Dominar o conhecimento das regras que regem o rico idioma português não é tarefa das mais fáceis. Aquele que, por uma das diversas razões que se apresentam na vida, não foi possível inteirar-se de sua complexidade, até é perdoável algum deslize.
Sobre o assunto já nos manifestamos, através desta coluna, há tempos recentes mas nunca é demais relembrarmos.
Há, todavia, aqueles que vivem ou viverão do conhecimento das suas exigências, de suas normas e de seus detalhes, tendo, portanto, obrigação de dominá-los.
Contudo, não é isso que se vê no dia a dia mesmo entre as classes que se dizem cultas.
Para não nos aprofundarmos muito vamos nos ater a algumas regras de Concordância Verbal, não sem antes sabermos que o conhecimento de Análise Sintática, ainda que incipiente, é de fundamental importância para compreensão e domínio de qualquer assunto.
Exemplo de verbo seguido de Índice de Indeterminação do Sujeito. Temos, casos em que o verbo está acompanhado pelo Índice de Indeterminação do Sujeito que é a partícula se seguindo um verbo que não é transitivo direto. E neste caso o verbo ficará obrigatoriamente na terceira pessoa do singular mesmo que o complemento esteja no plural. Exemplos: Precisa-se de datilógrafa (singular). Precisa-se de datilógrafas (plural). Necessita-se de empregada (singular). Necessita-se de empregadas (plural). Trabalha-se em lugares poluídos. Vive-se bem aqui. São exemplos de verbos transitivos e verbos intransitivos respectivamente que, como já foi ressaltado acima, deverão manter-se sempre no singular.
Todavia, quando o verbo vier acompanhado do Pronome Apassivador se, concordará normalmente com o sujeito, que estará expresso na oração. Exemplos: Vende-se uma casa de veraneio (singular). Vendem-se duas casas de veraneio (plural). Aluga-se apartamento. Sujeito: apartamento (singular). Alugam-se apartamentos. Sujeito: apartamentos. (Plural). Procuram-se políticos honestos.
Note que o pronome apassivador se está ligado a um verbo transitivo direto, numa frase da voz passiva sintética.
Voz Passiva Sintética ocorre quando um fato é narrado por um verbo na terceira pessoa, do singular ou do plural, seguido da partícula se. Voz Passiva Analítica ocorre quanto temos uma locução verbal formada por um verbo auxiliar mais o particípio passado do verbo principal. Exemplos: Tinha estudado. Havia vencido. Foi expulso. Estava atrasado.
Por isso, quando no dia 22 de junho, sexta-feira, abrirmos este jornal e lemos na página dois: Contrata-se Criadores de Leis ficamos decepcionados com a manchete. Tristes por vermos onde está a qualidade do ensino no Brasil e mais ainda, muito mais descrentes ficamos quando vimos a futura profissão de quem a escreve.
É uma pena que isto aconteça. Daí explicar-se por que há vagas no mercado de trabalho faltando pessoas competentes para preenche-las. Há poucos dias, assistimos, no Jornal Hoje da TV Globo, à reportagem em que uma gerente de RH de uma empresa dizia que há uma única vaga em seu quadro de funcionários para ser preenchida há seis meses e apesar de já realizados vários concursos com candidatos à ocupação dela a referida vaga continua em aberto por falta de profissionais que preencham os requisitos necessários à sua ocupação. Exibindo algumas provas preenchidas pelos candidatos postulantes ao cargo, lia-se: Ediondo, Esprimir, Espressão, Exceção, Apresso, e outras aberrações.
Há tempos, um filme nacional ostentava o garboso nome "Aluga-se Mulheres". Porém, tudo isso é nada para quem já viu em anúncio de jornal: "Dá-se aulas particulares de português". Logo de português!
Ninguém se manifesta, ninguém reprova, ninguém critica. Isto, além de ser a celebração da ignorância, é sobretudo uma afronta aos pobres que estudam. E também uma agressão aos homens que sabem. Num Brasil pelo avesso, os que aprenderam português, logo terão que pedir licença aos analfabetos para expressar-se corretamente. Há quem se orgulha da formação indigente e despreza o conhecimento. Há quem se orgulha de nunca ter lido um livro, pois levado por uma casta de analfabetos tornou-se Presidente da República. Isto, contudo, não nos credencia a afirmar que uma boa formação intelectual transforma um homem em bom presidente. Haja vista os que lá estiveram.
Em passado recente, ao entrar na Biblioteca Municipal de uma progressista cidade do interior de São Paulo, deparei-me, abismado e incrédulo, com um aviso afixado logo na entrada, escrito em letras garrafais: "Doa-se Livros". Notem que se trata da Biblioteca Municipal. Soube, depois, indagando, que todos os que trabalham ali são concursados.
Por isso antes de falar ou escrever, principalmente os que se dizem letrados, vamos pensar para não cairmos no ridículo e difundir nossa falta de cultura aos menos esclarecidos. É uma pena que isso aconteça.
Edson de Oliveira