Hoje em dia, é comum a gente ouvir falar: "- Fulano é muito louco! Beltrano é doido!". Mas se a gente for comparar esses loucos de hoje com as loucuras que as pessoas faziam antigamente, a frase perde completamente o sentido. Vejam o caso do meu bisavô, por exemplo. Ele nasceu perto de Florença, no final do Século XIX. Quando era jovem, migrou para a Argentina, onde trabalhava em uma estância que alguém da família tinha. Estava tudo certo na Argentina, mas em 1914 começou a Primeira Guerra Mundial. Ele tomou um navio, atravessou o Oceano Atlântico e foi lutar para a Itália. Eu sempre pensava: "Caramba, ele estava na Argentina, podia ter ficado lá!" Tenho quase certeza de que eu não iria. Mas ele foi. Contava que sua tropa, na guerra, era três soldados, um canhão e um burro (que puxava o canhão pela montanha). Ficavam lá no alto, na neve, atirando nos alemães que estavam embaixo.
Quando a guerra acabou, ele se casou com a minha bisavó e resolveu voltar para a Argentina. Mas o navio fez uma parada em Santos. No porto, meu bisavô encontrou um amigo da Itália, que disse que em Bauru, no interior, todo mundo estava se dando bem, porque a cidade estava crescendo e a ferrovia movimentava a economia. Ele tirou todas as coisas que possuía do navio e veio para Bauru, com a minha bisavó grávida, sem falar português. O Brasil, para ele, devia ser um lugar no fim do mundo. Bauru, no interior do Brasil, seria o que significa a Papua Nova Guiné em nosso imaginário atual. Acho que não iria hoje, sem grana, com minha filha e todas as minhas coisas para o interior da Papua Nova Guiné. Antes da Primeira Guerra era ainda pior. Se a gente pensar em como eram as condições dos vickings, que levavam a vida invadindo e saqueando terras alheias todo ano, lá pelo século IX, até que não era tão ruim ser imigrante em 1919. Mesmo assim, para fazer o que meu bisavô fez, é preciso de uma coragem, de um espírito aventureiro e de um desprendimento que não se vê fácil hoje em dia.
Eu, por exemplo, fui conhecer a Irlanda no ano passado, de férias, com tudo reservado e planejado, e fiquei com medo. Medo do desconhecido, do estrangeiro, do que eu nunca havia visto. E quando eu estava lá, mesmo com toda a beleza daquele país, sempre era confortador pensar que a minha casa estava aqui, bem como meus amigos, minha vida, tudo intacto para quando eu voltasse. Esse sentimento meu bisavô não teve. Uma vez em Bauru, a Itália, terra onde ele nasceu e cresceu, não era mais um porto seguro, não era mais sua casa - nos mais variados sentidos que a palavra carrega.
Nós, brasileiros, sempre tiramos sarro dos portugueses, como um tipo de desforra pela colonização. Depois que eu assisti "Desmundo", um filme passado no Brasil do século XVII, falado no português da época (fica mais terrível ainda), considero os portugueses mais bravos do que os alemães. E cruéis também. Portugal era riquíssimo e poderoso - portanto, o melhor lugar para se viver na época. Ainda assim, eles atravessavam o oceano e vinham parar em um lugar que só tinha selvas, doenças e índios. Disse isso para um amigo e ele respondeu: "-Pois é! Só sendo muito burro mesmo!" De qualquer forma, parece que o mundo foi ficando melhor com o passar dos séculos - e não pior, como muita gente fala. Realmente, a violência nas grandes cidades é terrível hoje, mas não se compara à Primeira Guerra Mundial.
Pouco antes de morrer, quando estávamos de férias na praia, meu bisavô me falou o seguinte (com aquele sotaque que nunca perdeu, enquanto cortava salame): "-Todo mundo quer ser rico. Ninguém está contente com o que tem. Mas olha esse monte de comida boa, esse mar bonito aqui na frente, todos nós reunidos. Temos tudo que precisamos. Querer mais do que isso é querer demais. Esta é a maior riqueza que se pode conseguir." Naqueles tempos, além da perseverança e da coragem para vencer obstáculos terríveis, era preciso ter o discernimento de quando, onde e como parar. Sem isso, morria-se facilmente.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião