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Ansiedade: não se deixe dominar

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

Pressão, todos sofremos. Independentemente à origem - pode ser o chefe que acordou com o pé-esquerdo, a namorada ou esposa naqueles dias, as contas que se acumulam, o medo de perder o emprego -, sempre há uma porta para a ansiedade entrar na nossa vida.


O fato é que, quase diariamente, ao menos para a maioria da população que não está com a vida ganha, situações que envolvem algum tipo de pressão existem e precisam ser encaradas. A maneira como as enfrentamos, entretanto, é que faz a diferença, tanto para o grau da ansiedade quanto até mesmo para a nossa saúde.


Em demasia, o sentimento de aperto causado pelas situações pode desencadear a chamada ansiedade patológica, adverte médico-psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo.


Em meio à correria e incertezas, ela bate mesmo: “seja na preocupação de adultos com filhos, adolescentes na época do vestibular, problemas no emprego, ela (pressão) existe”, observa ele, que atenta: constante e de maneira a atrapalhar o desempenho nas tarefas cotidianas, a ansiedade evolui para o quadro patológico e demanda tratamento. “As incertezas geram instabilidade emocional”, acentua.


Apesar de poder se desencadear em outros problemas, entre eles a depressão, a ansiedade aguda e permanente, por si só, diferencia o médico, já é uma doença.


O combate aos efeitos nocivos da ansiedade pode ser feito tanto de forma “extra consultório”, através de mudança de rotina e valores, com adoção de práticas esportivas ou menor carga no trabalho. Caso essas válvulas de escapes não sejam acessíveis, a saída é buscar ajuda médica, salienta o psiquiatra.



‘Mal necessário’


Por outro lado, observam especialistas, uma certa dose de adrenalina diária é necessária até mesmo para que possamos desempenhar nossas tarefas. Desta forma, a pressão (na dose certa) não tem apenas a face de vilã, considera a terapeuta Viviane Nicoliello de Siqueira, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), de Bauru.


Certa dose de pressão, salienta, funciona como força propulsora que nos dirige. “O problema ocorre quando não sabemos dosar as pressões que nos são dirigidas e, muitas vezes, as potencializamos através de nossos pensamentos equivocados”, explica a psicóloga, citando situações em que nós mesmos podemos evitar desdobramentos ao estresse.


“Adianta ficarmos nos pressionando para chegar logo em casa se já sabemos que haverá muito trânsito?”, indaga. “Esse é o exemplo de um pensamento que gera ou potencializa uma pressão desnecessária”, considera ela, atribuindo o surgimento da ansiedade a eventos tanto internos quanto externos.


No caso da pressão externa, diferencia, o reconhecimento é mais fácil. “São eventos que demandam adaptação da pessoa, como a mudança de emprego ou cargo, o nascimento de um filho, contas a pagar, a necessidade de tornar bem-sucedido, entre outras situações que ultrapassam a habilidade da pessoa se adaptar, gerando inseguranças”, descreve.


Já a pressão interna, caracteriza a terapeuta, é mais difícil de ser reconhecida, já que, observa a especialista, envolve nosso pensamento e respectiva forma de encarar as situações e até expectativas fora da realidade.


“Um exemplo é o da pessoa que imagina que o casamento dela só vai dar certo quando parceiro mudar. Interpretações distorcidas da realidade, como a de pensar que os outros sempre esperam que você faça tudo para receber admiração, perfeccionismo no estilo ‘se errar estarei perdido’, competitividade”, elenca.


A terapeuta não mensura qual o pior grau de pressão exercida por um indivíduo: “depende, em grande parte, da forma como a pessoa encara as diferentes situações”, ressalva. “É necessário que o individuo se esforce para se adaptar às situações, positivas ou negativas”, avalia.


Contudo, a capacidade de adaptação também tem limites, observa a psicóloga. Quando os esforços de adequação são extremamente além da capacidade física e psicológica, a tensão pode desequilibrar o organismo, adverte.


Nada pessoal


Pressões momentâneas, enfatiza Viviane, podem ser enfrentadas sem maiores percalços, desde que a pessoa não absorva os dissabores passageiros. “Uma situação em que o chefe está de mau humor pode ser encarada de melhor maneira se o subordinado não levar para o lado pessoal e sim enxergar como algo externo”, ilustra.


“Num caso assim, é importante a pessoa não buscar motivos que a façam culpada e sim realizar o trabalho sem inventar interpretações equivocadas. Os pensamentos e também a falta de habilidade para resolver problemas criam vulnerabilidades e potencializam as pressões”, define.

 

Incertezas criam a ‘geração Rivotril’

A paz em forma de pastilhas sublinguais. Desta forma muita gente encara a medicação muitas vezes até mesmo para realizar atividades corriqueiras.


