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Entrevista da Semana: Tatiana Turtelli

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

‘A dança é libertadora’

A relação de Tatiana Turtelli com a dança começou com uma necessidade médica. O balé corrigiu seus pés e tornou-se parte fundamental de sua vida.

“Eu andava com os pés ‘para dentro’. Minha família me levou para vários médicos até que um deles indicou o balé como uma possível alternativa antes de partir para a cirurgia. Deu certo e não parei mais de dançar”.

Ainda muito jovem, ela compôs o grupo LTM-Bauru, da escola de dança Sigma. Mais tarde, ingressou na companhia de linguagem contemporânea e técnica-moderna, Corpo Vivo, e estudou com coreógrafos e diretores internacionais, como Rubén Terranova, período em que passou a se dedicar aos estudos em dança do ventre e flamenco, na cidade de São Paulo.

A bailarina e professora ministra aulas de flamenco e dança do ventre no Brasil e na Espanha, país onde também mora, desde 2001, ano em que deixou o Brasil em busca de novos desafios. Confira essa e outras histórias na entrevista que segue, abaixo.  

 

Jornal da Cidade - O que as palavras “dança” e “infância” representam para você?

Tatiana Turtelli - Lembro-me dos filmes antigos que eu via quando eu ainda era bem pequena. Via atrizes dançando, como nos filmes Salomé ou Rainha de Sabá, e sempre perguntava ansiosa para as pessoas que estavam ao meu lado sobre quem eram aquelas mulheres. Elas me diziam e eu pensava que aquilo era o que eu seria quando adulta. Coisas de criança (risos).


JC - E foi assim que tudo começou?

Tatiana - Na verdade eu comecei a dançar quando tinha 5 anos de idade. Tudo começou porque eu andava com os pés “para dentro”, isso porque a cabeça do fêmur nasceu virada para dentro. Eu tropeçava, as crianças riam de mim... Minha família me levou em vários médicos, de várias cidades, e todos diziam que era preciso fazer cirurgia. Mas havia um medo por causa da minha pouca idade, por isso eles sempre buscavam outras opiniões. Até que um ortopedista da cidade de Marília indicou o balé como uma possível alternativa. Se isso não desse certo, aí sim faria a cirurgia. Mas deu certo e não parei mais de dançar. 


JC - Afinal, quais foram os seus primeiros passos com a dança?

Tatiana - Comei no Bauru Tênis Clube (BTC), mas não me lembro direito porque era muito pequena. Depois fui para a Sigma, com a Lucila, onde entrei para o grupo e estou até hoje. Depois, a Adriana Roda, uma bailarina de Bauru que morava em São Paulo, voltou para a cidade e montou um grupo de dança do qual eu fiz parte, o Corpo Vivo. Depois disso, aos 22 anos, eu fui para São Paulo.


JC - Por que São Paulo?

Tatiana - Eu já ia para São Paulo para fazer aulas e dançar. Mas, naquela época, eu tinha operado um joelho e achava que não conseguiria mais dançar balé. Fiquei desesperada porque eu queria continuar dançando e me mantendo com a dança. Pensei sobre o que fazer e, como eu já tinha dado aulas de flamenco e dança do ventre, pensei em me especializar em São Paulo.


JC - Quando se apaixonou pelo flamenco?

Tatiana - Quando fiz um curso com dançarinos espanhóis. Decidi que era isso que eu faria. Entretanto, na época em que fiz o primeiro curso, eu fazia faculdade de tradução na Universidade Sagrado Coração (USC) e decidi concluí-la. Eu queria ir para Madri, mas ainda não tinha dinheiro e optei por me especializar antes de me mudar para a Espanha. Fiz aulas na Casa de Chá, onde também fui bailarina, e no Reyes. Depois estudei no Triana Flamenca e entrei para a companhia. Nessa época, em 2000, eu morei com a Isaura Gusmán, minha professora de balé que me ajudou muito. Sempre tive apoio das pessoas por ser empenhada, gostar de dar aulas e ter paciência com os alunos. Mas mesmo depois de ir para São Paulo e de me especializar em dança do ventre e flamenco, eu não abandonei o balé. Amo o balé e ele me mantém em forma.


JC - E quando passou a ter endereço na Espanha?

Tatiana - Fui para Madri no final de 2001 e, na verdade, eu moro lá até hoje. Vou e volto. Bom, fui em 2001 e fiquei cerca de dois anos sem vir ao Brasil. Como agora lá é verão e período de férias, as aulas são mais raras, um bom momento para vir ao Brasil. A vida na Espanha é mais ou menos a mesma daqui. A gente dá aulas, dança...Entretanto, lá há mais facilidade porque aqui você é vista com indiferença se não estiver em uma companhia, coisa que não acontece por lá. Mas eu sinto que há um certo preconceito do europeu com o povo da América do Sul. Tanto é que quando a gente discute, mesmo brincando, eles dizem: “Mas o Brasil é da América do Sul”, como se isso diminuísse o País. 

