Da consternação à revolta. A morte da estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, que ficou aguardando vaga para internação durante três dias em uma maca no corredor do Pronto-Socorro Central (PSC), não apenas chocou, como provocou uma onda de indignação na cidade. O deputado Pedro Tobias pediu apuração rigorosa sobre o caso e afirmou que faltou comunicação e integração entre os agentes de saúde para que a paciente fosse devidamente atendida.
No Facebook, frases de protesto contra a precariedade da saúde pública em Bauru foram sobrepostas a imagens da jovem e compartilhadas por centenas de pessoas. Até a noite de ontem, a reportagem postada pelo Jornal da Cidade na rede social ultrapassava os 200 compartilhamentos, com mais de 70 comentários e cerca de 10 mil visualizações.
Na tarde deste sábado (28), amigos e familiares fizeram um protesto com cartazes, saindo do Vitória Régia para outras vias movimentadas da cidade.
Drielly morreu sem atendimento hospitalar na última quinta-feira. Com diagnóstico de colecistite aguda calculosa (pedra na vesícula), ela sucumbiu a uma hemorragia depois de três dias de espera, possivelmente porque as pedras obstruíram o canal do pâncreas.
Além da estudante, na segunda-feira o aposentado Antonio Toledo, 76 anos, também faleceu no PSC, com suspeita de ter contraído gripe A (H1N1). Uma vaga de internação - com necessidade de isolamento - havia sido solicitada ao Hospital Estadual (HE) no dia 19, quatro dias antes de sua morte.
As duas vidas que foram perdidas pela ineficácia do poder público causaram irritação na população, que, agora, cobra respostas das autoridades. Questionadas, nem a administração municipal, nem o Estado assumiram a responsabilidade pela falha.
A solicitação para a internação clínica cirúrgica de Drielly havia sido feita na madrugada de quarta-feira ao HE, mas, como não havia indicação de urgência no pedido, o Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6) argumenta que não deu prioridade ao caso. Quando o quadro de saúde da jovem se agravou, na madrugada do dia seguinte, o PSC pediu a vaga de internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que foi concedida pelo Estado duas horas depois, no município de Promissão.
“Quando o caso é de urgência, a Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde, mantida pelo Estado) é acionada e começa a procurar leitos disponíveis. Suponho que não tenham encontrado no HE e no Hospital de Base (HB), então foi concedida a vaga em Promissão”, observa a diretora do DRS-6, Doroti Conceição Vieira Alves Ferreira.
Morte inesperada
Ela questionou, entretanto, a demora do pronto-socorro em pedir a vaga de urgência para a paciente. O próprio prefeito Rodrigo Agostinho reconheceu que ninguém esperava que um caso de pedra na vesícula poderia evoluir de maneira tão rápida e letal. Mas, de todo modo, a Secretaria Municipal de Saúde salienta que a vaga para a cirurgia já havia sido solicitada pelo menos 24 horas antes da morte de Drielly.
Doroti admitiu que as internações hospitalares são uma atribuição do Estado e, sobre a morte do outro paciente, revelou que o HE realmente não possuía a vaga necessária, em isolamento. Mas reclamou da postura do PSC, que não acionou o HB em busca de vagas.
O diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, explica que a atitude foi tomada com base no acordo firmado junto à DRS-6. “Neste acordo, houve uma divisão de competências entre o HE e o Base. E essa divisão fez com que, naturalmente, 70% dos nossos pedidos passassem a ser destinados ao HE”, afirma.
Contradizendo a versão do diretor, a DRS-6 ressalta que, por este protocolo, o atendimento dos pacientes de Bauru deveriam ser feitos no Base e os da região, no HE, salvo casos de exceção. De qualquer maneira, este acordo foi extinto ontem por ordem da DRS-6 e, a partir de agora, todos os pedidos de internação eletiva (que não são urgentes) passarão a ser feitos tanto ao HB quanto ao Estadual.
“Essa mudança não vai resolver o problema. Ontem (anteontem), por exemplo, passei toda a minha demanda para a DRS, de 33 pacientes, e eles me ofereceram apenas três leitos no Base. Hoje (ontem), ainda permanecem 28 à espera de vaga”, reclama Sabbag.
Passeata
Na tarde de hoje, parentes e amigos da estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, além de pessoas que perderam entes queridos por negligência do sistema público de saúde irão se reunir no Parque Vitória Régia para uma passeata em direção ao prédio da Prefeitura Municipal, na Praça das Cerejeiras
A concentração está marcada para as 14h, com saída do parque às 15h. A manifestação é organizada pelo Movimento Zeitgeist Bauru, por meio do Facebook. Até o fechamento desta edição, quase 600 pessoas já haviam confirmado presença no evento.
