Estranhei quando a agência de turismo me informou que o ônibus sairia da Bowery Street, bem no coração da Chinatown. Não deu outra: eu era o único ocidental na excursão para o Canadá. A guia, uma chinesinha simpática, só se dirigia aos viajantes em mandarim e se limitava a algumas informações em inglês com sotaque carregado. Centenas de quilômetros e cinco dias num ônibus lotado de chineses ? que não era lá um Expresso de Prata. Descobri, para minha satisfação, que chinês não conta piadas durante excursão e nem canta marchinhas de carnaval do passado ou promove "amigo secreto", como aqui no Brasil. Na primeira parada, no Museu do Vidro na cidade de Corning, a advertência da guia era para que ninguém comprasse nada na loja do museu "porque era tudo fabricado na China". Ninguém riu, mas também ninguém comprou. Os passageiros são proibidos de beber e comer dentro do veículo. A cada parada para visita ao banheiro, todos estavam de volta minutos antes de esgotado o tempo estipulado pela guia. Eles têm profunda admiração pela América do Norte e acham que, com disciplina e trabalho ainda vão chegar lá, sem o abandono das suas tradições. Descobri que chinês é muito solidário. Quando me afastei do grupo na visita a Niagara Falls, entusiasmado em escolher ângulos fotográficos das cataratas, fiquei aliviado quando achei no meio dos turistas um chinesinho do grupo, identificável pela Nikon último tipo pendurada no pescoço. "I?m lost" ? confessei em tom de súplica. "Me, too"- respondeu. Disse que estava na minha marcação porque achava que eu sabia como reencontrar o grupo. "Perdidos nas Cataratas" ? daria um conto. Chinês não admite atrasos e, quem sabe, poderíamos ser deixados para trás. Conseguimos reembarcar depois de muita procura. "Pobre Niágara"- disse uma vez Eleanor Roosevelt quando visitou as Cataratas do Iguaçu. Realmente, as nossas ? divididas com os hermanos argentinos ? são muito mais imponentes. Acontece que americanos e canadenses sabem explorar o turismo. As quedas d?água são iluminadas por potentes holofotes de luzes coloridas. Brega, mas funciona. Existe toda uma infraestrutura de lazer no entorno ? parques temáticos, restaurantes de todas as culinárias e hotéis magníficos. Do alto de uma torre a visão é impressionante de todo o complexo. Lá em cima, a 500 metros, o turista pode almoçar ou jantar no restaurante giratório e contemplar a paisagem magnífica ao mesmo tempo.
Cheguei a Toronto a ponto de ainda poder assistir a sessões comemorativas do centenário de nascimento de Marshall McLuhan, na Universidade. O mitológico teórico precursor dos estudos das comunicações introduziu expressões até hoje usadas, como "aldeia global", "o meio é a mensagem" e "impacto sensorial". Ele pesquisou o desenvolvimento dos meios de comunicação centrado no ser humano. De nada adianta todo esse fantástico progresso tecnológico na mídia se não forem voltadas para as práticas sociais. Num exemplo rústico, o que eu escrevo não teria nenhuma repercussão se o jornal fosse voltado para outros interesses que não os da sociedade. Os próprios meios são a causa e o motivo das estruturas sociais. É de sua autoria uma famosa frase de inspiração shakespeariana que descreve a televisão como "A imagem, o som e a fúria". Para o midiólogo, computadores seriam extensões do corpo humano e do seu sistema nervoso. Darwin nunca poderia imaginar esses novos componentes da evolução humana.
Depois de passar por Montreal, Ottawa e Québec a excursão terminou em Boston. Não poderia deixar de ir a Cambridge, cidade do outro lado do Rio Charles para conhecer o campus da Universidade de Harvard. É a mais antiga instituição de ensino dos Estados Unidos, com 376 anos de existência. Em Harvard, a primeira do ranking mundial, graduaram-se sete presidentes norte-americanos, desde John Adams a Barack Obama, passando pelos dois Roosevelt. Foram 36 agraciados com o Nobel. Dinheiro ali não falta: 26 bilhões de dólares de orçamento anual para 20 mil alunos. Mark Zuckerberg inventou o Facebook no alojamento da escola. Passei a mão no pé da estátua de bronze de John Harvard, o mecenas do início da instituição. Dizem que dá sorte. Já tiveram que trocar os pés duas vezes, de tanto desgaste. Ao lado de Harvard, outro portento: o Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT). Vale outro tanto. Os chineses vão ter que fazer muita força para chegar lá.
No velho mercado de Quincy, transformado em praça de alimentação, com pratos de todo o mundo fui tomar a sopa de frutos do mar, que eles chamam de Boston Chowda. É engrossada com creme de leite e comida com bolachinhas de água e sal. Uma delícia. Procurei pelas nossas tradicionais coxinhas de galinha, inspiradoras do João Jabbour. Infelizmente, não as encontrei.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC