Viva Bauru 116 anos

?Viva Bauru?: gente por trás da celebração

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

A celebração enaltece o aniversário da cidade. Música, arte, bolo e, como não poderia deixar de ser, a tradicional e deliciosa combinação de queijo derretido a banho-maria, rosbife e pão francês. Mas há outra receita que pode passar incólume na maior parte do tempo, na verdade o ano todo, mas é um dos ingredientes fundamentais para haver, de fato, festa.


É a vida das pessoas beneficiadas, direta ou indiretamente, pelas entidades assistenciais abraçadas pelo Viva Bauru que, todos os anos, destina 100% da renda obtida com a comercialização do lanche, preparado por voluntários no parque Vitória Régia, para os trabalhos filantrópicos empreendidos na cidade.


Trajetórias de pessoas que renasceram após um caminho que, certamente, conduziria as mesmas para bem longe da festa de hoje ou de gente que ainda engatinha, mas tem os primeiros passos norteados por ações que, talvez, até mesmo não existissem, na falta de iniciativas semelhantes ao evento comemorativo de agosto.

Um dos exemplos de vida repaginada por intermédio direto de uma entidade assistencial é o de Ruy Aparecido Conceição. Quem se depara pela primeira vez com o sereno pastor evangélico, de 64 anos, nem imagina bagagem de vida e de, segundo o próprio, renascimento que traz.


Ao invés do sanduíche Bauru celebrado neste final de semana, Ruy conta ter comido “o pão que o diabo amassou” até meados dos anos 1970, época em que era frequentador assíduo de presídios e pontos de venda de entorpecentes.


Conceição conheceu a droga ainda na adolescência. Filho de família de classe média, moradora da região da Bela Vista, conta que teve uma infância saudável e confortável. Mesmo assim, foi colhido pelas garras do vício, apresentado na forma de um “inocente” baseado e anfetaminas. Daí para adiante, recorda, a vida se resumia a consumo, tráfico e cadeia, muita cadeia.


Página policial, Carandiru... Esses eram outros termos bastante comuns na vida de Ruy, cuja primeira ficha na delegacia foi preenchida ainda quando adolescente, na primeira vez que foi detido por venda de entorpecentes, segundo ele, para sustentar o próprio vício. “Hoje o dependente químico tem tratamento. Naquela época, era cadeia”, sintetiza.


Há 36 anos, recorda, a vida dele tomou outro rumo graças ao trabalho filantrópico de uma das entidades por traz da grande festa que perdura desde o final de semana até quarta-feira, dia do aniversário da cidade. “Vim para o Esquadrão da Vida, onde entrei para me tratar e continuo até hoje, ajudando outras pessoas”, orgulha-se.


Atualmente Ruy mescla a rotina religiosa de pastor evangélico com o aconselhamento aos atendidos pela comunidade terapêutica, que, atualmente, acolhe aproximadamente 70 pessoas com algum tipo de dependência química. Caso não tivesse se deparado com a entidade, ele admite: “eu certamente não existiria mais”.



Dupla dedicação


Se a ação de uma entidade filantrópica faz a diferença em pessoas com alguns anos de sofrimento nas costas, imagina o quanto elas significam na vida de quem já veio ao mundo com algum tipo de problema, ainda mais portando uma deficiência.


Para o pequeno Felipe, filho do casal Paulo Henrique e Cláudia Lopes, moradores da Vila São João, entretanto, as barreiras imposta pelo autismo são minimizadas com muito carinho e amparo, tanto familiar quanto por parte de uma ação voluntária recente, mas que já faz a diferença entre os pais que superam a disfunção que acomete os filhos.


No caso de Felipe, o amor e dedicação são duplicados. Adotado ainda quando recém-nascido, o menino, observa o pai, deu os primeiros sinais de que se tratava de uma criança especial ainda na fase do engatinhar. “Ele demorou mais para andar e para falar. Logo a pediatra diagnosticou o autismo. Somos duplamente abençoados, porque adotamos e ainda somos pais de uma criança especial”, valoriza.


