Somos hoje uma espécie ameaçada: em decorrência do consumismo exacerbado estamos ameaçando nosso próprio futuro e possivelmente a totalidade da vida em nosso planeta. Não temos vivido nem agido como seres coerentes, em harmonia com os outros ao nosso redor e com a natureza; em vez disso, nos tornamos seres "fora de sintonia", fora do tom. Viver uma existência com escassez de tempo, riqueza de estresse e falta de segurança interior frequentemente nos impele a tentar preencher o vazio resultante cercando-nos de coisas externas que não nos sustentam nem ao restante do mundo.
Não podemos esquecer duas coisas: que mais, maior e novo não significam necessariamente melhor e que a riqueza exterior não consegue mascarar a pobreza interior. Levantamentos internacionais sobre a felicidade, realizados ao longo de muitos anos, mostram, de maneira consistente, que uma vez que temos recursos materiais suficientes para suprir nossas necessidades, isto é, quando atingimos o limiar do "basta", o fato de termos mais, em vez de nos tornar mais felizes, na verdade tem o efeito oposto. Esses relatórios deixam claro que, independentemente da sociedade em que vivemos, o que nos torna felizes é uma vida significativa, na qual experimentamos relações amorosas que nos apoiam, na qual buscamos objetivos gratificantes; uma vida onde o prazer está em acontecimentos do dia a dia e que nos proporcione tempo suficiente para explorar nossos campos de interesse. Nada disso o dinheiro pode comprar.
Infelizmente, nos países em desenvolvimento, o impulso do materialismo e do consumismo ainda está se acelerando; neles um contingente muito grande de pessoas continua a aspirar por um estilo de vida que já pode ser considerado obsoleto. Quando a mídia e o governo incentivam a gratificação instantânea mantém as pessoas coletivamente imaturas. A razão disso é simples: quando as pessoas se comportam como crianças, elas são ao mesmo tempo consumidoras ávidas e politicamente dóceis. No entanto, há hoje alguns poucos sinais de que estamos mudando as maneiras como pensamos, sentimos e nos comportamos. Estamos assumindo mais responsabilidade para com nós mesmos em nossas escolhas pessoais e coletivas. Estamos, cada vez mais, ouvindo, prestando atenção e confiando em nosso próprio conhecimento interior. Estamos nos tornando mais empáticos com relação ao sofrimento resultante da privação ou da injustiça. Estamos ansiando por paz e harmonia. Como acontece em todas as revoluções, essa mudança fundamental na sociedade não surge como tendência ou, muito menos, vinculada ao terreno central de interesses organizados e bem assentados que representam o status quo. Surge, isto sim, nas margens da sociedade, com pequenos grupos que procuram uma nova maneira de ser e de viver.
Essa mudança é energizada por iniciativa de algumas pessoas, livres pensadores, religiosos, cuja compaixão é inclusiva e cujo poder ou autoridade de que são investidas é distributiva e cooperativa. Em sua expressão mais simples, essas pessoas estão cientes da missão da humanidade: promover a evolução espiritual. Isso pode soar como um ideal abstrato, muito afastado de nossa vida e de nossas preocupações cotidianas, mas não é. É uma missão eminentemente concreta e prática e a compreensão que temos dela é agora uma necessidade urgente. Ela é importante para nosso futuro iminente e o de toda a vida na Terra. Essa mudança acontece com pessoas que se reúnem em busca da coerência, que querem estar em sintonia com o mundo e afinadas com ele. Essa mudança acontece com pessoas que se reúnem não em busca de poder e riqueza, mas, de uma percepção mais expandida de seu papel neste mundo físico.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru