Meu melhor vizinho
“Ele é o meu melhor vizinho”. É com essa frase que o pequeno Matheus Terra de Oliveira, 7 anos, define o amigo e vizinho Davi Abdala Pimenta, 8 anos. A reportagem do JC nos Bairros percorria as ruas do Jardim Carolina quando encontrou os dois, sentados na calçada, brincando com alguns dragões de plástico e umas sementes de árvores, que serviam como moedas improvisadas.
“A gente brinca de todos os tipos de brincadeira. Geralmente, começamos no início da tarde e só paramos à noite, quando minha mãe chama”, completa o menino.
Apesar de pequenos, Matheus e Davi já conhecem na prática o significado da palavra vizinhança: eles dividem brinquedos, resolvem seus pequenos desentendimentos de opiniões e passam bons momentos juntos.
“Eu nem sabia que o Matheus era meu vizinho. Daí, um dia, eu vi ele brincando na calçada e perguntei se eu podia brincar junto. Ele disse que sim e então ficamos amigos. Para mim, é muito bom, pois tenho com quem brincar quando não estou na escola”, conclui Davi.
A mãe dele, Michelle Batista, concorda. Ela considera importante estimular o relacionamento do filho com os vizinhos, especialmente com as crianças da mesma idade.
“Acho importante para a formação dele. Além de ele estar brincando perto de casa, sob os meus olhos, ele aprende a compartilhar as coisas, debater opiniões e chegar a um consenso de forma amigável, mesmo que se trate de uma discussão sobre qual será a próxima brincadeira”, afirma Michelle.
Vizinhança ponta firme
Diferente da maioria das meninas de sua idade, Ana Flávia Zuardi, 15 anos, adora seus vizinhos. Nascida e crescida na mesma rua, ela vê as pessoas que moram no mesmo quarteirão de sua casa como membros da família.
“A minha vizinha aqui do lado eu chamo de vó. Não é de sangue, mas é de coração. Quando eu era pequena, minha mãe precisava trabalhar e me deixava sob os cuidados dela. Para mim, é como se fosse da família”, conta ela, que, mesmo não sendo mais criança, tem o hábito de passar algumas horas do dia na casa da avó postiça.
A mãe de Ana Flávia, Ana Paula Zuardi, 46 anos, explica: “Ela é assim mesmo. Como conhece todos os vizinhos há muito tempo, tem liberdade com todo mundo. É uma grande família”.
E a ótima relação com a vizinhança é o que mantém a família Zuardi há anos no mesmo endereço. Sempre que Ana Paula cogita a hipótese de mudar de casa, Ana Flávia interpela a favor da permanência.
“Não tem como. Só se fosse para outra casa no mesmo bairro, aqui no Geisel, para continuar perto dos vizinhos”, conta.
Fátima Lima, 55 anos, e Aparecida Macedo, 67 anos, vizinhas da Ana Paula e Ana Flávia, confirmam o bom relacionamento apontado por mãe e filha.
“Costumam dizer que nosso vizinho é nosso parente mais próximo e eu realmente acredito que isso seja verdade. Aqui, nesta rua, nosso relacionamento é muito bom”, confirma Fátima, que de tão tímida não quis sair na foto.
“Não são vizinhos mexeriqueiros, que se preocupam em cuidar da vida do outro. Somos amigos sem sermos invasores. Não precisa ficar o dia todo enfurnado na casa do vizinho para demonstrar amizade. Isso se pode comprovar nos momentos de necessidade”, acrescenta Aparecida.
“É, mas eu gosto de ir à casa de todo mundo!”, rebate Ana Flávia, para a descontração geral da vizinhança.
“Mas você não conta. Você ainda é criança e um pouco filha de todo mundo”, replica Aparecida, que mora no bairro há 36 anos.
Festa entre vizinhos
Amizade, cumplicidade, parceria, apoio. Na opinião de Helena Quialheiro de Oliveira, 75 anos, todas estas palavras podem ser utilizadas para compor o conceito que ela tem do termo vizinho.
Acredito que o bom vizinho é aquele que está sempre disposto a ajudar, a dar apoio. Esse, sim, é muito importante na vida de qualquer pessoa. Já os que se preocupam com fofocas são dispensáveis”, resume.
E é com a intenção de celebrar os bons vizinhos que conquistou pelos bairros onde morou que há 17 anos Helena comemora o Dia do Vizinho. Segundo ela, tudo começou em 1995, quando comentou com uma vizinha que sentia vontade de colocar algumas mesas na rua e reunir os vizinhos para um bate-papo.
