“Quando alguém que não sabe o que aconteceu me pergunta onde está minha filha, eu digo que ela foi viajar”. As palavras do operador de máquinas Edvaldo Evangelista, 45 anos, simbolizam uma dor que parece não diminuir. Infelizmente, a filha não está em viagem. Há quatro meses, Evelyn Evangelista, 18 anos, morreu em um acidente na Duque de Caxias. Ela é apenas uma das várias vidas que o trânsito noturno de Bauru tirou em 2012.
Segundo estimativas da Polícia Militar, durante a noite, o fluxo de veículos diminui 70% em relação ao dia. Entretanto, a gravidade dos acidentes se comporta de forma inversamente proporcional. Do total de mortes no trânsito este ano em Bauru, 85% ocorreram entre as 18h e as 6h da manhã.
A cidade teve, de acordo com levantamento da PM, 13 vítimas fatais até agora. Desse total, 11 foram no período noturno.
O caso mais recente incorporado nessa estatística foi a colisão de um carro contra uma árvore e que resultou em duas mortes na madrugada da última quarta-feira.
O tenente Michel Collis Prieto, comandante do Pelotão de Trânsito da PM, confirma que os dados realmente são preocupantes. De acordo com ele, a intensidade dos acidentes noturnos é por conta de uma somatória de fatores, entre eles, o próprio fluxo reduzido de veículos nesses horários.
“As pessoas encontram as vias vazias e acham que podem dirigir em maior velocidade. É por isso que os acidentes são mais graves. Junto com esse abuso, há também a sonolência dos motoristas e o maior vilão, que é o álcool (leia mais abaixo)”, explica.
Em matéria veiculada em novembro do ano passado no JC, o abuso de velocidade noturno já havia sido verificado. Na ocasião, foi divulgado que, mesmo com o pequeno número de veículos de noite, o número de multas representava um terço do total.
Em relação ao perfil dessas vítimas fatais, o tenente Prieto faz um alerta à faixa etária compreendida entre os 18 e 25 anos. “A maior parte dessas vítimas é realmente formada por jovens. Por todas as características da idade, verificamos que são mais vulneráveis”.
‘Pistas de corrida’
Locais de abusos no trânsito durante a noite já são até conhecidos. Segundo o comandante, quase sempre são as principais vias: Duque de Caxias, Nações Unidas e Rodrigues Alves.
O tenente explica que a fiscalização existe e é intensificada nos finais de semana.
O patrulhamento é feito levando em conta os locais já conhecidos e a faixa etária desses motoristas.
“De quinta até domingo, fazemos bloqueios usando etilômetros perto de bares e casas noturnas. Porém, a cidade é grande. Não dá para estar em todos os lugares ao mesmo. As pessoas precisam ter conscientização”, conclui, em tom de alerta.
‘Tribo’ Joias Devolvidas ajuda pais na superação
Há oito anos, a pedagoga Solange da Silva Castro, 45 anos, perdeu seu filho em um acidente de trânsito. Muitos tentaram ajudá-la a superar aquele momento trágico, porém, segundo ela, ninguém falava sua “língua”. “Você acha que é só você que perdeu. Olha seu vizinho e sabe que isso não ocorreu com ele. Então, as pessoas tentam nos ajudar, mas ninguém compreende a dimensão da nossa dor”, conta.
Por isso, em janeiro de 2004, ela resolveu fundar, em Bauru, o grupo de pais Joias Devolvidas. “Costumo dizer que cada um tem sua tribo. E são as pessoas de uma mesma tribo que falam se entendem por meio de sua linguagem”.
O grupo tem atualmente 20 membros que se reúnem mensalmente. De acordo com a idealizadora, os pais só têm duas escolhas quando perdem um filho. “Depois de uma tragédia, nós podemos nos trancar e chorar ou nos levantar e superar a perda. É uma escolha pessoal”.
Momento marcante
No grupo, não há somente pais que perderam filhos por conta de acidentes de trânsito, porém, essa é, de acordo com Solange Castro, uma situação muito presente. Durante as reuniões, os pais contam o ocorrido, trocam experiências e aprendem como conviver com o processo do luto.
“Depois, tem o momento mais marcante, que é o modo como a pessoa vai superar. E isso ocorre somente traçando novos objetivos. Não é algo fácil. A morte de um filho inverte a ordem natural da vida. Mas, é possível superar”, completa Solange Castro.
Mais informações: página do grupo no facebook no link www.facebook.com/joiasdevolvidas.devolvidas.
Mais mortes
O levantamento da PM que contabiliza 13 vítimas fatais no trânsito bauruense leva em conta aquelas que morreram no local ou momentos depois. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foram - ao todo - 18 mortes até o fim de junho, considerando quem morreu em hospítais. O número salta para 21 na somatória pós-junho em um verdadeiro desafio à segurança da sociedade.
|
