Mesas, cadeiras e armários derrubados, portas de vidro quebradas e marcas de sangue por todo o chão. A Unidade do Programa de Saúde da Família, no Parque Santa Edwirges, foi tomada por um cenário de destruição, na manhã de ontem, depois que um homem em fúria resolveu protestar porque a ambulância do município deixou de levá-lo a uma consulta no Ambulatório Médico de Especialidades (AME).
De acordo com Leandro Aparecido de Paula, 30 anos, que é cadeirante, esta não seria a primeira falha do serviço de transporte oferecido pela Prefeitura de Bauru. “Foram tantas vezes que, em 2010, eu acabei perdendo o tratamento multidisciplinar que eu fazia no Hospital Estadual. Hoje, tenho escaras (ferimentos pelo contato contínuo com a cadeira de rodas), problema renal e não estou tratando nada. Só tenho acompanhamento”, comenta.
Segundo Leandro, foi o descaso do município que o fez, ontem, chegar “a seu limite”. Depois de perder uma consulta com um cirurgião vascular no AME, ele foi até a unidade de saúde do Parque Santa Edwirges por volta das 10h15 e derrubou um armário, duas mesas e diversas cadeiras, além de quebrar um computador e três vidros das portas do posto.
O ataque de fúria causou ferimentos em uma das mãos do cadeirante e o sangue que saía do corte se espalhou por todo o chão da unidade. Segundo testemunhas, ele ainda teria ameaçado atear fogo no posto e agredir funcionários. Mas Leandro se defende, dizendo que quebrou “apenas” móveis, já que não tinha intenção de prejudicar nem os servidores, nem os usuários do local.
“Só queria chamar a atenção para ver se alguém toma uma atitude. Não mexi nos aparelhos, nas vacinas. Não queria prejudicar ninguém”, garante. Mas, mesmo com a “boa intenção”, o atendimento ao público precisou ser suspenso por exigência da Polícia Civil, que realizou perícia no local no final da tarde de ontem para subsidiar o inquérito que será instaurado no 1º Distrito Policial.
A Secretaria de Saúde admitiu o erro e informou que a ambulância foi enviada para outro cadeirante, que possui o mesmo nome do paciente que provocou a confusão. “Houve um equívoco na comunicação interna do serviço e iremos checar se houve outras falhas anteriores, conforme este paciente está afirmando. Mas, de qualquer forma, nada justifica a atitude que ele teve”, argumenta o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti.
Recusa
Inicialmente, no entanto, a informação fornecida ao cadeirante era de que o veículo teria ido buscá-lo em sua casa e que sua mãe teria dito que ele havia desistido da consulta. “Só que minha mãe estava dormindo enquanto eu esperava a ambulância. Eu era o único que estava acordado”, rebate Leandro.
Entretanto, a secretaria afirma que nem sempre a falha foi do serviço. De acordo com a pasta, no dia 26 de junho, o paciente recusou-se a ser levado ao atendimento marcado. Nos dias 2 e 4 de julho, o transporte foi disponibilizado até o seu endereço, onde Leandro não foi encontrado.
O cadeirante depende do transporte há 12 anos, desde que perdeu o movimento das pernas, quando foi atingido por um tiro na cabeça - segundo ele, quando teria sido confundido com um membro rival de um bando morador do bairro onde vive. Na ocasião, ele também perdeu a visão direita e a prótese que usa no lugar do olho, segundo ele, já não é substituída há cinco anos. “E o certo era que fosse trocada a cada seis meses. Eu não tenho o tratamento adequado”, reitera.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que, devido aos danos causados ao prédio da Unidade do Programa da Saúde da Família, tomará as medidas judiciais cabíveis. Também afirmou que a consulta do paciente deverá ser reagendada ainda neste mês, bem como a data do transporte a ser disponibilizado. Até o fechamento desta edição, a pasta ainda não havia calculado o prejuízo causado durante a confusão.
‘Vou fazer de novo’
Leandro Aparecido de Paula garante que, caso novas falhas ocorrerem no serviço de transporte oferecido pelo município, ele voltará a agir. “Se precisar, vou fazer de novo. Toda semana, seja na secretaria, no posto de saúde ou qualquer outro prédio do município. Não tenho nada a perder. A gente pede com educação e as coisas não acontecem. Vamos ver se, assim, eles resolvem alguma coisa”, reclama.
Danos
Ainda na tarde de ontem, Leandro Aparecido de Paula, sua mãe Luzia Aparecida Francisco - que o acompanhava no momento da confusão - e funcionários da Unidade do Programa de Saúde da Família do Parque Santa Edwirges foram ouvidos pelo delegado José Dornelles Costa, no 1º Distrito Policial (DP). De acordo com o delegado, o cadeirante responderá em liberdade a inquérito por dano qualificado ao patrimônio público, cuja pena prevista é de 1 a 3 anos de detenção.
Ao longo desta semana, outras testemunhas serão chamadas a prestar depoimento no 1º DP. As versões apresentadas por elas serão juntadas ao inquérito, assim como as provas colhidas pela Polícia Científica ao longo da tarde de ontem, na unidade de saúde.