Criado com o mesmo amor dedicado aos irmãos mais velhos Gabriel e Pedro Henrique, Felipe, comenta o pai, é portador de uma modalidade um pouco mais branda da síndrome. Contudo, outras crianças acolhidas pela Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo de Bauru (Afapab), criada há três anos, enfrentam das mais variadas formas de manifestação da deficiência.


“O autismo se difere porque cada portador tem sua particularidade. Não há uma única forma de manifestação”, salienta Paulo, que é tesoureiro da jovem entidade filantrópica.


A associação, justifica ele, foi criada com o intuito de congregar pais que buscam diferentes formas de tratamento, desde psicólogos, neurocirurgiões, fisioterapeutas, entre outros especialistas e que, justamente pela falta de uma característica única da síndrome, encontram dificuldades na busca por auxílio.


Atualmente, contabiliza Lopes, seis crianças são atendidas pela jovem associação, que pretende ampliar seu leque de atuação. No entanto, a falta de recursos e de uma política efetiva de amparo governamental ainda são barreiras maiores do que a deficiência enfrentadas por suas crianças, lamenta ele.



Tesouros guardados


Todos precisam de horas e qualidade de sono, independentemente à idade. Mas, no caso dos pequenos, a necessidade é ainda maior. Ainda mais para crianças que, assim como os pais, precisam despertar, muitas vezes antes do sol nascer.


Em pé logo cedo, elas saem de casa com as mães que as deixam nas creches da cidade antes de encarar a exaustiva jornada de trabalho.


É assim todos os dias com a cozinheira Daniele Rodrigues, de 28 anos, que deixa o pequeno Rafael, de 5, aos cuidados dos funcionários da creche Pingo de Gente, outra entidade benemérita com participação nas vendas do sanduíche bauru durante os festejos de aniversário da cidade.


Para ela, a maior virtude necessária a uma associação filantrópica que cuida de crianças é a confiabilidade. “Precisamos ter toda a confiança, afinal de contas o maior ouro da minha vida está aos cuidados deles”, atribui ela, que confia há quatro anos no zelo da instituição. “Trabalho o dia todo e pego meu menino de banho tomado para ir para casa”, salienta. “O trabalho deles é fundamental e merece ser valorizado”, enaltece.

Entidades: toda a sociedade é cliente

Organizações filantrópicas beneficiam a toda comunidade, observam representantes de instituições assistenciais

Uma comunidade terapêutica serve “apenas” para retirar pessoas afligidas pela dependência química da escravidão do vício? Creches dedicam-se “somente” ao cuidado sobre crianças enquanto os pais trabalham? Se a resposta foi sim, você tem uma visão equivocada sobre a real função das entidades assistenciais para a sociedade como um todo.


Somos todos clientes. Essa é a visão de representantes de algumas agremiações beneméritas da cidade, especialmente as representadas e beneficiadas pela venda do sanduíche Bauru na festa que comemora os 116 anos de Bauru. “Quando se ajuda a uma entidade, não se trata de ser ‘bonzinho’”, salienta Edmundo Muniz Chaves, diretor e fundador do Esquadrão da Vida.


Para o representante da instituição, referência no tratamento e recuperação social de pessoas com algum tipo de dependência química, essa visão de que as entidades filantrópicas agem em prol apenas de determinado grupo afligido por algum tipo de problema, de saúde ou social, é distorcida. “As organizações filantrópicas possibilitam a melhor qualidade de vida para a sociedade toda”, diferencia.


Edmundo vai além: “quando se paga para o desenvolvimento de um trabalho assistencial, na realidade, paga-se pelo próprio sossego, em diversos aspectos”, enfatiza. “Precisamos parar com essa visão de que somos ‘bonzinhos’. É uma reação em cadeia, todos saímos beneficiados, somos clientes das instituições, ainda mais falta de amparo governamental”, acentua Chaves.


