Tribuna do Leitor

Pronto-Socorro do Hospital de Base de Bauru


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Sexta-feira à tarde recebo um telefonema: meu filho de 11 anos havia sofrido um acidente e estava inconsciente na calçada. A história termina com final feliz e escrevo esta carta na minha casa enquanto ouço ele brincar na sala. Milhões de mães já passaram por isso, por essa angustia, pelo mesmo terror e pela constatação de que se ama alguém mais que a si mesmo. Mas esta carta não é para falar de amor, de dor e sentimentos, é para falar de fatos. Meu filho ficou desacordado e uma pessoa que nunca vi na minha vida, uma mulher desconhecida o encontrou, o socorreu e me avisou. O resgate foi chamado e o SAMU chegou rapidamente.

De lá foi para o Pronto-Socorro Municipal. Uma mãe e um avô em estado de choque e dez pessoas na sala: enfermeiras, técnicos e médicos. Meu filho foi inteiramente checado, auscultado, medido e examinado. Não houve um osso sem atenção, um corte sem limpeza, uma lesão sem análise. Meu assombro com a tragédia só não foi maior que o que senti quando percebi o que estava acontecendo no Pronto-Socorro. Contrariando os programas de tv, as campanhas políticas, as reportagens policiais e notícias de tragédia, meu filho estava sendo meticulosamente recebido por funcionários públicos em um órgão municipal de saúde.

Passamos dia e noite lá e durante a estada eu vi essas pessoas que não sabem quem eu sou, que não sabem nada de mim, e que provavelmente nunca mais irão me ver em suas vidas, me tratando com respeito, com cuidado e como ser humano. Eu vestia bermudas, camiseta e chinelos, fui pega de surpresa e não tinha dinheiro ou documentos, mesmo assim fui amparada por profissionais que me identificaram e me incluíram pela atitude, pelo carinho e pela atenção. Falei com vários médicos, enfermeiras, técnicos e atendentes, todos eles muito bons e não tenho uma queixa, uma reclamação qualquer, uma alegação de descaso. Saí de lá preocupada e pensando em valores como sorte e justiça. Sei que existem problemas e que esta narrativa poderia ter outro fim. Sei que pessoas morrem, são maltratadas e deixadas pelo Estado, mas a minha história é diferente.

Há tempos entendi que há uma distinção entre mundo ideal e mundo possível e essas pessoas que conheci na sexta-feira tornaram o mundo possível ideal para mim. Ao redigir esta carta faço a minha parte para tornar o mundo possível um pouco mais verdadeiro, para mostrar que há variáveis e que ao lado de finais infelizes existem relatos como este. Meus cumprimentos, admiração e eterna gratidão a todos vocês do Pronto-Socorro do Hospital de Base de Bauru.

Eliana Franco Neme

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