“Sempre tive essa vontade, mas nunca saia do papel. Então, no dia 20 de agosto de 1995 vi uma reportagem no jornal falando do Dia do Vizinho, instituído por Cora Coralina. Pensei: essa reunião tem de ser hoje”, lembra.
Após mobilizar os vizinhos para que cada um levasse uma comida ou bebida, Helena satisfez sua vontade. “Reuni 60 pessoas, assim, de última hora, acredita?”, conta, orgulhosa, ela que chegou a receber um telefonema e, posteriormente, uma visita de agradecimento de Nise Bretas, nora de Cora Coralina.
Depois disso, o Dia do Vizinho passou a ser esperado por toda a comunidade. Há alguns anos, porém, a comemoração correu o risco de ser extinta, afinal, sua principal incentivadora estava mudando de endereço.
“Extinta? Que nada! Quando me mudei para o prédio, trouxe a comemoração ao Dia do Vizinho junto de mim. Além dos novos vizinhos que fiz por aqui, trouxe os antigos para comemorar também”, afirma.
E como este ano não poderia ser diferente, a comemoração em homenagem ao Dia do Vizinho está marcada para amanhã no fim da tarde. Enquanto a data não chega, Helena e suas vizinhas curtem a amizade que construíram e se divertem sempre que podem em animados encontros para o chá da tarde.
Vizinhas e amigas
Mais do que primas, Marina Fournier Araújo, 25 anos, e Mariana Borlina Fournier, 20 anos, são amigas. E, mais do que amigas, são vizinhas. E é com base nesta tripla ligação que o relacionamento entre elas foi construído.
“Meus pais mudaram para a Vila Dutra pouco tempo após meu nascimento. Alguns anos depois, nasceu a Mariana. Então, posso dizer que desde que me conheço por gente sou vizinha da Mariana. Crescemos juntas, brincamos muito juntas e, hoje, somos superamigas”, explica Marina.
Mariana compartilha do mesmo sentimento e acredita que o fato de serem vizinhas só contribuiu para a aproximação entre elas.
“Tem parente que nem convive tanto com a gente quanto nosso vizinho. No nosso caso, tudo ficou mais simples, afinal, além de primas, somos vizinhas”, explica Mariana.
Da infância, Mariana e Marina se lembram das tardes que passavam na rua brincando, cantando ou simplesmente conversando. Da adolescência, se recordam das noites de calor que costumavam aproveitar batendo papo na calçada.
“Crescemos juntas. Ali, no nosso grupo, outras crianças da nossa idade também participavam. Para mim, ter esse relacionamento com os vizinhos desde pequena foi bom porque aprendi a dividir as coisas”, avalia Marina.
E dividir é a palavra de ordem na amizade entre Mariana e Marina. Ordem, é claro, facilitada pela proximidade entre as casas.
“Durante a semana é mais difícil nos encontrarmos, mas, aos finais de semana aproveitamos bastante. O fato de sermos vizinhas facilita muito nessa hora: além de frequentemente nos arrumarmos juntas para sair, é muito comum recorrermos ao guarda roupa uma da outra nos momentos de necessidade”, comenta Marina, rindo.
Vizinhança republicana
Segundo o dicionário Houaiss, o significado da palavra vizinho é “que vive ou habita próximo a alguém”. Mas para Raíssa Fernanda Rodrigues de Moraes, 20 anos, essa definição é falha, especialmente quando se trata de sua vizinhança, em específico.
“É a melhor vizinhança do mundo! Eles são mais que vizinhos: são amigos e parceiros para todas as horas”, afirma.
A empolgação de Raíssa tem justificativa: quando fala de vizinhos, ela, que mora junto de outras sete meninas em uma república chamada Amoricana, refere-se aos 9 moradores da república Cabaré.
A constituição de uma vizinhança tão peculiar como esta teve início em abril do ano passado. Os primeiros a morarem no quarteirão 5 da rua Henrique Savi foram os habitantes da Cabaré, entre eles Lucas Samogyi Cavalcante, 19 anos.
“Somos estudantes do curso relações públicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e estávamos em busca de um grupo para formar uma república e dividir os gastos. Então encontramos esta casa. Aqui moram, além de mim, quatro moradores fixos e outros quatro esporádicos. Ah, tem também uma cachorra”, enumera.
As meninas da Amoricana chegaram cerca de três semanas depois. Veteranas dos habitantes da Cabaré, não demorou para que o entrosamento entre eles aumentasse.
