Sou apaixonada por velhos garotos e, por isso, sou apaixonada pelo meu pai. Como seria bom se todos os pais do mundo se pa-recessem com ele! Como seria bom se todos os pais ensinassem seus filhos a desenharem a vida em folhas de seda, como meu pai Aroldo Giavarina me ensinou! Como seria bom se todos os pais guiassem as mãos dos seus filhos com a segurança das suas experiências, evitando rasuras ou borrões em suas almas!
Suaves são os dias que passo ao seu lado, reencontrando minha essência em seus olhos, debruçando-me na janela da sua humildade, escutando, com admiração, suas histórias, suas vivências, suas memórias. Sou apaixonada por meu "velho garoto". Velho na idade, garoto na alma. Garoto, porque ainda está crescendo, caminhando, e aprendendo com a cartilha da vida. Velho porque está burilando seus desejos, ensinando os principiantes, doando-se com desprendimento, sem culpa, sem pressa, sem medos! Esse meu "velho garoto" não é como esses velhos de espírito, que acreditam saber de tudo chegando à reta final da caminhada, com uma arrogância típica de garoto mimado. O meu velho, pelo contrário, é sábio justamente por compreender o tamanho da sua ignorância perante as Leis Divinas. Meu velho garoto, a exemplo de um mestre, quer passar pela vida aprendendo, espalhando lírios de bondade pelos caminhos que percorre.
Sou apaixonada por meu velho, porque enxergo a grandeza do seu caráter na transparência dos seus olhos, por meio das cicatrizes que lá estão e das lágrimas que, certamente, as encobriram por um tempo. Consigo ler as cartas do seu passado, decifrando algumas dores e interpretando tantos amores. Sou apaixonada por esse olhar puro de garoto nos olhos do meu velho. Quisera eu clonar sua essência para servir de modelo a todos os velhos de alma nessa Terra.
Queria presentear, com o olhar do meu velho, os olhos tristes e opacos de todos os "garotos velhos" que conheço. São olhos que permanecem arregalados para as futilidades da vida; porém, estão mortos e sepultados para as prioridades da mesma. Ahhh! Pobres "garotos velhos", que apesar de possuírem olhos, são tão cegos no olhar!!! Meu pai sempre conseguiu alegrar minha vida com sua história e clarear meus passos com seu reflexo. Por meio da luz que emana do seu coração, reverencio, com gratidão, a resplandecência da sua aura de Amor nos caminhos da minha existência.
Meu pai sempre conseguiu curar as aflições do meu peito, utilizando sua sabedoria como um lenço eficaz para conter as lágrimas da minha imaturidade. Seu colo sempre esteve disponível para as necessidades da minha intensa e impetuosa vida de menina revolucionária. Seu sorriso, suas palavras e seu carinho sempre foram a base da minha sobrevivência nesse mundo. Meu pai sempre amortizou, com seus abraços, as muitas quedas ocasionadas pelos meus desajeitados e precipitados saltos em altura!
Aquele "danado" sempre conseguiu driblar a tristeza usando seu infalível e iluminado senso de humor. Meu pai sempre soube interferir, com seu colorido mágico, nas páginas escuras e tristes da minha vida. Esse meu velho é mais do que especial... é um Ser único! Já vasculhei todos os cantos da minha memória, tentando, em vão, encontrar algumas lágrimas esquecidas no baú da minha infância. Lá, só encontrei gargalhadas - frutos dos momentos incríveis que passei ao seu lado! Sua alegria contagiante sempre substituiu os almejados brinquedos eletrônicos da época. Suas conversas foram mais interessantes que os riscos da minha juventude. Seus conselhos, na minha vida, causaram lacunas enormes nas agendas dos terapeutas. Seus braços sempre me protegeram dos perigos reais dessa existência.
Por tudo isso, sou eternamente apaixonada por esse "velho". Eternamente grata a esse paizão, que me ensinou a engatinhar pelo mundo da vida; que nunca soltou minhas mãos nos passos inseguros que ainda ensaiava em terra firme; que me indicou o melhor atalho, na trilha insegura do meu destino. Olho para ele cochilando na poltrona da sala e tenho a certeza que esse "mocinho" veio disfarçado de humano para Terra. Sei que, hora ou outra, encontrarei suas asas camufladas em algum canto da casa, revelando então, sua verdadeira identidade. Nada me tira da cabeça que esse iluminado velhinho, de coração dourado, é meu legítimo e encantado Anjo da Guarda!
Gilmara Giavarina