Apesar de toda dificuldade de caminhar e de enxergar, ainda não saio da casa de minha mãe sem um pouquinho da sua coalhada. Ao degustar lentamente aquele creme regado com azeite, avalio o esforço e o cuidado que minha mãe teve em prepará-la; sinto nessa coalhada algo que não encontro nas outras, sinto todo amor e toda doçura que uma mãe pode dar ao seu filho. O amor de mãe é abdicação, é altruísta, eleva-se acima de suas próprias necessidades, é benevolência, é a carícia que aplaca, o gesto que protege, a voz que tranquiliza, é o leite que alimenta, é a vida partilhada. Esse amor de mãe é o mais precioso, dá muito mais do que recebe, é o mais milagroso porque se Você recua um passo, ela recua dois, simplesmente para lhe dar mais lugar, para não esbarrar em Você, para não o invadir, não o oprimir, para lhe deixar um pouco mais de espaço, de liberdade, de ar.
A doçura é algo inato nas mulheres, eu diria, é uma virtude feminina e talvez, por isso, agrade tanto aos homens. Com suas limitações, minha mãe precisa de muita força e coragem para preparar a coalhada, então, mesmo sendo uma virtude essencialmente feminina, posso definir a doçura como a força em estado de paz, uma força tranquila e doce, cheia de paciência e mansuetude. É a força que acolhe e que respeita.
A doçura não é caridade, é menos exigente, menos exaltante, é, também, mais acessível, por isso mais útil de fato e mais necessária. A doçura submete-se ao real, à vida, ao devir, ao mais ou menos do cotidiano; virtude de flexibilidade, de paciência, de devoção, de adaptabilidade, enfim de todos esses recursos e qualidades que minha mãe precisa para transformar o leite em cremosa coalhada. Podemos viver sem caridade, toda história da humanidade prova isso, mas sem um mínimo de doçura, não.
A doçura e o amor andam juntos. A humanidade não os inventou, mas se alimenta deles e é isso que torna a humanidade mais humana, pois, ambos se opõem a violência, ao mal que faz mal; se opõem ao egoísmo que corrompe, que é ávido, indelicado, brutal.
Na mesa o pão, o azeite, a coalhada e seus ensinamentos: assim como nutrimos o corpo com esse alimento, a alma precisa de nutrição espiritual. Esta nutrição inclui uma percepção de nossa missão na vida e uma percepção do Criador, que nos forneceu as faculdades para cumprir essa missão. Quando Você come, meu filho, deve reconhecer que a comida não se destina a simples satisfação, mas à geração da vitalidade necessária à condução de uma vida significativa.
O alimento nutre; ele proporciona a energia para a união entre o corpo e a alma. Esse laço de união é a vida e a própria vida é o maior prazer imaginável. O alimento de uma pessoa que vive corretamente é transmutado em espiritualidade. Diz ela: não há destino mais elevado para esta coalhada do que vir a ser parte da vida de uma pessoa espiritualmente desenvolvida. Compreenda que tudo é espirito; até mesmo a matéria é um estado passageiro do espírito, portanto, a morte não é um policial que prende e leva consigo a pessoa quando chega a hora; a morte é um carregador que vai nos ajudar a carregar a bagagem em nossas viagens. Ah !, conclui ela, não se esqueça, tenha sempre um pouco de minha coalhada em sua bagagem. Para minha mãe Claire Odette Simão Razuk, com gratidão e a promessa de nunca esquecer sua coalhada.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru ? SP