“Esperamos que vá muito mais gente do que isso. Está todo mundo revoltado. Queremos mostrar para todo mundo a nossa indignação e, além disso, lutar para que a Justiça seja feita em nome da Drielly e de todos os bauruenses que dependem do sistema público de saúde”, destaca o namorado da estudante, André Alvarenga.
Pedro Tobias pede apuração rigorosa
O deputado estadual e médico Pedro Tobias (PSDB) mostrou-se indignado ontem com as mortes ocorridas no Pronto-Socorro de Bauru e pediu apuração rigorosa por parte da polícia, Ministério Público e da própria Secretaria de Estado da Saúde, através de um processo administrativo. Em minha opinião, pelo que pude saber até hoje (ontem), falharam todos os envolvidos neste triste episódio. Faltou comunicação, coordenação e, principalmente, menos burocracia e mais firmeza das partes envolvidas (profissionais do Pronto-Socorro, da central que distribui as vagas hospitalares e do Hospital Estadual). O próprio médico, ao ver que o caso era grave, deveria até brigar, se fosse necessário, para que a paciente fosse operada”.
Para o deputado, que semanalmente atende pacientes na Maternidade Santa Isabel, todas as instâncias envolvidas no processo de detecção da enfermidade, internação e cirurgia devem se reunir com urgência para rever, melhorar e aprimorar os procedimentos a fim de evitar novas mortes nos corredores devido ao descaso e à burocratização excessiva do atendimento de urgência e emergência da saúde.
Não há falta de vagas para urgências cirúrgicas. Opera os pacientes mais graves e depois o coloque onde houver condições mínimas para o pós-cirúrgico. Não dá para admitir nenhuma desculpa de falta vaga...”, disse Tobias, ao lamentar que muitos dirigentes da área médica e hospitalar pública não são acionados por chefes de setor subordinados assim que os fatos estarão ocorrendo. Alguns nem moram em Bauru e deveriam se mudar para cá para poder dirigir a saúde com eficiência, conhecimento da nossa realidade e dar respostas rápidas, finalizou o deputado.
‘Crise chegou ao limite’, analisa Agostinho
Em entrevista ao Jornal da Cidade, o prefeito Rodrigo Agostinho afirmou que a crise na assistência hospitalar em Bauru chegou ao limite. De acordo com ele, existe uma “dificuldade enorme” de diálogo com o Hospital Estadual (HE), que criaria obstáculos para receber os pacientes de Bauru.
“É um hospital de portas fechadas, que mantém leitos vagos de reserva e um relacionamento distante com o município”, frisa.
Além disso, ele cita a crise instalada no Hospital de Base, tornada pública em 2009, quando foi deflagrada a Operação Odontoma. Ao longo dos últimos anos, devido à situação de insolvência da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que geria a unidade, o hospital reduziu gradativamente o número de leitos (de mais de 300 para os atuais 178, que não funcionam em sua totalidade), criando um gargalo difícil de ser solucionado para uma região que não para de crescer.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, em um pacto de gestão firmado em 2006 entre as duas esferas, a Secretaria de Estado da Saúde havia assumido a responsabilidade pela rede de atenção hospitalar na cidade. Ele lembrou ainda que, para prestar este serviço em Bauru, o Estado recebe R$ 95 milhões anuais da União.
“O que há é o falseamento da verdade. O município está sendo responsabilizado indevidamente, porque acolheu esses pacientes e deu, com ou sem conforto, um jeito de acomodá-los. Mas culpar o município pelas mortes que aconteceram é algo totalmente injusto”, pontua.
O Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), por sua vez, argumenta que, no mesmo pacto firmado em 2006, o município havia se comprometido a assumir gradativamente uma parcela maior do atendimento de média e alta complexidade. Ainda de acordo com o órgão, o HE tem funcionado com 100% de sua capacidade de atendimento.
Mas o prefeito Rodrigo Agostinho adianta que, por enquanto, o município não possui condições de assumir o atendimento de saúde de alta e média complexidade. De acordo com ele, atualmente a prefeitura gasta cerca de R$ 120 milhões por ano com a manutenção da atenção básica e de urgência e emergência, o correspondente a 25% do orçamento do município.
“Pela lei, o exigido é destinar 15% dos recursos. Vamos inaugurar mais 11 unidades básicas de saúde, além de mais duas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). Hoje, temos 1.537 funcionários contratados e conseguimos solucionar a defasagem de médicos, mas eles não fazem cirurgias. E, hoje, não temos condições de manter um hospital próprio”, defende-se.