A "Tribuna do Leitor" é uma das partes mais interessantes do Jornal da Cidade. É na Tribuna que podemos tentar entender como pensa o cidadão bauruense. Terça-feira (21), li o texto do sr. Nei Silveira de Almeida e resolvi copiá-lo para comentar. Eliminei o primeiro parágrafo, de cunho mais pessoal. Ele escreve sobre o Brasil: "As instituições se recuperam, a economia de mercado pode ser revista, as taxas de juros ajustadas, a carga tributada realinhada, o judiciário reformado, os ladrões julgados seriamente e punidos, o sistema penitenciário moralizado, enfim, muita coisa pode ser consertada dentro de um período razoável. Contudo, vão ser necessários muitos anos e um empenho acentuadíssimo para se reorganizar a área educacional deste País, reedificar as estruturas de valores referentes à ética, à moral, ao exercício da cidadania e ao patriotismo depois que passar este tsunami, chamado PT e PSDB, que tomou conta do poder e devastou impiedosamente com o caráter de patrimônios culturais, educacionais e cívicos desta Nação, nestes últimos 20 anos."
"A economia de mercado pode ser revista". Esse é realmente o ponto de partida para se consertar quase tudo de errado que existe no mundo. Pena que a imensa maioria das pessoas não esteja nem aí com a economia mundial. Quando escrevo no JC qualquer coisa que envolva religião, a caixa de e-mail entope - vem carta até de Rondônia, Piauí, Alagoas. Mas quando escrevo sobre a crise europeia e o desastre do neoliberalismo, nada. Age-se como se isso não influenciasse o nosso dia-a-dia. O mercado financeiro tomou o poder de decidir os rumos da Europa, dos Estados Unidos e de como as economias mundiais devem se comportar, promoveu a desintustrialização do primeiro mundo, causando a maior onda de desemprego desde a crise de 1929 e é raro alguém escrever sobre isso na Tribuna.
"As taxas de juros ajustadas". É outro problema crucial. Pagamos um juros altíssimo. Porém, dizem que se os juros baixam, o povo sai comprando tudo o que encontra pela frente e estoura a economia. Isso não deixa de ser verdade em um mundo onde as pessoas são "programadas" para procurar a felicidade e o sucesso no consumo e no acúmulo. E não é o governo quem faz isso - mas é quem tem que achar um meio termo entre o bem estar do povo e o do banco.
"A carga tributada realinhada, o judiciário reformado, os ladrões julgados seriamente e punidos, o sistema penitenciário moralizado". Acho que todos esses tópicos pertencem ao mesmo problema. Somos os campeões em impostos e recebemos um Estado deficiente em troca. Isso acontece porque o dinheiro dos impostos é desviado para abastecer os bolsos dos políticos corruptos e dos milionários que os cercam, viabilizando a roubalheira. Eles são pegos roubando, mas não são presos, porque pagam excelentes advogados que sabem como passar pelos furos que existem em nossas leis. Cria-se um paradoxo, então: os vereadores, deputados e senadores devem criar bons sistemas de leis, mas sabem que se a reforma for boa mesmo, correm o risco de serem julgados seriamente e punidos, como escreveu o sr. Nei. Se o voto fosse racional, ao invés de trocado por "um caminhãozinho de areia", como fazem muitos por aí, haveria parlamentares realmente comprometidos com as reformas.
Porém, o texto aponta para o PSDB e o PT como autores desse estado de coisas. Penso que a enxurrada de escândalos nos últimos governos é fruto da investigação da imprensa e do empenho de promotores e juízes em coibir a corrupção. PSDB e PT fizeram bons governos, mas a baixaria ética que promoveram tira a força de qualquer argumento. Nos governos anteriores, era mais difícil ver a corrupção, mas ela estava lá. Não acredito nas virtudes da passagem de Sarney pela presidência, por exemplo. E muito menos acredito que durante os anos de chumbo, os empresários e políticos que sustentaram o regime militar não se fartaram nas tetas do Estado. De qualquer forma, se as transformações assinaladas pelo leitor acontecerem, estaremos no primeiro mundo.
O autor, Luis Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião