foi sócio-fundador da Sociedade Hípica de Bauru e secretário de Indústria e Comércio do Estado do Mato Grosso.
Disciplina e respeito
Estudar direito, naquela época, não era tão simples quanto é hoje - apesar de que o respeito, a disciplina e a formalidade continuam. O professor era tratado por “excelência” e, ao entrar na sala de aula, todos os alunos tinham que se levantar. Além disso, antigamente, os estudantes já tinham que trajar roupas sociais. Às vésperas da revolução de 1964, os alunos costumavam terminar as provas e se encontrar no antigo restaurante Lalai, que ficava na rua Batista de Carvalho, e também no Bauru Tênis Clube (BTC).
Ali, e também nos tradicionais botequins, eram discutidos diversos assuntos, inclusive política - com paixão e, claro, engajamento.
Centro universitário
O atual coordenador do conselho gestor da ITE, Antônio Eufrásio de Toledo Filho (Toledinho) opina que a instituição de ensino particular foi pioneira no Interior com o curso de direito e, nesta área, é uma das mais antigas do Brasil. “Existem as universidades tradicionais estaduais. Existiam pouquíssimas faculdades de direito no Brasil e, no Interior, não tinha quase nada. Para Bauru é o marco inicial da transformação da cidade em centro universitário. A ITE ‘puxou a fila’, foi a primeira instituição de ensino superior de Bauru”.
Conterrâneos em família
Concunhados, mineiros e veteranos advogados bauruenses, Jorge Zaiden e Edward Júlio dos Santos têm histórias de vínculos de suas famílias com a família Toledo. Jorge, mineiro de Cristina, cidade do famoso “Circuito das Águas”, estudou quando adolescente no colégio interno do doutor Toledo, em Paraisópolis. É contemporâneo do Mauro Toledo e do saudoso Maurício, filhos do reitor e fundador da ITE em Bauru, Antônio Eufrásio de Toledo e conheceu todos os descendentes do reitor e de sua esposa, dona Quitita, amiga de sua tia, dona Maria Ferraz de Assis, esposa do então prefeito bauruense, Nuno de Assis.
Ele conta com saudades e orgulho dessa amizade de décadas e lembra com alegria dos tempos de acadêmico da ITE na década de 60, onde se formou em direito. “São décadas de relacionamento e amizade e a ITE sempre foi um diferencial bauruense no campo jurídico, formou grandes nomes do cenário nacional e internacional.” Além dele, as suas irmãs Gilda Ferraz Zaiden, procuradora aposentada e Zilah Ferraz Zaiden, que estudou na Faculdade de Serviço Social da ITE, outras duas gerações de “iteanos” fazem parte da família: o filho Renato Delicato Zaiden, diretor do Grupo Cidade e o neto, Renato Franco Zaiden, que também cursou direito na faculdade bauruense.
Seu concunhado, o advogado Edward Júlio dos Santos, mineiro de Itajubá, além de também ter se formado em Bauru, é outro que tem relações afetivas com a ITE que vão além dos estudos no início da década de 60. Seu pai, professor Júlio dos Santos, foi conhecido educador universitário no Sul de Minas, particular amigo e companheiro político do doutor Toledo.
Ambos foram do mesmo e partido político e se reencontraram por muitos anos, tanto quando de suas viagens a Bauru, como das idas do doutor Toledo para o Sul de Minas. Eram encontros de amigos que rendiam momentos especiais de conversas sempre inteligentes e muito interessantes. “Foi um privilégio ter vivido parte dessa história”, diz o advogado Edward Júlio dos Santos ressaltando que a ITE é um patrimônio não só dos seus professores, funcionários, alunos e ex-alunos. “Aos 60 anos, é um legado ao saber jurídico” finaliza.