JC - O que você faz quando não está dançando ou dando aulas de dança? 

Tatiana - Faço isso na maior parte do tempo (risos). Mas adoro chocolate, gosto de ver filmes, sair para jantar, viajar, tomar banho de banheira... Em Madri há um lugar chamado “Hamman”, que são banhos turcos com sauna e jacuzzi em várias temperaturas, uma delícia.


JC- Houve uma grande apresentação?

Tatiana - Foi legal quando eu dancei no Teatro Municipal, em São Paulo, e fiz a dança do ventre no Estádio Santiago Bernabéu, em Madri. O que também foi legal foi o trabalho na adaptação da Ópera Carmen para um musical na Escola de Artes Operária, que fiz a convite de uma amiga, Milene Munõz, no início de 2011, em São Paulo.


JC - Você tem um ídolo artístico?

Tatiana - Gosto muito do Ney Matogrosso. Sou fã e o admiro como artista, por sua presença de palco, e também como pessoa. Também admiro o Marcelo D2 por suas conquistas e pela crítica social que faz sem papas na língua.


JC - Dança...

Tatiana - A dança é libertadora. Houve um período em que me machuquei, cortei o tendão de aquiles lá em Madri, fiquei três meses sem apoiar o pé no chão e um ano fazendo fisioterapia. Foi enlouquecedor porque precisei parar de dançar. Precisei até parar de andar. Mas sou uma pessoa positiva e pensei que iria conseguir, mas sempre fica um medo, né! Quando você dança, certas coisas não importam, como estar com a meia-calça em ordem, por exemplo. Acho que a arte, no geral, acrescenta isso ao ser humano.


JC - E qual é a dança preferida por seus pés?

Tatiana - Hoje eu acho que é a dança do ventre. E eu gosto muito de ensinar tudo o que aprendi ao longo desses anos.


JC - Já pensou em seguir outros caminhos?

Tatiana - Houve uma época em que a dança estava virando uma obsessão em minha vida. Eu não achava outra coisa para fazer. Procurei uma consultoria para artistas em São Paulo com uma pessoa especializada que me orientou a fazer algo de TV. Antes até tinha feito algumas figurações na TV, como no programa “Sai de Baixo”, da Globo, por exemplo. Quando morei no Rio de Janeiro, em 2006, fiz um pouco de teatro no Laura Alvim. Mas sempre que tinha de escolher, até por conta do dinheiro, eu optava pela dança. Agora abri um pouco o pensamento a respeito disso, mas ainda não tenho nada definido. Fiquei no Rio por sete meses.


JC - Família...

Tatiana - Sou filha de Valéria de Carvalho Costa e Arnaldo Lambertini Turtelli, mas também sempre tive a presença marcante de minha avó materna e já falecida, Neyde de Carvalho Costa e de seu segundo marido José Antônio Stingel. Minha avó Bruna Turtelli também tem grande espaço em meu coração.


JC - Você sempre cita amigos quando fala de sua vida. O que a amizade representa para você?

Tatiana - Ah, é tudo. Tenho muitos amigos desde a infância. E a dança me proporcionou outros tantos, além de professoras de dança maravilhosas, como Soraia Zaied, Isaura Gusmán Guilarte, Lulu Sabongi, Dagmara Brown, Maria Juncal, Karen Teixeira e Lucila Teixeira Mendes.


JC - Um sonho...

Tatiana - Meu sonho sempre foi dançar. Morando na Espanha, eu percebi o quanto ainda há machismo nos países latinos, diferente do que vi na Inglaterra, por exemplo. E essa questão me irrita muito. Então, eu gostaria de colocar em prática um projeto de conscientização e valorização da mulher. A mulher também trabalha fora de casa e, quando volta do trabalho, é justo que o trabalho doméstico fique só com ela? Eu acho que dá para fazer um trabalho legal com as mulheres através da dança do ventre.

 

Perfil

Nome: Tatiana Turtelli

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Aquário

Hobby: Dança e cinema

Livro de cabeceira: “A alma imoral”, um livro que questiona a culpa cristã que carregamos

Filme preferido: “Os Excêntricos Tenenbaums” e “Dr. Strange Love”

Estilo musical predileto: Jazz

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: Para Nelson Mandela

Para quem dá nota 0: Para o machismo e para o racismo

E-mail: tatiturtelli@hotmail.com

 

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