Tínhamos em casa uma gatinha. O tempo passou e ela teve dois gatinhos.
E os gatinhos foram crescendo. Um dia, já crescidinhos, estavam brincando de baixo da mesa. Eles lutavam um com o outro. E rolavam, corriam; voltavam, se agarravam e de novo rolavam. De vez em quando paravam, quietinhos, um pertinho do outro. Daí a pouco, novamente a luta. Ora um corria, ora o outro. Nessas corridas davam com a carinha ou com a cabecinha de encontro com o pé da mesa. Mas era como se nada tivesse acontecido.
Passados alguns momentos, pararam de lutar. A gatinha estava por perto, deitadinha no chão. Um deles caminhou em direção à porta da cozinha. A porta estava aberta; chovia mansamente. E ele foi andando, tranquilo. A gatinha apenas olhava, mexendo o rabo ora para um lado, ora para outro. Eu continuei olhando. O gatinho chegou até a porta até que uns pinguinhos de chuva começaram a cair-lhe na carinha. Ele retrocedeu agitando a cabecinha para que a água saísse.
Dizem que os chamados irracionais não usam reflexão, que agem por instinto, espécie de inteligência que atua de modo preciso, sem erro. -Éh! gostei da lição da gatinha. Ela manteve-se atenta, deixando, porém, que o gatinho aprende-se por si a lição.
Euclydes de Carvalho