“Nós nos damos muito bem. É uma relação de vizinhança muito legal. Entre os pontos positivos, posso destacar o fato de eles estarem sempre dispostos a ajudar e a companhia diária”, conta ela, que já recorreu aos vizinhos diversas vezes por motivos que vão do medo de ficar em casa sozinha ao pedido de um ingrediente que estava faltando para terminar a comida.
Lucas compartilha da mesma opinião de Raíssa. Para ele, as vizinhas são uma espécie de porto-seguro.
“Somos muito próximos. É sempre bom saber que você mora ao lado de pessoas que estão sempre dispostas a ajudar, seja nos bons ou nos maus momentos”, ressalta.
E a liberdade é tanta que fatos inusitados entre os vizinhos não são raridade.
“Temos plena liberdade com os meninos, inclusive, para entrar na casa deles. Teve uma vez que eu e as meninas fomos entrando na casa e, quando chegamos na sala, pegamos todos de cueca, vendo TV. Foi muito engraçado”, conta, rindo.
E se os vizinhos republicanos estão cheios de motivo para sorrir, o mesmo não se pode dizer de alguns outros vizinhos.
“É... eles implicam um pouco”, resume Lucas, rindo.
Nem tão querido assim...
Reclamar a um vizinho que determinada mania ou gesto dele está incomodando não é tarefa fácil. Como abordá-lo sem ser indelicado? Como dizer isso a ele? Será que ele não se toca? Expor a insatisfação no jornal, então, é uma hipótese fora de cogitação.
Fazer uma matéria sobre o dia do vizinho e citar apenas casos de vizinhança feliz é o mesmo que falar do Vaticano sem citar o papa. Não dá. Fica incompleto. Por isso, para abordar a questão, a editoria do JC nos Bairros optou por dar nomes fictícios aos seus entrevistados. Sob essa condição, não faltaram interessados em desabafar. Todos tinham histórias que pareciam ter saído direto das páginas de um livro para contar.
Ana Maria, 30 anos, vive um grave dilema: gosta do lugar onde mora, mas está cogitando mudar-se do apartamento para uma casa por conta do hábito que sua vizinha de cima tem de limpar a casa durante a madrugada.
“Tem dias que são 4h e ela resolve lavar o banheiro, faxinar a casa... Isso quando ela não fica desfilando de salto pelo apartamento! Outro dia, passou dos limites. Eu já havia cansado de reclamar para o síndico e nada foi resolvido, então, bati na porta dela de madrugada para reclamar pessoalmente. O que me irrita é que ela se faz de desentendida”, desabafa.
Clarisse, 39 anos, também tem problemas com o vizinho. Na verdade, mais especificamente, com o cachorro do vizinho. Contudo, diferentemente de Ana Maria, suas reclamações, por enquanto, se restringem ao Facebook.
“Não aguento mais esse cachorro latindo a noite toda. Será que o vizinho não se toca? Como pode deixar o bicho sozinho, trancado em um apartamento?”, reclama.
Certamente, Ana Maria e Clarisse, não têm muito que comemorar no Dia do Vizinho.
Dicas de boa vizinhança
"Pessoas educadas não incomodam ninguém". É com essa frase que Glorinha Braga Ortolan, consultora de etiqueta social, resume todas as dicas para uma boa convivência entre vizinhos. Mas quando o assunto é a necessária convivência entre hábitos e pessoas diferentes, nunca é demais reforçar as dicas para manter uma boa relação com a vizinhança. Confira abaixo 10 dicas dadas por Glorinha.
Cumprimentar os vizinhos é fundamental, mesmo que não seja uma pessoa tão próxima;
No caso de prédios que possuem elevadores, os animais devem sempre ser carregados no colo;
Quem mora em apartamento nunca deve bater tapetes ou colocar panos na janela;
O horário ideal para fazer faxina em apartamentos é durante o dia, contudo, a tolerância deve imperar neste caso, já que, em muitos casos, a pessoa só dispõe de um determinado horário para isso;
Andar de salto dentro do apartamento pode incomodar quem mora embaixo;
Apaixonados por futebol nunca devem extrapolar. Torcer é permitido, mas deve-se evitar gritar;
Música muito alta incomoda os vizinhos;
Aparecer na casa da vizinha sem avisar ou permanecer muito tempo no local incomoda: pessoas desocupadas atrapalham pessoas ocupadas;
Nunca atribua-se intimidade. Abrir a porta da geladeira ou ficar andando pela casa do vizinho é um erro grave.
A relação entre vizinhos deve ser pautada pelo respeito e pela tolerância.