Tribuna do Leitor

O jogo da vida


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Há anos, em razão da "caça" aos contraventores do "jogo do bicho", escrevi um artigo pesquisado e bem observado na nossa comunidade, sobre normatizar o tema com o respectivo pagamento do que era devido ao fisco. No mesmo artigo, expus todos os tipos de jogos patrocinados pelo Estado e a falta de prestação de contas ao povo, das fortunas recebidas pelo Governo, no nosso Estado e País! E aqui na nossa Bauru existem autoridades, e políticos de nomeada, com coragem e sabedoria para resgatar com dignidade aqueles que mantêm o folclore, o trabalho, e a tradição do Barão de Drummond, pioneiro dessa história após a Proclamação da República, em 1889. A motivação dessa iniciativa eram os animais abandonados e esquecidos no zoológico do Rio de Janeiro, como muitos ainda sobrevivem nas ruas, sujeitos aos maus-tratos dos racionais. Tiveram a ideia de fazer um sorteio entre os frequentadores do Zoo e cada um escolhia um animal ou bicho, para no final do dia receber uma cota do dinheiro apostado, enquanto a maior parte era investida no tratamento e alimentação daqueles abandonados no local. Era colocado numa pequena caixa o nome do bicho do dia.

Essa brincadeira solidária se estendeu nos bairros próximos, expandindo-se para outros, o que para aquela época tornou-se um grande entretenimento para as pessoas mais simples que conheciam apenas o trajeto trabalho-casa. Por mais de um século, 123 anos, a cultura popular permaneceu, e aqui na nossa Bauru está estampada nas ocorrências policiais e nos constrangimentos das pessoas que gostam, aprenderam e querem trabalhar para manutenção de suas famílias. Nada nocivo à população idosa de nosso país, onde crianças, jovens e homoafetivos são vítimas de hediondos crimes. Crianças inocentes, imitando os artistas de ruas, enfrentam os maiores perigos, expostas a qualquer tipo de violência nos semáforos da noite. Sem esquecer que já são torturadas pelo maior vilão do planeta, ou seja, a fome! Concluo com uma assertiva já publicada em todos os jornais da nossa cidade: certamente não será resgatada a moralidade pública pela manutenção apenas de uma "meia-virtude" já que não podemos ignorar a profunda e alardeada corrupção dos costumes decorrentes de outras modalidades de jogos de azar "lícitos".

Para os menos avisados, azar, no sentido etimológico da palavra, significa sorteio e não má sorte. Conclamamos às autoridades legislativas competentes para que legalizem, embora extemporaneamente, esse trabalho cultural e tradicionalmente brasileiro que na trilha musical de Luiz Ayrão, advogado e compositor de renome, canta que "depois do avião, a maior invenção foi o Jogo do Bicho que o Barão inventou, mas o burro jogou todo o trabalho no lixo." E que contravenção é esta que ninguém tem vontade de erradicar? Por quê? Será que alguém, além dos "bicheiros", tem interesse que continue como está?

Professora Catarina Carvalho

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