Quioshi Goto |
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José Gonçalves, que comemorou 110 anos, dança com a neta Mauricia de Andrade |
O prato com torresmo sobre a mesa durante os preparativos para a festa da noite denuncia: o tal “segredo da longevidade”, no caso de “seo” José Gonçalves, passa longe dos velhos e batidos mandamentos: comer verdura, não comer isso, não beber aquilo etc...
Apreciador de uma, como ele mesmo diz, boa “amarelinha” ou de uma cerveja gelada de vez em quando, o bom humor parece ser a fonte da eterna juventude de espírito para ele. Simpatizante até mesmo de quem faz piercings e tatuagens, denunciam as bisnetas ao seu redor, José tem uma lucidez invejável, inclusive a muito garotão emburrado.
Radiante e orgulhoso com a camiseta especial que ganhou para os 110 anos completados terça-feira passada, e comemorados ontem com a família na casa onde mora desde a década de 1940, na Vila Independência, José não economiza em sorrisos e brincadeiras com todos que estão ao seu redor - aí, talvez, o tal “segredo”.
Mais do que testemunha do crescimento de Bauru (quando ele nasceu a então vila tinha apenas seis anos de existência), Gonçalves colocou mão na massa para ajudar a fazer da cidade o que é hoje.
Mineirinho
Nascido em Piau, na região de Juiz de Fora, em Minas Gerais, veio ainda adolescente para Bauru. Como a maioria dos migrantes de outros Estados para terras paulistas na época, José chegou para trabalhar nas então pujantes lavouras de café, em fazendas e sítios da região.
Chegou à cidade em meados dos anos 1930, para trabalhar como servente geral no ramo da construção civil. Morador do que viria a ser o Jardim Estoril - “aquilo era uma capoeira medonha”, brinca - ajudou a construir as tubulações que bombeiam a água do rio Batalha para a cidade, até hoje uma das principais fontes de abastecimento.
Sossegado e agora acompanhando de forma mais tranquila o nascimento e crescimento dos descendentes (já na quinta geração após ele), é viúvo de Maria das Dores Gonçalves, com quem teve 11 filhos e 30 netos.
Com a pequena Rafaela (4 meses), a mais nova trineta, no colo, Gonçalves lembra orgulhoso de ter construído a casa onde mora até hoje com as próprias mãos.
Naquela época, ele suava a camisa para carregar caminhões, tempo em que ganhou o apelido de “Zé do Cal”, enquanto a mulher trabalhava como salgadeira e também se dedicava ao acompanhamento de idosos (foi cuidadora da mãe do ex-prefeito Ernesto Monte).
Pé de valsa
Um dos pioneiros da Vila Independência, José Gonçalves viu ser colocado o primeiro tijolo da igreja católica do bairro, São Bom Jesus. Cativo nas celebrações da comunidade católica, admite que um dos principais passatempos, que sempre teve, foi a dança. “Adorava correr para os bailes que tinham por aí”, diverte-se. “Mas a mulher ficava brava e sosseguei.”
Contudo, arrisca alguns passos até hoje. “Ele arrisca uns passos nas festas e fica bravo quando regulamos alguma coisa. Outro dia desses reclamou não ser criança só porque coloquei meio copo de caipirinha”, descontrai o neto Sandro Gonçalves, 48 anos, que denuncia: até passos de funk José já esboçou em recente comemoração. Ontem, a noite foi curta para ele.