O diretor da comunidade terapêutica exemplifica essa realidade como números envolvendo o trabalho da própria entidade em que atua. “O Estado desembolsa quase R$ 3 mil por mês por cada detento. Seria mais gente presa ainda caso não houvesse o trabalho das entidades que recuperam as pessoas envolvidas em problemas com drogas”, complementa o fundador do “Esquadrão”, iniciado em 1972.


Além de auxiliar no caixa das entidades, a festa de aniversário da cidade, observa Edmundo, também contribui para dar visibilidade ao trabalho das mesmas e, desta forma, mudar a visão de amparo meramente pontual às pessoas que se beneficiam diretamente das instituições. “O evento comemorativo torna público o trabalho social”, considera.


Para ele, caso as instituições filantrópicas de Bauru, do dia para a noite, tivessem que fechar as suas portas, o cenário seria aterrador. “Se isso acontecesse, 15% da população estaria jogada na rua. A periculosidade seria muito maior. Enfim, por isso que eu defendo essa ideia de que o cidadão, ao colaborar com uma instituição, ‘paga’ pelo próprio sossego”, argumenta.



Sono garantido


Se o tema em questão é garantir o sono da sociedade com menos periculosidade às ruas, em função do trabalho de resgate por parte das instituições filantrópicas, há uma turma que precisa diariamente daquele soninho gostoso, ainda sem se preocupar com os riscos e tensões do mundo adulto. São as crianças atendidas pelas diversas creches da cidade.


No caso da instituição Pingo de Gente, que é uma das associações beneméritas participantes do Viva Bauru, a sagrada hora do soninho das crianças deve ganhar em breve um espaço mais adequado para esse momento de sossego enquanto as mães estão no trabalho.


Contemplada pela primeira vez no sorteio que define as instituições beneficiadas a cada ano pela iniciativa, a creche, comenta a coordenadora Marcela Suellen Andrade, tem diversas reformas previstas, incluindo, além do espaço para um cochilo mais tranquilo para os pequenos, adequações, exigidas por lei, de acessibilidade para portadores de deficiências físicas. “Não temos dinheiro para todas as melhorias e acredito que a festa é uma excelente oportunidade para obtermos recursos tão necessários”, considera a coordenadora.



Povo solidário


Para o tesoureiro da Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo de Bauru (Afapab), a sociedade é solidária e compreende o papel das entidades. O que emperra um alcance ainda maior do trabalho das instituições é a falta de amparo governamental suficiente para as ações filantrópicas, bem como a burocracia. “Boa vontade geral existe, mas o suporte de governo ainda é raso”, considera.


A solidariedade da população é comprovada pelos números da venda do sanduíche. Na sexta-feira, dia do fechamento desta reportagem, a venda antecipada de lanches superava a casa das 19 mil unidades. A expectativa, enumerou Renato Franco Zaiden, publicitário do Projeto Cidade, que encabeça a organização do evento, está na casa dos 24 mil a 25 mil lanches. “Acredito que domingo e quarta serão os dias com maior saída de sanduíches”, projeta.

O Viva Bauru ocorre desde sexta-feira e continua na quarta, dia 1ºde agosto, quando é celebrado o aniversário da cidade. A realização é do Grupo Cidade, Prefeitura Municipal e Rede Confiança de Supermercados.


A iniciativa é patrocinada por master Shopping Nações, Ajax, Transurb e Cart e patrocínios especiais da CPFL, Bebidas Fernandes, Unimed Bauru e GMR. Apoio: Projeto Cidade, 96 FM, Rádio Auri Verde, TV Record, Corpo de Bombeiros, 1ª Cia. da PM, Tiro de Guerra, Voluntários em Ação, Grupo Escoteiro Tiradentes, Sindicato da Indústria de Panificação e Senai.

 

Comentários

Comentários