Éder Azevedo |
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No acidente, a mãe empurrava um carrinho com bebê; o padrasto estava com outra criança em uma bicicleta |
Em meio às recordações da menina carinhosa, bonita e prestativa, a inquietação de saber quem atropelou e matou Jaqueline de Lima Belo da Silva, 11 anos, acompanhava parentes e amigos que ontem estiveram no velório da criança, realizado numa igreja situada na Vila Alto Paraíso, em Bauru. Conforme o JC veiculou, ela foi colhida anteontem à noite, quando caminhava com o padrasto, irmãos e a mãe no quilômetro cinco da avenida Elias Miguel Maluf. O motorista fugiu do local sem prestar socorro.
Sabe-se apenas tratar-se de uma picape Saveiro prata, cujas letras das placas são DDZ. Por pouco, o desastre não foi maior. O carro só não atingiu Maria Júlia, 4 anos, irmã de Jaqueline, porque o padrasto delas Roberto Aparecido Correa de Lima, 35 anos, teve reflexo e tempo suficientes para empurrá-la. Maria Júlia era conduzida numa bicicleta de adulto, na volta da família para casa, informam parentes.
Os três, acompanhados de Rita de Cássia de Lima, 35 anos, mãe das crianças, e de Nicolas, o caçula de seis meses, voltavam de uma pescaria no rio Batalha. As meninas e Roberto estavam do lado direito da avenida e Rita e o bebê, do esquerdo, no outro lado. Segundo o relato de Roberto registrado no boletim de ocorrência, a Saveiro que seguia para Bauru tentou ultrapassar um caminhão. No entanto, outro trafegava no sentido contrário.
Para evitar uma colisão frontal, retornou e, na volta, invadiu o acostamento. O pneu dianteiro do carro estava estourado, consta no registro da Polícia Civil. Roberto, que foi atingido pelo veículo na perna e na região do abdome, conseguiu salvar Maria Julia, mas embora tenha puxado Jacqueline para impedir o atropelamento, ela foi atingida.
Socorro
Ferida na cabeça, morreu no local, mal iluminado. A mãe, que estava do outro lado da via, se desesperou na tentativa de ajudá-la, conta a funcionária de um motel situado em frente ao local do acidente. Como já trabalhou como enfermeira, além de acionar o resgate, ela tentou prestar algum socorro, mas a criança já estava sem batimentos, afirma. No estabelecimento ficaram o carrinho de bebê e a bicicleta.
A família seguiu para o Pronto-Socorro Central numa unidade de resgate do Corpo de Bombeiros. A perícia esteve no local, que não foi preservado. Até o fechamento dessa edição, o autor do atropelamento ainda não havia sido localizado.
Crianças dizem adeus à amiga
Várias crianças estiveram ontem presentes no velório de Jaqueline de Lima Belo da Silva, 11 anos. Se para algumas o adeus intercalava momentos de dor e brincadeiras, para outras o pranto era incessante. Ininterrupta e intensa, a dor arrancou sangue dos olhos, nariz e boca de Danilo, irmão mais velho de Jacqueline, de 17 anos, conta o avô deles e pastor Aparecido Moraes de Lima.
Danilo vive com ele, assim como Eduardo de 13 anos – outro irmão dos cinco. Já ela morava com a mãe, o padrasto, o caçula Nicolas, Maria Júlia, 4 anos, e Daniele, 15 anos, num imóvel no Jardim Ouro Verde. “Era para ela passar a noite comigo, meu namorado e minha prima. Mas minha mãe ficou preocupada e achou melhor mandá-la para casa. Decidiram sair”, comenta Daniele.
Rodeada de parentes, alguns de São Paulo que acompanharam o pai de Jaqueline, Daniele conta que a irmã cursava a quinta série do ensino fundamental da escola estadual Durval Guedes de Azevedo e queria ser advogada. Prestativa com a mãe em casa, onde ajudava nos afazeres domésticos, também gostava de cuidar de bichos e adorava as coreografias que apresentava no momento de louvor da igreja.
Protesto
Conselhos de origem bíblica e orações foram os meios encontrados pelos amigos para acolher a família, que de forma pacífica também questionava as razões dos radares instalados na avenida Elias Miguel Maluf, próximo ao local do acidente, estarem desligados. Por meio deles, seria possível identificar o autor do atropelamento. “Também pergunto aos governantes a razão de até hoje não terem instalado acostamentos decentes na avenida. Pagamos nossos impostos e não temos nem essa segurança. Hoje a tragédia foi conosco e amanhã?”, questiona Sebastião Benedito Leme, tio de Jaqueline. Ela foi enterrada ontem à tarde, no cemitério do Jardim Redentor.