Essa procura por tranquilidade na forma de caixinhas com tarja preta faz do Brasil o maior consumidor do mundo em volume de clonazepam, princípio ativo de ansiolíticos, como  medicamento Rivotril, de uso controlado. Os ansiolíticos, de acordo com a Agência Nacional de Vigiância Sanitária (Anvisa) são os medicamentos mais vendidos no Brasil.


A medicação, que estimula mecanismos que equilibram o estado de tensão, inibindo as áreas do cérebro que trabalham mais em momentos de maior estresse, com a pessoa respondendo menos aos estímulos externos.


Utilizado e prescrito há três décadas, o remédio, que tem uso controlado, com retenção de receita, observa o psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo, é seguro e tem alto grau de eficácia. Contudo, pondera o especialista, deve ser receitado e utilizado com muita cautela. “É preciso cuidado e responsabilidade. A automedicação pode causar dependência”, adverte o médico.


O medicamento é empregado em casos nos quais a pessoa é totalmente dominada pela ansiedade, impedida de agir em situações corriqueiras, como trabalhar, por exemplo.


No entanto, existem outras formas de encontrar a paz, antes de recorrer ao tarja preta ou a situações nada saudáveis como álcool ou drogas ilícitas. “O exercício físico é uma alternativa interessante, que proporciona bem estar. Além disso, é importante talvez repensar o grau de consumo e respectivo volume de trabalho”, sugere.


O mais importante, recomendam especialistas, é não fugir da raia, mas sim encontrar formas de lidar com o bicho, antes de criar seis cabeças. “As pressões fazem parte da vida em sociedade. Não devemos potencializá-las por meio de interpretações radicais e catastróficas”, aconselha a terapeuta Viviane Nicoliello de Siqueira, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC).


Ela atenta para meios de aprendermos a lidar com as pressões para que, mesmo nos piores momentos, a saúde prevaleça.


“Devemos nos atentar para a alimentação, exercício físico, lazer e bem estar emocional. É fundamental aprendermos a relaxar. Quando relaxamos, nosso corpo e mente têm a oportunidade de se livrar da tensão acumulado e se preparar para novos desafios”, recomenda. “Não existem regras, o importante é descobrir o que funciona para você”, incentiva.


‘Reinvenção’ do cotidiano pode levar à superação

Deixar para trás o motivo que trazia pressão acumulada e, consequentemente, angústia para uma rotina mais leve. Foi o que fez a dona de casa M., de 49 anos, (que pediu para ter a identidade preservada). Após anos no cargo de gerência de um estabelecimento comercial em Bauru, onde se sentia pressionada para cumprir metas, pediu arrego.

Após passar “poucas e boas”, inclusive sem pagamento integral de salários por dificuldades enfrentadas pela empresa empregadora, e com o marido desempregado, ela desenvolveu um estado acentuado de ansiedade, que a fazia até mesmo pensar em situações extremas. “Saía com o carro e pensava em jogar num poste. Nunca tive coragem, pela criação que tive”, diz.


Pensando também no sofrimento que causaria aos familiares, ela conta que esses pensamentos não passavam do campo das ideias. Contudo, o sofrimento era constante, até que ela se deu conta de que sofria de doença emocional. “Me sentia desapontada em perseguir a perfeição, num mundo imperfeito”, atribui.


Hoje, ela se diz mais aliviada com a atividade que mantém em casa, onde, além das atribuições domésticas, passa o tempo no que chama de “terapia ocupacional” ao fazer bombons para vender para fora. “Optei por trabalhar em casa e me sinto muito melhor assim”, testemunha M., que, entre outros agravantes, tinha a pressão arterial elevada em cada crise ansiosa.


Mas, nem sempre, é possível vencer a dor por conta própria. A dona de casa, por exemplo, contou com o suporte do grupo de ajuda Neuróticos Anônimos (N/A).


Em outros casos, contudo, o acompanhamento médico é primordial para que a vítima da ansiedade aguda tenha de volta a qualidade de vida. É o caso do publicitário J* (que também não quer se identificar). Aos 25 anos, ele sofreu uma “quase” desilusão amorosa, quando a namorada lhe pediu “um tempo” para repensar a relação.


Ele conta que, mesmo sem o rompimento definitivo, sofreu as dores de quem havia perdido por inteiro a pessoa amada. “Eu não dormia, não comia e até mesmo o trabalho foi prejudicado. Durante o expediente eu não pensava em outra coisa e sofria muito enquanto não recebia uma ligação ou mensagem de celular”, recorda, dizendo sentir até dor física.


No caso dele, a solução foi através de consulta ao psiquiatra, que receitou acompanhamento psicológico, por meio de terapia, e o medicamento Rivotril no início do tratamento para acalmar a ansiedade em seu estágio mais avançado. “Tomei o medicamento nas semanas mais críticas e me senti mais calmo para dormir e desempenhar as tarefas”, atribui.


Hoje, anos mais tarde, J. não toma remédios e não faz análise. Diz ter se “reinventado”, e feliz, com um novo relacionamento.


 

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