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Sentimento, infância e intimidação

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Não existe um sentimento único ou estereótipo entre as pessoas que cometeram um homicídio. Esse é o diagnóstico de Sumaia Inaty Smaira, professora-doutora do departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

Segundo ela, é muito comum as pessoas, de forma geral, facilmente associarem motivações para os crimes do gênero.

Uma das atribuições mais clássicas, e atuais, elenca a psiquiatra, é a possível intimidação sofrida pelos acusados na infância ou juventude, ou bullying.

Ela exemplifica ao citar dois casos emblemáticos: o atirador do cinema no Colorado/EUA, que, no final do mês passado, massacrou 12 pessoas e feriu outras 58 durante a estreia do novo filme do Batman e do atirador de Realengo, que, ano passado, entrou armado numa escola do bairro carioca e matou 12 estudantes.


Em cadeia

De acordo com a psiquiatra, é preciso muito cuidado ao taxar os sentimentos dos envolvidos, seja nas supostas emoções motivadoras quanto ao que vivenciam após os crimes. “No caso do bullying é preciso cuidado ao divulgar, da mesma forma que suicídios”, observa, relacionando os holofotes a provável “reação” em cadeia, com novos casos.

De acordo com a especialista, a generalização é a principal inimiga tanto para avaliar causas como consequências. “Em cada caso deve haver um estudo, uma avaliação detalhada. Toda situação, seja de motivador ou possível remorso, está ligada a um histórico de vida. Nem todos sentem culpa”, salienta.

 

Matador de aluguel: drama e literatura

A vida de quem carrega a morte nas costas, de uma forma ou de outra, instiga e motiva obras literárias seja no gênero jornalístico quanto no campo da psiquiatria.

Entre elas, “O Nome da Morte” (Editora Planeta, 256 páginas), assinado pelo jornalista Kléster Kavalcanti, narra a saga, verídica, de Júlio Santana, matador de aluguel que deu cabo à vida de quase 500 pessoas, antes dos 35 anos de idade.

Entre as vítimas de Santana está a professora Maria Lúcia Petit (criada em Bauru e nascida em Agudos) morta a metralhadas durante ofensiva do regime militar à guerrilha do Araguaia, da qual ela fazia parte.

Os militares, conta o livro, chegaram até Maria Lúcia com auxílio de Júlio, que, criado em meio às matas e rios da região, conhecia o local (e quem se escondia nele) como a palma da mão.


Anos a fio

Essa e outras mortes estão no “currículo” de Júlio, que, de acordo com o autor do livro, foi entrevistado durante anos a fio, sempre por telefone e que, somente após longa negociação, topou revelar a identidade.

Santana hoje estaria longe da pistolagem e viveria num sítio de região não revelada na obra. No caso do personagem abordado por Kavalcanti, o remorso se manifestava na forma de “pedir perdão” após cada bala disparada. Dez ave-marias e vinte pai-nossos.

No caso do entrevistado pelo jornalista, ao menos conforme descrito no livro, não há traços do típico psicopata, com cara amarrada, cicatriz no rosto ou resquícios de intimidação quando adolescente.

 

Mentes perigosas

Desmistificar os estereótipos sobre psicopatas que, eventualmente, podem ter potencial assassino é uma das premissas do livro “Mentes Perigosas”, o “Psicopata Mora ao Lado” (Editora Fontanar, 210 páginas), da médica psicanalista carioca Ana Beatriz Barbosa Silva. De acordo com a obra, psicopatas não são, necessariamente, assassinos.

Conforme a especialista, pessoas acometidas por algum tipo de psicopatia correspondem a 4% da população.

Os crimes cometidos pelos mesmos, de acordo com a autora, não provêm de mentes adoecidas, mas sim de um raciocínio calculista.

Segundo a médica, que tem mais de 150 mil livros vendidos, a maioria dos psicopatas matam a sangue-frio apenas em casos extremos.

O poder destrutivo de pessoas com esse tipo de desvio comportamental, de acordo com o livro, é manifestado através da manipulação sem culpa, por parte de pessoas que não medem esforços para satisfazer seus objetivos.

Diferentemente do tipo presidiário tatuado ou matador de aluguel, psicopatas, atesta a autora, são encontrados nas vestes de religiosos, políticos ou até mesmo amigos. Essas pessoas, define ela citando outros autores, “entendem a letra de uma canção mas não compreendem a melodia”, sobre a total ciência dos atos, mas incapacidade emocional. 

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