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Demóstenes e o inimigo oculto

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Numa certa medida o nome parece influir no destino dos homens. Que o digam dois conhecidos Demóstenes, um orador ateniense (Atenas, 384 aC. a 322 aC.) e o outro agora ex-senador goiano. O grego ao longo de sua vida teve inimigos poderosos, dentre eles Felipe e seu filho Alexandre, o Grande, reis da Macedônia que comandavam formidáveis exércitos e, num momento culminante de sua vida, por gestão de seus inimigos optou pela conveniência do suicídio. O senador goiano também arrumou inimigos e sua vida política de muito sucesso pessoal agora, mesmo sem ilicitude tipificada que pudesse suportar acusação formal, chega ao fim.

Longe de pretender defendê-lo ? na vida cada um deve saber e responder pelo que faz - apenas se constata que num tempo muito curto o senador goiano foi escolhido como alvo para purificação dos costumes por parte de poderoso inimigo e se viu incompatibilizado com a opinião pública e empurrado para o inferno. A desgraça política lhe veio a galope. Seu partido lhe deu ultimato compulsório ou sai ou sai, seus aliados já não o procuram, seus interlocutores não respondem e nem atendem telefonemas e nem perdem tempo para escutar suas justificativas. Seus discursos justificadores ecoam no silêncio de plenário vazio. Dele todos desviam como satanás foge da cruz. O desfrute do poder e do prestígio político-pessoal em estado moribundo nos últimos dias trazia no ar aquela sensação de angústia que sempre antecede desfecho anunciado.

A morte política do senador goiano para quem tenha sensibilidade política e se preocupa com nossas instituições expõe e revela a existência de inimigo muito mais poderoso que os reis da Macedônia que com a força de seus exércitos levaram o ateniense ao suicídio. Esse inimigo invisível que não comanda exércitos é dotado de tamanha força e de tanto poder que não se detém diante de garantias constitucionais e nem se atemoriza com o império da lei e com as decisões de Tribunais. Escorado na certeza da impunidade, escolhe livremente seus alvos, ganha acesso a milhares de horas de espionagem legal sigilosa, tranquilamente escolhe os trechos que lhe convém e os encaminha quando lhe parece conveniente para mídia sempre disponível apesar do sigilo, que tudo divulga sem preocupação. O linchamento moral é rápido, independe de acusações tipificadas, de julgamentos formais e de exércitos iguais aos exércitos macedônicos, ocorre sem obstáculos e a reputação do alvo fenece e sua credibilidade política morre de quase fulminante infarto.

O inimigo invisível do senador goiano mesmo sem exércitos tem mais peso que a Constituição cidadã do dr. Ulisses, concentra mais poder que qualquer Tribunal de nossa República Federativa e parece não ter obstáculos que possam atrapalhar a escolha de seus alvos ou interromper suas ações ou evitar que o alvo escolhido não seja destruído num espaço muito curto de tempo.

Por isso nestes nossos tempos é prudente que se tenha muito medo desse inimigo invisível do senador cassado pelos seus pares, porque ele tem poder que pode fazer de qualquer um o próximo alvo. A escolha feita traça destino certo e inexorável mesmo diante da proteção das leis e dos Tribunais e, ao que parece, até mesmo diante da misericórdia divina. O senador goiano, em boa ou má hora, justa ou injustamente, e a despeito da vontade das urnas republicanas, sai destruído da vida pública e, ao contrário do outro Demóstenes, sem influência de exércitos. Mas o inimigo invisível dele fica e é de boa cautela que todos nós tenhamos isso em conta, embora muito pouco possamos isoladamente fazer diante de contextos que se repetem e cujos desfechos parecem ser tão inexoráveis quanto duradouros naquilo que se denomina nossa vida político-democrática.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado

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