Política

Caldeirão de itens esfria campanha

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Comícios enormes, com milhares de eleitores empolgados, por que não emotivos, empunhando bandeiras e esbanjando convicções devem remeter a cena de filme para gerações mais novas. Mas para muitos ‘das antigas’, a ausência de romantismo, paixões e embates em eleições como a atual garante, no mínimo, nostalgia. Farta literatura, reflexões e depoimentos apontam como os pleitos tornaram-se tão insípidos com o passar dos anos. No caldeirão de motivos estão, por exemplo, as propagandas eleitorais gratuitas, o fim de conteúdos ideológicos e da polarização de candidatos e ideias, além da despolitização da sociedade e do desconhecimento do sistema eleitoral brasileiro.


O professor aposentado de história da Universidade Estadual Paulista (Unesp), João Francisco Tidei de Lima lembra das vezes que Getúlio Vargas esteve na cidade. Seu carisma era capaz de juntar 20 mil pessoas na Praça Machado de Mello. “Antigamente, os candidatos não tinham acesso aos meios de comunicação. Só quem tinha dinheiro ia às rádios e televisão para dar  seu recado. A partir de certo momento, ficou estabelecida a propaganda eleitoral gratuita, o que é um avanço. Temos de preservá-la. Mas os candidatos precisam ter propostas e não só no período eleitoral”, comenta.



Ideologia


Na opinião dele, a ausência de posicionamentos ideológicos entre os postulantes também ajudou a esfriar as campanhas. Antes dos showmícios, que foram proibidos pela legislação eleitoral em 2006, eram as pregações dos candidatos que levavam tanta gente às ruas, não os artistas posteriormente contratados por eles. Jânio Quadros, Franco Montoro e inclusive Luiz Inácio Lula da Silva são exemplos também para Bauru. O advogado Arthur Monteiro Júnior não esquece da dimensão dos atos políticos quando da presença de cada um deles.


“Quando Jânio Quadros veio, fechou a avenida Rodrigues Alves. Os caras eram janistas. Iam porque acreditavam no Jânio. Também tinha aquele fervor porque era a primeira eleição direta para governador depois da ditadura. Hoje as pessoas vão sem qualquer convicção. Naquela época, as pessoas participavam porque queriam ouvi-los, não porque eram pagos para fazer número”, afirma o advogado. Interessado por política, antes dos 20 anos, já acompanhava os discursos políticos.

 

Juventude

Atualmente, no entanto, os jovens estão desinteressados por política. Segundo analista judiciário da 23ª Zona Eleitoral, Luciano Olavo da Silva, caiu a participação nas eleições de jovens com idade entre 16 e 18 anos. De acordo com ele, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que no início dos anos 90 - logo após o impeachment do então presidente da República Fernando Collor, quando os ‘cara pintadas’ saíram às ruas – o volume de eleitores nessa faixa era maior do o atualmente em números absolutos, embora a população tenha crescido nestes 20 anos.


“Fato é que o assunto não é colocado no plano do dia a dia das pessoas. Política não faz parte do cotidiano. No vestibular é preciso saber calcular a velocidade que uma pedra cai do alto de um prédio, mas não como funciona o sistema proporcional e o majoritário. Obviamente, as pessoas não têm interesse por assuntos que desconhecem”, ressalta. Na avaliação de Luciano, a lei de diretrizes e base da educação não é cumprida, pois especialmente o artigo segundo estabelece, em todos os níveis, educação voltada ao exercício da cidadania.


“Ninguém sabe como funciona o mecanismo de puxadores de voto, não sabe que vota em um e elege o outro, ninguém sabe da importância dos partidos políticos, da relevância deles para a democracia. Não são assuntos discutidos em nenhuma instância da vida escolar”, acrescenta.  Para piorar, os partidos perderam convicções ideológicas e se coligam com legendas que, em tese, defendem propostas antagônicas.

 

‘Showmício foi resposta criativa de políticos’, avalia analista judiciário

Proibidos desde 2006, os showmícios já foram uma resposta dos políticos à falta de interesse espontâneo das pessoas nas campanhas, destaca o analista judiciário da 23ª Zona Eleitoral, Luciano Olavo da Silva.


De acordo com ele, a legislação eleitoral os proibiu justamente para evitar abuso de poder econômico. Mas levar artistas para garantir a presença de público em comícios já era um sinal de que a coisa não estava boa, avalia. “Combateram um mal, mas não viram que esse mal decorria de outro mal, a falta de interesse”, destaca.


Ele ressalta que, no caso dos jovens, a falta de experiência de vida muitas vezes os distancia da política, que trata das questões cotidianas. E o problema já havia sido apontado por Aristóteles no livro escrito para o próprio filho, “Ética a Nicômaco”, comenta.


Sem tempero


Outro elemento que roubou tempero dos pleitos é a ausência de figuras com histórias surpreendentes pela luta, convicções e história de superação. É o caso de Chico Mendes, aponta Luciano, cuja trajetória marcou a vida do analista. “Ele é mais conhecido internacionalmente do que no Brasil. Autêntico, era desvencilhado de qualquer motivação financeira, financiada”, finaliza.

Eleitores choravam em comícios

 Sem rádio e televisão, políticos antigos dependiam da pregação em público para mostrar suas ideias. Eram elas e o prestígio de cada um deles que levava eleitores aos comícios, em muitos casos, emocionantes. Roberto Purini, que foi vereador por oito anos e deputado estadual por outros 20, recorda de um especificamente, onde os presentes não contiveram a emoção.


Era 1976, em frente às escadarias da Igreja de Santo Antônio, no Jardim Bela Vista. Penúltimo ou último ato político antes das eleições. Purini tentava tornar-se prefeito de Bauru. Discursava para uma multidão e, feliz, lembrou-se do pai Joseph Purini, que estaria tão ou mais feliz em vê-lo naquela situação. No entanto, de forma surpreendente, convocou para perto de si um cidadão chamado José Posting, que lhe acompanhava onde quer que estivesse.


No palanque, disse que a saudade de seu pai era amenizada com a presença daquela figura, que lhe seguia com atenção e carinho paternais. Posting foi beijado na fronte, durante o comício. Emocionado como Purini, fez chorar a multidão. “Víamos o pessoal tirando os lenços e enxugando as lágrimas”, recorda. Apesar de ser o mais votado naquela eleição, não foi eleito por conta das sublegendas vigentes na época.


Nostálgico, Roberto Purini aponta o fim das questões ideológicas como uma das razões para tanta diferença entre o período eleitoral deste e de outros tempos.

 

Campanhas ficaram mais curtas

Além da despolitização das pessoas, Ricardo Carrijo aponta a diminuição do período eleitoral como outro elemento a contribuir para arrefecer as campanhas atuais. Ele, que já foi vereador, candidato a prefeito e vice, além de ter acompanhado diversos pleitos, destaca que em campanhas passadas, entre maio e junho, os candidatos já estavam definidos. Atualmente, por conta das regras eleitorais, a homologação dos nomes demora mais e a campanha, consequentemente, é reduzida.


Carrijo ainda destaca as dificuldades de ordem financeira. Nos dias de hoje, normalmente é preciso muito dinheiro para viabilizar bem boas campanhas. Já no caso de Bauru, aponta outro elemento responsável por deixar a disputa mais tranquila neste ano. O fato do prefeito disputar a reeleição com candidatos jovens.


Recorda, porém, do quanto pessoas se emocionavam e participavam ativamente de comícios, como o que fez em 96, no Núcleo Habitacional Mary Dota, época em que era candidato a prefeito. “Conseguimos levar uma multidão. Foi um momento marcante na minha carreira”.


 

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