Dados do Ministério da Saúde mostram que anualmente, no Brasil, 4,7 mil crianças morrem e 125 mil são hospitalizadas vítimas de acidentes em geral. Estas lesões acontecem por causa da falta de cultura de prevenção, informação, cuidados no dia a dia, ausência de ambientes adequados às crianças e de leis apropriadas, dentre outros. Desses acidentes, o trânsito responde pela principal causa de morte de crianças e adolescentes até catorze anos, entre todos os acidentes. Do total de lesões que vitimam as crianças, 38% corresponde aos atropelamentos. Dos 62% restantes, muitas mortes e lesões ocorrem pela falta ou uso inadequado das cadeirinhas. Há muita gente que pensa que estes equipamentos são desnecessários; porém, eles podem ser a diferença entre a vida e a morte.
Com o intuito de melhor compreender as ocorrências de acidentes de trânsito envolvendo crianças, a ONG Criança Segura realizou um estudo baseado nos últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, os de 2010. Este relatório acaba de ser publicado e aponta que das quase 1,9 mil mortes no trânsito de crianças de zero a catorze anos, mais de 700 delas foram vitimadas na condição de pedestre. Além das mortes, outras 8 mil crianças tiveram que ser internadas devido às lesões provocadas pelos atropelamentos.
Estes pequenos seres humanos estão mais expostos a esse perigo, pois as caracteríticas e peculiaridades do trânsito suplantam sua capacidade de percepção do risco. Ainda em fase de desenvolvimento, elas são incapazes de identificar, por exemplo, a distância em relação aos veículos e a sua velocidade. Adicionalmente, o ambiente em que elas circulam apresenta, em geral, grande potencial de risco e poucas condições de segurança. Muitos outros fatores contribuem para a ocorrência dos atropelamentos: falta de campanhas educativas para motoristas e pedestres, inobservância aos limites de velocidade, falta de passeios ou em péssimo estado de conservação, sinalização deficiente, sistema viário projetado sem os devidos cuidados para pedestres e a falta da cultura de respeito às leis. Outro aspecto que favorece a ocorrência desses atropelamentos é a ausência de pessoa responsável acompanhando as crianças no sistema de trânsito.
O estudo da ONG Criança Segura relatou, também, que as crianças do sexo masculino foram vítimas em 65% das mortes por atropelamentos; as meninas, 35%. O ranking produzido pelo estudo apontou o estado de Sergipe como campeão em mortes, com taxa de 2,88 por cem mil habitantes menores de 15 anos, enquanto que o Amapá apresentou a menor taxa, 0,90. São Paulo foi o terceiro estado menos inseguro, com 1,06, seguido por Minas Gerais, Bahia e Ceará com, respectivamente, 1,25, 1,36 e 1,46.
Algumas medidas podem e devem ser adotadas para garantir a sua segurança: 1) o adulto deve dar o exemplo de comportamento seguro no trânsito; 2) evitar que crianças menos de 10 anos andem sozinhas pelas ruas; 3) evitar que elas brinquem próximas a acesso de garagens e estacionamentos ou nas ruas; 4) procurar usar sempre os mesmos trajetos para os mesmos destinos, v) vesti-las com roupas bem visíveis ou com materiais refletivos quando caminharem por vias pouco iluminadas, etc.
No entanto, além dessas preocupações, é preciso que o Estado cumpra o Código de Trânsito, que prevê que a educação para o trânsito deva ser garantida às pessoas desde a tenra idade. Este é o exemplo de países desenvolvidos. Dotar a criança de comportamento seguro desde o ensino pré-escolar é fazer com que sejam reduzidos comportamentos desidiosos no trânsito, tal como se tornou lugar comum no trânsito brasileiro. Mudar esta realidade é obrigação do Estado e dos pais.
O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, doutor em engenharia de transportes, coordenador do Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística/CNPq, professor da Universidade Federal de São Carlos e diretor de Engenharia da Assenag - Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. E-mail: raiajr@ufscar.br