Nos moldes dos salões antigos, com uma clássica cadeira de fazer a barba inclinada, Orides Gonçalves, 76 anos, é o único barbeiro de Bocaina (69 quilômetros de Bauru). Nascido e criado na cidade vizinha de Jaú, ele aprendeu a fazer barba nos idos dos anos 50.
Começou como oficial de barbeiro na época em que era exigida a carteira de saúde para exercer a profissão.
“Eu tenho uma carteira de saúde de 1954. Nessa época, eu era oficial de barbeiro. Exigia-se carteira de saúde. Tinha fiscalização do departamento de saúde. Eles checavam se o barbeiro e o oficial não tinham doença contagiosa que pudesse ser transmitida aos clientes. Todos os profissionais da área passavam por avaliações.”
O barbeiro conta que o salão era de José Macedo de Avelar , mais conhecido como Jeca Macedo.
“Comecei varrendo o salão e observando. Depois de certo tempo e alguma orientação, passei a atender os portadores de deficiência. Só eles se submetiam a fazer barba comigo, porque eu não tinha intimidade com a navalha. Naquele tempo não tinha lâmina como hoje.”
Orides lembra com saudade do tempo e das dificuldades em fazer corte na navalha. “A maior dificuldade era deixar a navalha no ponto certo de corte, bem afiada. Tinha uma pedra para afiar e uma tira de couro larga para dar o toque final, o assentador.”
O Mário, um deficiente visual de Bocaina, foi a “cobaia” do oficial barbeiro. “Ele era cego dos dois olhos e se submetia a fazer a barba comigo. O outro era um senhor de família tradicional daqui, José Perrone. Ele tinha bastante idade e não se importava com pequenos cortes. Eu era principiante e dava umas talhadinhas.”
O deficiente visual continuou a fazer barba com o então oficial de barbeiro, Orides.
“De vez em quando, eu dava uma cutucada nele. Ele perguntava: o que que foi? Eu respondia que era uma espinha. Certo dia, ele me disse: quando eu era novo não tinha espinha. Agora que está aparecendo espinha em mim? Eu fiquei sem ter o que responder.”
Hoje, não existem mais navalha e os barbeiros são poucos. “Usamos lâminas descartáveis desde o advento da aids, por orientação da saúde. Para mim melhorou muito porque não preciso mais afiar a lâmina”, brinca ele.
Para Orides, fazer a barba no barbeiro é coisa rara para as pessoas. “O aprimoramento das lâminas e a falta de tempo fizeram com que as pessoas passassem a fazer a barba em suas casas. É um ou outro caso que faz a barba aqui. Meu salão é simples e não tenho toalha quente como antigamente.”
O 1º corte de cabelo ninguém esquece
Orides Gonçalves aprendeu na “raça” a cortar cabelo e conta com bom humor a vergonha que passou depois de “debutar” como cabeleireiro. “Aprendi a cortar cabelo na mesma época. O dono do salão estava ausente quando chegou um menino com o dinheiro na mão e eu perguntei: quer cortar cabelo? Ele respondeu que sim. Eu disse: com o Jeca você tem que pagar, mas comigo é de graça. Ele gostou da ideia e permitiu. Cortei o cabelo dele com uma máquina manual, um corte raso e deu tudo certo. O corte raso era adotado porque na época havia muito piolho e assim facilitava a higienização.”
O cliente “mirim” espalhou pela cidade e seo Orides passou a cortar o cabelo da criançada com máquina. “Era de graça. Esse menino desceu a rua falando que o barbeiro cortava de graça e começou a vir um menino atrás do outro. Fui aprendendo.”
O primeiro corte de adulto cobrado não deu muito certo, na opinião do barbeiro. “Foi por volta de 1953. Eu ainda era oficial de barbeiro. Fiz o corte e à noite fui para o jardim da cidade onde era o footing. Desci o jardim e fiquei com vergonha de passar perto do cliente. De longe, eu percebi que o cabelo estava torto. Ele não percebeu e continuou. Por bom tempo foi meu cliente. Procurei eliminar o defeito que eu tinha de cortar torto.”
‘Fazer a barba é dedicar um tempo a si mesmo’
Se alguém chegar em Pederneiras e procurar por Carlos Alberto Inácio da Costa ninguém conhece. Mas o barbeiro Berto é muito conhecido. Ele tem 62 anos e desde 1971 mantém sua barbearia.
“Na época, eu fazia uma média de 10 barbas por dia. Hoje, faço uma média de quatro. Caiu bastante a procura por este tipo de serviço. Tenho clientes jovens, porém, a maioria são idosos que mantêm a tradição de ir ao barbeiro fazer a barba”
A navalha antiga foi substituída por uma que contém lâmina descartável.
“Aqui, as pessoas conversam, trocam ideias ficam mais tempo que o necessário. Penso que fazer a barba no barbeiro é um momento especial que a pessoa dedica a ela mesma. Sustentei minha família com esse trabalho.”
Na cadeira de barbeiro
Com saudade, Orides Gonçalves lembra do tempo em que fazia umas 20 barbas no sábado. “Trabalhava de manhã até a noite. Hoje, faço uma por semana e olhe lá. Muitos clientes veem aparar o bigode ou o cavanhaque.”
Houve um tempo em que o barbeiro pedia para os moradores da cidade cortar o cabelo durante a semana e não no sábado. “A clientela da zona rural vinha no sábado e, para atendê-los, tínhamos que estar livres. O movimento era grande.”
Na cadeira de barbeiro, segundo Orides, o cliente relaxa. “Alguns até cochilam. Outros trocam ideias, falam sobre política, Olimpíadas, futebol. Sempre tem assunto. Gosto de ser barbeiro. Não consigo trabalhar em outro ambiente. Aqui sempre tem gente diferente.”