Fúria: homem joga bomba no INSS
Em um dia de fúria, um homem de 39 anos invadiu a agência da Previdência Social de Bauru, na rua Azarias Leite, e causou pânico após atirar dois artefatos semelhantes a coquetéis molotov dentro do prédio, por volta das 10h de ontem. No momento, cerca de 60 pessoas estavam no local, mas ninguém ficou ferido.
O homem, o vigilante Sérgio Vieira Costa, foi contido e encaminhado ao Pronto-Socorro Central (PSC) para ser medicado, sendo transferido posteriormente para o Hospital Thereza Perlatti, em Jaú. A suspeita é de que ele tenha sofrido um surto psicótico depois de ter a renovação do seu auxílio-doença negado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
“Ele chegou de repente, acendeu as garrafas com um isqueiro e as jogou, uma no chão e outra próxima ao balcão de atendimento. Uma delas pegou fogo e todos correram para o fundo do prédio, em pânico”, relata um aposentado de 59 anos que pediu para não ser identificado e aguardava atendimento para uma revisão de benefícios atrasados.
Segundo a Polícia Militar (PM), Costa estaria afastado do trabalho e entrou na agência portando uma mochila com 10 garrafas de vidro contendo, aparentemente, uma mistura de gasolina e querosene. Os vidros estavam vedados com uma espécie de pavio feito de retalhos de tecido, de modo semelhante à fabricação de coquetéis molotovs.
No momento de pânico, pessoas que estavam no interior da agência contaram que o homem não teria dito nada, apenas atirado duas dessas garrafas em chamas no local do atendimento. Com o objetivo de impedir a ação, um segurado não identificado pelo INSS atirou uma cadeira em direção ao homem, que só foi contido pela ação de quatro seguranças da unidade.
Neste momento, bastante alterado, Costa teria dito: “Vou mostrar quem é o louco aqui”. Com a chegada da PM, o acusado foi algemado e atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), sendo amarrado à maca e encaminhado escoltado para o PSC.
A suspeita era de que o homem teria iniciado o ataque por conta de um surto psicótico. Na ação, o segurado sofreu uma queda e teve escoriações em um dos braços por conta dos cacos de vidros que ficaram espalhados e também foi socorrido ao PSC.
Em um dos pontos atingidos pela bomba caseira, era possível verificar as marcas do pequeno incêndio. O Corpo de Bombeiros foi acionado para conter o fogo, mas, ao chegar à agência, o foco já teria sido controlado por funcionários com extintores da própria unidade.
Prejuízos
Após o controle da situação, segurados e funcionários foram orientados a evacuar o prédio, que no 4º andar também abriga a Junta de Recursos do INSS. Uma área de aproximadamente 30 metros de extensão da calçada em frente ao prédio ficou interditada durante toda a manhã por conta do risco de incêndio do combustível, que permanecia no chão até o término da perícia da Polícia Científica.
No que se refere ao prejuízo material, a agência do INSS esclareceu, por meio de sua assessoria de imprensa, que dois computadores e uma máquina de distribuição de senhas foram danificados. Por conta da interdição, houve mudanças no trânsito e os veículos que seguiam pela rua Azarias Leite, no sentido Centro-Bela Vista, eram orientados por agentes da Emdurb a efetuar o desvio pela rua Ezequiel Ramos.
Os agendamentos na unidade da Previdência Social foram suspensos até o final do dia e seriam retomados na manhã de hoje. O INSS registrou boletim de ocorrência na delegacia da Polícia Federal em Bauru, onde as investigações serão conduzidas.
Artefato se assemelha a ‘molotov’
A Defesa Civil de Bauru também esteve nas imediações do prédio da Previdência Social para checar a extensão dos danos. “Esse tipo de arma é utilizada em atentados terroristas. Ele usou uma arma de guerra e poderia ter causado uma tragédia, considerando a quantidade de papéis e de materiais que pegam fogo facilmente neste prédio”, pontuou o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, sobre a situação.
Mas, conforme explica o 1º sargento do Corpo de Bombeiros, Wladimir Macedo, o potencial do artefato seria incendiário. “Não dá dimensionar a potência, mas pelo que pudemos checar, o artefato não explodiria, apenas provocaria o alastramento do fogo”, frisa Macedo.
