Turismo

Ushuaia: sem filas nem tumulto

Edison Veiga
| Tempo de leitura: 7 min

Ushuaia - Até os anos 1990, a argentina Ushuaia era um destino de verão. A piada, repetida por dez entre dez guias turísticos na cidade que se diz a mais ao sul de todo o mundo, indica que verão por aquelas bandas não é sinônimo de calor. "Temos duas estações, o inverno e a de trem", brincam.

Há pouco mais de dez anos, quando mesmo no inverno nevado e com termômetros chegando a 8 graus negativos começou a aumentar gradativamente a frequência de voos para lá, a cidade passou a explorar também o que era considerada baixa temporada. O branco por todos os lados favorece a prática dos esportes de inverno. E não apenas esqui e snowboard. As opções vão de leves caminhadas na neve com raquetas nos pés até altas doses de adrenalina a bordo de um snowmobile, ou moto de neve.

Os números ainda mostram que são mais turistas no verão (206 mil no último) do que no inverno (42 mil, em 2011). Mas quem for nos meses mais frios encontrará uma estrutura consolidada. E há uma vontade explícita dos locais de se diferenciarem da popular Bariloche. "Aqui não tem fila, não tem tumulto e cada um faz o que quiser a seu tempo", diz Gabriela Clara Schneier, professora do Centro Invernal Ushuaia Blanca (ushuaiablanca.com.ar; caminhada com raquetas, 40 pesos ou R$ 18 por hora e passeio de snowmobile de 10 quilômetros, 400 pesos ou R$ 180).

Na estrutura do local, conhecido pela modalidade esqui de fundo (ou cross country) - uma espécie de maratona com esqui -, destaca-se a preocupação com acessibilidade. "Damos condições para que qualquer um possa praticar os esportes, de acordo com suas limitações e possibilidades", continua. Ou seja, pessoas com deficiência, idosos e todos os que têm mobilidade reduzida também podem se deliciar na neve.

Cada centro invernal tem seu ponto forte. Llanos del Castor (llanosdelcastor.com.ar) é parada obrigatória para passeios de trenó puxado por cães, tanto que é ali que ocorre o campeonato sul-americano do esporte.

"Infelizmente, manter os cães acaba sendo um problema. Porque só temos neve no inverno, mas os animais comem o ano todo", brinca o administrador do local, Alberto Cichero. São três as raças que vivem por ali: husky siberiano, que atinge oito quilômetros por hora, husky-do-Alasca, 30 quilômetros por hora, e greyster, impressionantes 45 quilômetros por hora.

Mas a cereja do bolo, ou melhor, a calafate do sorvete - para usar uma metáfora mais condizente com as sobremesas da região -, é Cerro Castor (cerrocastor.com; tarifas de 140 a 320 pesos por dia ou R$ 62 a R$ 142). Inaugurada em 1999 e localizada a 26 quilômetros da cidade de Ushuaia, a estação de esqui é moderna e completa e funciona como chamariz para os turistas que vão para o extremo sul do continente em busca de emoções no gelo.

São 28 pistas, de fáceis a muito difíceis - a mais alta tem 1.050 metros de altitude e quase cinco quilômetros de extensão. A estrutura ainda conta com cafés, restaurantes, playgrounds, uma escola de esqui e um ambulatório.

É nossa. Os brasileiros são imensa maioria entre os turistas que escolhem a cidade no inverno. "Já representam quase 70% do total dos que vêm para cá nesta época", afirma o secretário de Turismo, Daniel Leguizamón. "Os argentinos são 30%. Outros países ainda representam uma fração muito pequena."

Não à toa, os centros invernais têm uma atenção muito grande com visitantes do Brasil, inclusive ajudando - e alertando - os que experimentam em Ushuaia sua primeira experiência na neve. "A maior dificuldade dos brasileiros é que muitos chegam com roupas inadequadas ao frio", diz Pedro Vergara, diretor da escola de esqui do Cerro Castor.

Por isso, antes de enfrentar os esportes de gelo, convém passar em uma das lojas do centro de Ushuaia que alugam trajes e calçados impermeáveis e próprios para a neve.

Passeio no Trem do Fim do Mundo é imprescindível

Ushuaia - Passeio imprescindível para quem vai a Ushuaia - por cruzar os bosques do Parque Nacional da Terra do Fogo -, o Trem do Fim do Mundo (trendelfindelmundo.com.ar) é garantia de paisagens surpreendentes, com rios congelados e pegadas de animais, como coelhos.

O trem está relacionado à história da cidade. Em 1883, o governo argentino criou uma penitenciária na região, então praticamente desabitada. No início do século 20, a ferrovia foi instalada para o transporte dos presos. Deixou de operar em 1952 e, 42 anos mais tarde, foi reativada turisticamente. O passeio custa 155 pesos (R$ 68).

Reserve uma tarde para um tour de catamarã pelo Canal Beagle (250 pesos ou R$ 110), para avistar colônias de lobos marinhos e cormorões. É dali que partem os navios rumo à Antártida.
A estrutura de bares e restaurantes de Ushuaia vem melhorando. Aposte no modernoso Küar (kuar.com.ar) e no simpático Bodegon Fueguino (tierradehumos.com/bodegon). Na zona portuária, o El Almacén de Ramos Generales (Avenida Maipu, 749) é decorado com máquinas de escrever, caixas registradoras, lamparinas e outras quinquilharias divertidas.

Chile

Termas de Chillán - O percurso até Termas de Chillán é longo. É preciso desembarcar em Concepción, a cerca de 400 quilômetros de Santiago, antes de enfrentar mais duas horas de carro até alcançar o complexo que conta com dois hotéis e um condomínio de apartamentos.

A maratona, como era de se esperar, vale a pena. O resort recebe principalmente famílias, ávidas por curtir as cerca de 30 pistas disponíveis - e eu, mesmo sendo iniciante, brinquei de deslizar no snowboard (na minha opinião, mais divertido que o esqui). A descida da pista Bosque é menos inclinada, o que dá mais segurança. Ia tudo bem e até estava me sentindo uma competidora dos Jogos de Inverno, se não fossem levados em conta os tombos a cada dois minutos.

Aliás, trata-se da pior parte do snowboard em comparação ao esqui para quem está começando: levantar é demorado. Se você não tiver um bom abdome para se erguer com os pés presos à prancha, vai ter de soltar a bota, levantar, prender a bota novamente e seguir deslizando. Até a próxima queda, claro.

Na minha quarta descida do dia, já cansada de tanto cair, veio o derradeiro tombo de joelho. Com minha "grande habilidade", foi o único ponto do meu corpo que encontrei para parar - não demorou muito para que ele tomasse forma e cor de um tomate antes de começar a arroxear.

Fui me recuperar no spa, com uma massagem corporal completa (R$ 192 por 80 minutos), que inclui esfoliação com a lama local conhecida como fango, hidratação e uma massagem relaxante no final. Mas há pelo menos outras 20 opções de tratamento.

Vêm do subterrâneo também as águas termais que dão nome ao lugar. A piscina no Grande Hotel, aliás, usa água naturalmente aquecida em sua piscina, que tem uma parte coberta (o elevador leva direto à área) e outra ao ar livre, onde se tem a sensação de mergulhar rodeado por neve. Ótima terapia depois de passar o dia deslizando - e caindo - na neve.

Para matar a fome, há três opções de restaurantes: Shangri-lá, de comida variada, com bufê de entradas e sobremesas; El Montañes, de alta gastronomia chilena e vinhos premiados; e Andino, com um cardápio para quem gosta muito de carne. Quem compra o pacote de sete noites (desde US$ 1.850 por pessoa em quarto duplo) tem direito a todas as refeições - apenas no El Montañes é cobrada uma taxa extra de US$ 14. O valor inclui ainda aulas de esqui coletiva. Mais informações: termasdechillan.cl.

De trenó

Mas nem só de esqui e snowboard é feita a estação. Um dos passeios mais procurados é o de trenó puxado por cães (US$ 23 a saída). A operação depende essencialmente da qualidade da neve, que precisa ser mais compacta. Se estiver fofa, o trenó não desliza.

O trenó é puxado por seis cães da raça malamute-do-Alasca, nascidos, criados e treinados na própria área do resort pelo adestrador e cuidador Alejandro Sepúlveda. Uma mistura de husky siberiano com lobo, os cães são enormes - chegam a pesar 70 quilos -, mas muitos dóceis.

Com a neve ideal, podem levar até 300 quilos por passeio. O trajeto é feito pelo belíssimo bosque nevado que cerca o resort, com árvores típicas do Chile como lengas e robles. Lembra o cenário do primeiro filme "As Crônicas de Nárnia". Só faltou mesmo o fauno.

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