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Mãos à obra

Antonio Del?m Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A divulgação em Paris, esta semana, da série de "indicadores antecedentes" da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ? OCDE, que trata do nível da atividade nos 34 países mais desenvolvidos do globo, conclui que o crescimento da economia será declinante nos próximos meses, apontando apenas uma exceção: o Brasil.

Não é novidade ? segundo a análise da agência de notícias Down Jones Newswires publicada na edição desta última terça-feira do jornal Valor Econômico (pg. A-13) - que, entre os países desenvolvidos, o principal foco da fragilidade continua sendo a zona do Euro. Os indicadores ? que se mostraram confiáveis no passado - representam um golpe a qualquer esperança que ainda havia entre as autoridades do mundo inteiro de uma rápida saída de um período de atividade anêmica.

Interessante é que depois de mostrar que o "crescimento declinante" não vai poupar Estados Unidos, China, Rússia e Índia , diz o relato da agência que os indicadores antecedentes revelam que "a principal exceção à tendência geral foi o Brasil que teve seu indicador antecedente elevado de 99,0 pontos de abril para 99,2 pontos em maio, o que, segundo a OCDE é sinal que o crescimento do país vai se acelerar."

Até por que não houve tempo para acessar o texto integral do documento da OCDE temos que limitar o comentário, mas é evidente que ele contrasta fortemente com as avaliações pessimistas de um número significativo de nossos economistas e comentaristas que têm ocupado os espaços na mídia nas últimas semanas. Se olharmos em direção à Eurolândia, creio que não há muito o que discordar das análises pessimistas, pois quando se assiste a reação popular furiosa de gregos e espanhóis no momento mesmo que estão recebendo o socorro financeiro dos demais parceiros, é difícil imaginar que a crise social e econômica vai ceder, mesmo com as mudanças de governo.

No caso da China e dos Estados Unidos, a desaceleração que atinge suas economias e os esforços de recuperação têm características claramente distintas: os americanos dependem do resultado da eleição presidencial, até o momento obviamente indefinida, mas pendendo ligeiramente para um repeteco de Obama; já o processo chinês procura repetir o esforço bem sucedido com que enfrentaram os efeitos da crise de 2008/2009, mas mudando o foco para o crescimento do mercado interno, seja estimulando moderadamente a expansão do mercado habitacional e o aumento do consumo interno, seja acelerando os investimentos mais pesados nos setores da infraestrutura e dos transportes.

Seja qual for a visão que se tenha, de fora, da economia chinesa, não resta dúvida que ela vai continuar liderando o desenvolvimento mundial, embora desacelerando dos formidáveis 10% ou 11% anuais para robustos 7,5% ou 8% de crescimento do PIB.

Quanto ao Brasil, é difícil deixar de reconhecer que estamos em situação relativamente mais confortável e que, não sem motivo, somos uma das sociedades onde são maiores o otimismo e a esperança de melhoria no futuro. Ultimamente temos crescido bem menos do que poderíamos, não fossem os efeitos dos furacões financeiros. E, à semelhança da China, voltamos a estimular o crescimento do consumo interno, da construção habitacional e os investimentos pesados nos setores da infraestrutura de energia e transportes.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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