Segundo informações preliminares, as garrafas continham uma mistura de querosene e gasolina e não podem ser consideradas coquetéis molotov, em que geralmente são adicionados material de retardo, como óleo ou graxa, para que as chamas perdurem por mais tempo.
“O coquetel molotov é um artefato feito de maneira artesanal, extremamente simples”, observa o comandante do 1º Pelotão da Força Tática da PM, tenente Bruno Mandaliti Scarp. De acordo com ele, este tipo de artefato não tem grande potencial de destruição, embora gere uma pequena combustão concentrada e momentânea ao ser lançado.
“Uma grande explosão só ocorreria se entrasse em contato com maior quantidade de substância inflamável que estivesse no local. Mas ele não deixa de ser perigoso, principalmente se atingisse diretamente alguma pessoa, que poderia sofrer queimaduras graves”, destaca.
Vigilante tentava renovar benefício
Desde abril, o vigilante Sérgio Vieira Costa, 39 anos, tentava renovar o benefício de auxílio-doença, que havia sido negado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de Bauru. Morador de Jacuba, bairro rural de Arealva, ele alegava sofrer de problemas psiquiátricos desde que envolveu-se em um tiroteio durante o trabalho.
Segundo informações prestadas pela assessoria de imprensa no INSS, Costa ficou afastado do trabalho, recebendo o auxílio, de agosto de 2005 a novembro de 2010. Logo depois, tentou obter outros dois benefícios, que foram indeferidos por não ter sido reconhecida sua incapacidade para o trabalho.
Mas, entre 3 de março e 9 de abril de 2012, teria voltado a receber o auxílio. Quando o benefício foi suspenso, recorreu dessa decisão por meio de Pedido de Prorrogação (PP), Pedido de Reconsideração (PR) e recurso à Junta de Recursos da Previdência Social. Todas as tentativas, conforme o INSS, foram indeferidas.
Segundo apurou o JC, desde abril Costa teria apresentado diversos laudos médicos para tentar comprovar que sofria de transtornos psiquiátricos que o impediam de voltar a trabalhar. Há cerca de um mês, segundo familiares, ele teria escrito uma carta em que dizia ter “ouvido vozes” que o mandavam incendiar o prédio do INSS.
Na manhã de ontem, antes de sair de casa em direção à agência da Previdência, deixou um bilhete para a esposa, informando que estava “indo para a guerra” e alertando a família de que “poderia morrer”. Tudo leva a crer que o ato tenha sido planejado, mas a polícia ainda não descarta a possibilidade de surto psicótico.
Surto
De acordo com o psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo, o surto é caracterizado pela perda da noção de realidade, que leva um indivíduo a agir de maneira estranha ou inesperada, devido à sua incapacidade momentânea de pensar racionalmente. “Mas, geralmente, os pacientes não costumam ser agressivos, a não ser que já tenham um perfil agressivo ou um histórico violento na família”, frisa.
De qualquer maneira, ele frisa que apenas uma avaliação médica detalhada poderá detectar o que houve com Costa. “Ele pode ter tido uma motivação delirante, mas pode ter agido simplesmente por vingança. É algo que precisa ser investigado”, frisa.
Ainda que tudo leve a crer que o vigilante realmente sofra de problemas psiquiátricos, Borgo destaca que a atitude extremada de um indivíduo não necessariamente comprova que ele esteja doente. “A pessoa, num momento de raiva extrema, pode ter uma explosão de agressividade e não ser, clinicamente, detectada com algum transtorno mental”, completa.
Polícia Federal de Bauru vai investigar o ocorrido
O vigilante Sérgio Vieira Costa não foi autuado em flagrante porque precisou ser sedado e internado no Hospital Thereza Perlatti, em Jaú. Mas, por ter atacado um prédio do governo federal, ele responderá a inquérito instaurado pela Polícia Federal de Bauru.
Segundo o delegado federal Ênio Bianospino, o crime de incêndio doloso em prédios públicos prevê pena de quatro a oito anos de reclusão. Mas, caso ficar comprovada insanidade mental do réu, ele poderá ser considerado inimputável e absolvido de qualquer condenação.
“Trata-se de uma perícia que ainda terá de ser requisitada pelo juiz. Mas, inicialmente, coletamos alguns depoimentos de funcionários e testemunhas, além de reunir documentos iniciais para a instauração do inquérito”, frisa o delegado.