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Entrevista da Semana: Ana Sílvia Lopes Davi Médola

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 8 min

Batalhadora, multitarefa, sempre pronta a encarar desafios. Assim são as mulheres. Assim é Ana Sílvia Lopes Davi Médola, professora, pesquisadora e diretora da TV Unesp. Em meio ao turbilhão que culminou com a saída do professor Antônio Carlos de Jesus da direção da TV, coube a ela a tarefa de colocar a casa em ordem e o sinal da emissora no ar.


Mesmo sem experiência na área de gestão de uma emissora de TV, Ana Sílvia topou o desafio e hoje comemora os bons resultados de seu trabalho e da equipe que lhe dá suporte. A TV está no ar em caráter experimental e o sinal pode ser captado pela canal 45 UHF ou na grade de canais das TVs por assinatura.


Nesta entrevista, ela fala sobre a luta para colocar a emissora para funcionar e de outras batalhas do dia a dia, como ser mãe, esposa, professora, pesquisadora...




Jornal da Cidade- Colocar a TV Unesp no ar foi seu maior desafio profissional até o momento?

Ana Sílvia Médola - Olha, eu acho que sim. Foi um desafio não pela dificuldade do trabalho, mas pela sua magnitude. Até pela circunstância em que isso aconteceu, a TV Unesp se mostrou como um desafio importante, não só do ponto de vista profissional, mas também do ponto de vista institucional. A instituição me conferiu uma tarefa, que posso dizer foi muito desafiadora, e hoje, felizmente, estamos no ar, com uma grade de programação e tocando esse projeto, que é muito sólido e bonito, adiante.



JC- E que avaliação você faz do teu trabalho na TV até aqui?

Ana Sílvia - A avaliação que eu faço é que tivemos algumas prioridades. Qual era a primeira prioridade? Colocar a TV no ar. Hoje, ela está no ar. Agora, o desafio é dar visibilidade ao que fazemos para a comunidade de Bauru e para a própria universidade. Temos o desafio de fazer desta estrutura não apenas uma estrutura de transmissão de informação, mas de geração de inovação e conhecimento na área de audiovisual, de televisão digital. Uma estrutura capaz de colaborar com o processo de formação de novos profissionais da Unesp numa nova plataforma. A comunicação que se tem hoje não é a mesma de dez anos atrás nem será a mesma de daqui a cinco anos. Quem diria há cinco anos que as redes sociais transformariam os fluxos de informação no processo de produção jornalística, por exemplo. Aquela fonte importante que era quase sempre um privilégio dos bons jornalistas, agora tem de ser seguida no twitter para saber o que ela tem a dizer. Então, as mudanças estão ocorrendo de forma muito rápida. As demandas por compreender e saber se posicionar diante dessa nova realidade são urgentes. E a universidade tem de ter essa capacidade.

JC- E você assumiu a direção de uma TV justamente em um momento de transição e intensas transformações. Isso a preocupa ou a estimula a seguir com o trabalho?

Ana Sílvia - Hoje, nós temos uma mudança fundamental, paradigmática, que está transformando a relação das pessoas com esses meios. Atualmente, não assistimos mais à TV na sala de estar com a família toda reunida, como ocorria na década de 1950. Agora, as pessoas assistem à TV nos dispositivos móveis, como telefones celulares, tablets, etc. Tudo isso são desafios da contemporaneidade e que tornam o nosso trabalho muito mais excitante.


JC- Há alguma novidade a ser apresentada pela TV Unesp nos próximos meses?

Ana Sílvia - O que nós queremos é a consignação do nosso sinal digital. O governo quer acabar com o sinal analógico em 2016, mas sabemos que isso não será feito aqui como foi no Japão e nos Estados Unidos, ou seja, da noite para o dia, porque o Brasil é um País muito grande, com muitas divergências e disparidades em todos os setores. Na comunicação, isso não é diferente. Então, o nosso plano é conseguir, brevemente, transmitir em plataforma digital para que a TV possa desenvolver suas soluções de interatividade, de mobilidade, de conectividade, além de novos produtos e programas nessa perspectiva de inovação.


JC- Sua carreira foi sempre pautada na TV?

Ana Sílvia - Eu sou formada em jornalismo. Estudei na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e me formei em 1984. Trabalhei um ano em Maringá e, em 1986, vim para Bauru. Vim para trabalhar na antiga Rede Globo Oeste Paulista, onde permaneci por cinco anos. Na época, começo dos anos 1980, a emissora implantou um projeto de interiorização, para se estabelecer no segundo maior mercado publicitário do País, que é o Interior do Estado de São Paulo. E foi assim que cheguei a Bauru.


JC- Você também trabalhou na TV Manchete. Quando foi isso?

Ana Sílvia - Trabalhei em uma filiada da TV Manchete em Maringá. Era uma sucursal de uma emissora do Grupo Positivo.


JC- Foi sua primeira experiência na TV?

