Morando há nove anos na rua, a doméstica, atualmente desempregada, Clarice da Silva, 46 anos, sabe descrever bem o que é passar frio. “É uma sensação como se estivessem enfiando uma faca dentro de mim e rasgando tudo”, relata a mulher, que vive em uma calçada da avenida Nuno de Assis.
Os radares do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp de Bauru registraram a temperatura mínima de 6,4 graus às 6h45 da manhã de ontem, a mais baixa dos últimos cinco anos no mês de julho (leia mais abaixo), e também a menor desde o início de 2012.
Para driblar o frio de Bauru, a mulher de aparência e saúde frágeis diz que se contorce entre dois cobertores e usa o calor humano da filha de 28 anos, que mora na rua com ela.
Há cerca de uma semana, Clarice e sua filha, Simone Cristina da Silva, usam uma calçada da quadra 14 da Nuno de Assis como moradia. No local, um pequeno puff marrom e duas cobertas rasgadas feitas com fiapos de restos de tecido são as únicas ‘armas’ que elas têm utilizado nas batalhas contra o frio nas noites deste inverno.
Com simplicidade e demonstrando lucidez, ela conta que antes de ir para a rua possuía uma pequena casa no Jardim Vânia Maria, aos fundos de um terreno que dividia com o sobrinho.
“Eu trabalhava como empregada doméstica. Tinha uma vida normal, mas meu sobrinho desmanchou tudo, então, viemos parar na rua”, narra a mulher, que afirma não ser usuária de drogas.
Questionada quanto ao auxílio prestado pela Secretaria do Bem-Estar Social e quanto ao apoio do Albergue Noturno, a moradora é enfática. “Prefiro morar na rua”, fecha questão.
Clarice, entretanto, tem um sonho que não é diferente dos demais desejos das pessoas que também não possuem condições e acabam transformando a rua em ‘casa’. “Quero voltar a ter condições, não preciso de muita coisa, só de uma casa pra morar”, afirma a mulher, aproveitando para pedir doações de roupas e cobertores.
População de rua
Ao ser comunicada pela equipe do JC sobre a história de Clarice, a secretária do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo, lamenta. “Já oferecemos ajuda a ela. Temos vagas para tirá-la da rua. Esta possibilidade está à mão do cidadão”, disse.
Darlene ainda esclarece que, diariamente, independentemente do período de frio extremo, a equipe da Sebes sai às ruas oferecendo abrigo.
“Já sabemos os pontos que eles costumam ficar, como em frente ao Pronto-Socorro Central (PSC), na Estação Ferroviária, embaixo de viadutos. A maioria aceita ir para o Albergue, casa de passagem, mas alguns não querem seguir algumas regras e preferem a rua do que ter um lugar com cobertor, um prato de comida”.
No Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), que possui convênio com a Sebes, há 70 vagas por dia. Além deste serviço, a secretaria possui um Centro de Referência Especializado de Assistência Social especializado para População em Situação de Rua (Creas Pop) anexo ao albergue, que também funciona como casa de passagem durante o dia.
Bauru também possui um Centro Especializado de Atenção à População de Rua (Centro Pop), onde a população é atendida durante o dia, se alimenta e recebe roupas.
“As pessoas podem voltar lá todos os dias. Do Centro Pop nós encaminhamos para a casa de passagem, para o albergue”, explica Darlene.
Como a demanda para o serviço é muito grande, este Centro Pop já existente na quadra 13 da rua Cussy Júnior será ampliado e mudará para o antigo prédio da Funprev, na rua Joaquim da Silva Martha, no próximo dia 18.
Animais do Zoo: cuidado especial
Devido às baixas temperaturas registradas nos meses de junho e julho, o Zoológico Municipal de Bauru colocou em operação o sistema especial de aquecimento que adota anualmente no período de inverno para amenizar as baixas temperaturas nos recintos de alguns animais.
No recinto dos répteis, o Zoo mantém a temperatura através de resistências elétricas cobertas por terra. Nos aquários há aquecedores que garantem a temperatura da água entre 26 e 27 graus. Já os felinos contam m estrado de madeira para dormir, forrados com capim seco.
Madrugada mais fria em 5 anos
Foi fácil perceber que na madrugada de ontem estava mais difícil de se aquecer sem tirar aqueles velhos edredons e cobertores dos armários. Segundo dados do IPMet da Unesp de Bauru, foi a madrugada mais fria dos últimos cinco anos, levando em consideração apenas o mês de julho.
Às 6h45 de ontem os radares do instituto marcaram 6,4 graus. A meteorologista Rita Cerqueira Lopes explicou que essa queda de temperatura é comum do inverno, quando as chuvas diminuem e, seguida das poucas frentes frias, vêm as massas de ar frio. “As temperaturas devem subir gradativamente”, frisa.