Quem, na existência, não viveu um minuto censurável que gostaria nunca tivesse acontecido?
Aqueles sessenta segundos que ficam marcados para o resto da vida na consciência e nas lembranças que o tempo inexorável conserva? O minuto a causar inquietação e a amarga implicação do mea-culpa.
Aquele não ou sim que deveria ser dito. O aperto de mão recusado. As desculpas rejeitadas. O beijo negado. O toque interrompido. O favor excluído com falsos pretextos. A confiança perdida numa certeza dúbia. O amor rompido por uma palavra bruta num minuto impassível. O minuto do clamor a Deus quase sempre esquecido e somente lembrado quando a dor física ou espiritual abafa e magoa. Momento abjeto nos anos a fazer o sentimento solver do cálice da vida o fel do cruciante minuto.
Ah!... A carga sobre os ombros atravancados pela soberba! Se o homem pudesse fazer o tempo voltar certamente o faria para apagar o minuto marcado a lhe pesar na alma a oprimir o coração e a sepultar a paz. Com poucas palavras numa ação premeditada e incentivada pela corrupção de trinta moedas, Judas Iscariotes, num minuto, entregou Jesus Cristo aos seus algozes. Ainda existe, nos dias atuais, quem recebe as trinta moedas. E são escondidas por traidores que olhos de muitos cidadãos vêem como retos e altruístas.
Um minuto marcando a eternidade com o laivo da avareza ou a gula, a inveja ou a ira, a luxúria, o orgulho ou a preguiça. Se o homem pudesse recuar o tempo para recomeçar, o maldito minuto seria apagado e a paz voltaria à consciência aprisionada na cela da compunção nesse fragmento da essência. "Se eu refletisse um minuto antes... Se eu não fosse tão egoísta naquele minuto... Se eu tivesse pensado um minuto antes de fazer a besteira... Como pude ser tão idiota naquele minuto..." A vida é a realidade independente do condicional "se". De atos da ação planejada e humana exercendo a Palavra do Senhor.
O homem nasceu para ser feliz. Único sentido da vida. Em todos os seus minutos. Livre de qualquer condição. O defeito não é do minuto. É de quem o usou na pretensão de gozar vantagens. Sem pensar na vítima. Do seu minuto pasmoso e da angústia causada. São 1.440 minutos diários. Pode-se ainda apagar o "minuto sinistro" que crucificou a consciência? Independente da idade, aplacar por meio da comiseração? Pode acontecer ao descer do orgulho e se afogar nas águas da humildade? Será sabido lá, do outro lado da vida. Quando? No minuto final cada um saberá!...
O autor, Munir Zalaf, é escritor, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras ? Cadeira 11