Ana Sílvia - Minha primeira experiência foi em uma emissora de Cornélio Procópio, no Paraná, minha cidade natal. Antes de ingressar na faculdade, eu já havia trabalhado em televisão. Meu primeiro emprego foi aos 15 anos. Eu fazia mapa comercial. Eu recebia os comerciais e distribuía de acordo com o mapa de programação de inserções. Esse era o meu trabalho. Era conferir se a inserção tinha ido ao ar. Saí de lá para estudar. Terminei a faculdade e fui trabalhar na sucursal dessa emissora em Maringá, já com o nome Manchete.


JC- Da TV Globo você foi para a Unesp?

Ana Sílvia - Sim. Eu saí da Globo e fui para a universidade. Eu estava em Bauru havia cinco anos e sempre gostei de estudar. Tanto que fiz outra graduação. Fiz história. Houve um concurso, quando já era Unesp (ela incorporou a Universidade de Bauru, em 1988), e eu ingressei como docente do curso de rádio e TV. Na obrigação de ensinar, eu tive de aprender muito sobre esses meios. E foi muito bom.


JC- Atualmente, além do cargo na TV Unesp, você tem mais algum?

Ana Sílvia - Na verdade não é um cargo, mas eu faço parte da direção da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação, eu sou vice-presidente. É uma federação que reúne 14 entidades científicas das mais diferentes áreas. Em setembro termina nosso mandato de dois anos, reconduzidos após outros dois anos, totalizando quatro anos na diretoria da Socicom, que considero algo relevante dentro da minha trajetória. Além disso, continuo dando aulas na graduação e em dois programas de pós-graduação. Mesmo porque esta é a minha função dentro da universidade. Eu sou docente. Hoje, eu estou diretora da TV Unesp, cargo que será ocupado por outros que virão depois de mim.


JC- E como você relaxa de toda essa agitação?

Ana Sílvia - Eu digo que isso aqui para mim é uma alegria. Eu adoro. É lógico que, às vezes, temos problemas. Mas de um modo geral, eu gosto muito do meu trabalho. A universidade é um lugar que me possibilitou um ganho de qualidade na minha vida que é inestimável. Porque é um lugar onde estamos sempre aprendendo, em contato com pessoas muito interessantes, se quiser tem a possibilidade de se aprimorar. É muito bom. Então, eu não tenho isso de ter de fazer alguma coisa para relaxar. Gosto muito de viajar. Isso é algo que faz toda a diferença para mim. É aí que eu descanso. Mas descanso a cabeça, por sair da rotina, não o corpo porque viajar requer muita energia. Precisa muita disposição para acordar cedo, andar bastante. Isso é uma das coisas que me distrai. Mas não conta as viagens que faço a trabalho. Essas são muito corridas e de agenda lotada, quase não dá para curtir o lugar.


JC- O que mais você faz para distrair?

Ana Sílvia - Cozinhar. Adoro cozinhar. Todo domingo faço o almoço de casa. Cozinhar, para mim, é uma terapia, um relaxamento. Não sou uma expert. Sei fazer algumas coisas. Mas eu faço bem as poucas coisas que sei fazer. Eu gosto de reunir as pessoas em torno da mesa. E fico feliz quando elogiam minha comida.


JC- O que você prefere, a cidade ou o campo?

Ana Sílvia - Sou mais cosmopolita. Não sou muito ligada a essa coisa bucólica. Até porque cresci no campo. Eu tenho uma nostalgia muito grande das coisas da área rural, do banho de rio, do café, do fogão à lenha, do doce de abóbora, de cilindrar a massa para fazer pão. Sei fazer requeijão. A imagem do terreirão secando café é linda. Eu tenho isso na minha mente de forma bem nítida e forte. Tudo isso fez parte da minha infância. Eu sempre morei em cidade, mas eu tive muita ligação com o sítio, a fazenda. Tenho nostalgia, mas não aquela coisa de querer ir para o campo para descansar. Eu descanso muito bem lendo um livro, vendo TV, indo ao cinema, a um show.


JC- Com tantas atribuições profissionais, como você concilia trabalho e família?

Ana Sílvia - Minha família é muito compreensiva. E a gente brinca, se eu não trabalhasse acho que iria deixar todo mundo louco em casa. Eu iria me envolver com a vida de todos. Então, dá mais certo eu continuar fazendo minhas coisas. Mas não é fácil conciliar trabalho e família. Não é fácil conciliar com a educação dos filhos numa fase em que eles precisam muito da presença da mãe. Acho que as mulheres são notáveis por conta disso. Atualmente, uma boa parte dos lares são sustentados por mulheres. Sair de casa sem ter uma creche onde possa deixar seu filho com tranquilidade para ir trabalhar é uma coisa cruel com as mulheres. Ser mulher, estar no mercado de trabalho, manter a família, dar atenção, corresponder às expectativas sociais. Isso é muito difícil. Eu sou fã das mulheres. Elas são fantásticas, além de carinhosas.

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