O ser humano, em sua capacidade voraz de destruição, é capaz de ceifar as riquezas naturais como fauna e flora, todavia, nos últimos tempos especializou-se em acabar com as mais singelas virtudes relativas ao convívio coletivo e valores sociais passados de pai para filho. Recentemente, eu estava parado em uma importante avenida aguardando um espaço de tempo para poder atravessá-la. Ao lado, me deparei com uma idosa tentando atravessar também. Em um gesto natural, me prontifiquei a ajudá-la, atravessamos juntos e de braços cruzados tal avenida. Para minha surpresa ou não, talvez esperasse por isso, além dos veículos sequer diminuírem sua velocidade, as pessoas ao redor admiravam tal fato, como se este gesto fosse algo utópico.
Desde então, comecei a observar melhor as rotinas do ser humano. Este fato me fez refletir sobre algo que era tão normal em minha infância, mas que a cada dia sofre com a extinção: a gentileza. O mundo globalizado, como dizem os estudiosos, nos deixa cada dia mais ambiciosos com as novas tecnologias, todavia nos distancia dos valores morais da humanidade. A era da urgência, onde não temos tempo para nada, não nos deixa usufruir os mais bucólicos gestos humanos, como respeito mútuo, cordialidade, dizer um mero muito obrigado ou ainda desejar um bom dia a alguém. O estresse tornou-se um hábito, a gentileza uma raridade, fizemos do trânsito uma sinfonia, onde os carros com suas buzinas infernais harmonizam com nossos rostos sombrios, sendo orquestrados por gestos delituosos. Vivemos em um modelo retrógrado de sociedade, movido por falácias, onde demonstramos nossa intolerância, esquecendo uma das grandes virtudes do ser humano: servir. As preocupações com ornamentos, presentes e bens nos fazem perder algo prazeroso, a simplicidade. Retratado por Chaplin em "Tempos Modernos", nos tornamos máquinas, robôs travestidos de seres humanos, esquecendo de que a base moral de qualquer indivíduo vem de sua formação familiar, onde os valores humanos são desenvolvidos e repassados durante a infância e nos orientam durante a vida adulta. Como dizia Nietzsche: "A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade". Pensamos no mundo que deixaremos para os nossos filhos, todavia não pensamos em quais filhos deixaremos para o mundo. Pense nisso!
O autor, Vinicius Canaes, é colaborador de Opinião