Articulistas

A Pátria subtraída

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Começou com bate-boca entre ministros togados o "maior julgamento da República". Leva o número 470, um bom palpite para o jogo do bicho. São 50 mil folhas acumuladas em sete anos de processo, 38 réus defendidos por um batalhão dos mais bem pagos advogados e 141 milhões de reais desviados dos cofres públicos. "Trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber". É assim que o procurador-geral da República Roberto Gurgel qualifica o mensalão, nas alegações finais do processo. No momento em que a consciência do representante eleito pelo povo é corrompida, a base do regime democrático é irremediavelmente ameaçada.

Em "Os donos do Poder" (década de 1950), de Raymundo Faoro, citado por Rangel, o pensador gaúcho faz uma análise da formação do patronato político e o patrimonialismo no país, onde o público e o privado se confundem desde o tempo do Império. A obra disseca o Brasil da colonização portuguesa até a Era Vargas. Pelas palavras de Gurgel, citando Faoro, passamos o governo Vargas, o nascimento de Brasília, o regime militar, a redemocratização - e os costumes seguem os mesmos. A delação do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) em maio de 2005 deu início somente a outro fato episódico, embora o mais lamentável de todos, porque engendrado "dentro das quatro paredes de um palácio presidencial". O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu é citado como mentor da organização criminosa. "Dirceu sabia. Dirceu planejava. Dirceu decidia". Dirceu é citado a cada minuto no libelo acusatório de cinco horas de Gurgel.

Padre Antonio Vieira, em uma série de sermões em 1653 proferidos no Maranhão, alertava ao rei de Portugal: "Perde-se o Brasil, senhor (digamo-lo em uma palavra) porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm buscar nossos bens". E assim continuam os ministros indicados pelos partidos da base governista. O conjunto das provas é suficiente para afastar as principais defesas dos mensaleiros. A recorrência dos saques em dinheiro e o uso de laranjas ? motoristas, assessores, a mulher, o irmão, o contínuo ? evidenciam que os beneficiários do valerioduto não ignoravam a origem ilícita do dinheiro. E a correspondência entre votações e os saques desautoriza a versão de que se tratava de pagamentos desinteressados ou casuais. Nos dez dias anteriores ou posteriores à votação da Reforma Tributária ocorreram dezoito visitas à agência do Banco Rural em Brasília e foram retirados dois milhões no valerioduto. Está nos autos. Em dia de pagamento do mensalão era preciso contratar caminhão blindado. Chega ao deboche. Advogados defensores dos réus querem desmembrar o processo e remeter para a primeira instância os réus que não gozam de fórum privilegiado. Impossível separar tramas interligadas num processo contra uma "organização criminosa", com personagens movidos pelo desejo único de espoliar a nação. Esta tática da defesa é um antijogo. O ministro Dias Toffoli, nomeado para o STF pelo presidente Lula, era até pouco antes assessor direto do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, apontado como chefe da quadrilha. Toffoli vive maritalmente com uma advogada que atuou em favor de pelo menos três dos réus. O ministro faz de conta que nada disso vai interferir na isenção do seu julgamento.

Todos se lembram do dia em que o presidente Lula ocupou uma cadeia de rádio e televisão para dizer que se sentia traído e que o PT devia desculpas ao país. Ali, Lula reconhecia que o mensalão não era, como dizem os petistas hoje, uma invenção da mídia. Talvez por isso o hoje ex-presidente prefira assistir a outros dramas de Ninas e Carminhas, ou se distrair com alguma competição olímpica de atletismo. O mensalão passa a integrar a cultura popular minimizado na novilíngua como "recursos não contabilizados", "sobras de campanha" e "mero delito fiscal". O nome já nos soa caricato e a punição, uma realidade utópica. Cabe agora aos ministros desfragmentar esse cristal que envolve o folclore para provar ao povo que "mensalão" não é uma mera ironia semântica. Com 29 partidos, ainda falta muito ao Brasil para alcançar a marca olímpica dos 40 ladrões que Ali Baba, em astuciosa manobra, prendeu na caverna. Mas, é preciso começar. A oportunidade é agora. O procurador-geral Roberto Gurgel buscou inspiração em Chico Buarque para terminar suas alegações: "Dormia, a nossa Pátria mãe tão distraída/ sem perceber que era subtraída/ em tenebrosas transações". Tenhamos fé. "Vai Passar".


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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