Washington - A cem dias da eleição presidencial nos EUA, e com as campanhas de Barack Obama e Mitt Romney, tecnicamente empatados, ganhando ritmo, nem todos os americanos legalmente aptos a votar sabem se poderão fazê-lo no dia 6 de novembro.
O voto não é obrigatório no país, e leis estaduais adotadas nos últimos 18 meses para evitar fraudes, exigindo documento com foto emitido pelo governo - em um país onde não existe RG - podem afastar o eleitor das urnas, sobretudo os mais pobres.
“(Por causa dessas leis), menos gente vai votar”, disse à reportagem Lee Rowland, do Centro Brennan para a Justiça da Escola de Direito da Universidade de Nova York.
“Se essas pessoas tendem a vir de um mesmo grupo - seja por sua renda, etnia ou localização geográfica - é um problema enorme, porque altera o resultado eleitoral.”
O Centro Brennan lançou neste mês um estudo sobre as restrições ao voto, no qual aponta que 5 milhões de pessoas podem ser afetadas pelas medidas e ao menos 500 mil impedidas de votar.
As leis variam de um Estado para o outro (nos EUA, os Legislativos estaduais definem as regras de votação). Mas a maioria exige a apresentação de documentos oficiais com foto, algo que 21 milhões de americanos não têm, segundo o Centro Brennan.
Nos EUA, usa-se para provar a existência para o governo a carteira da seguridade social, que exibe apenas nome e número; a carteira de motorista costuma ter foto.
Negros e pobres
Nesse universo de 21 milhões, mostra o estudo, estão 25% dos possíveis eleitores negros, ante 8% dos brancos, 20% dos que têm até 24 anos e 18% dos acima de 64 anos.
Segundo boca de urna da CNN em 2008, 95% dos afro-americanos (13% do eleitorado) votaram em Obama, assim como 66% dos jovens (10% dos eleitores) e três em cada quatro dos que ganham até US$ 15 mil ao ano.
“Não há dúvida: essas leis visam evitar que certos grupos votem”, diz Rowland.
O estudo foca dez Estados com leis mais restritivas. Todos têm maioria republicana na atual legislatura, constatou a reportagem. “Até 2010, só dois Estados faziam essas exigências”, diz Rowland.
Apenas na Pensilvânia, um Estado decisivo e dividido, são 750 mil sem-documento.
Parte deles nunca teve identificação. Outros, como a nonagenária camareira de hotel Viviette Applewhite, cuja história foi narrada pelo “New York Times”, foram roubados ou perderam a carteira da seguridade, necessária para fazer outros documentos. Com idade avançada, ela não encontra a certidão de nascimento - cuja segunda via pode custar US$ 25.