Em uma bela tarde no longínquo ano de 1945, a então estudante Dalva Guimarães Leite Silveira veio a Bauru para participar de um evento estudantil. Dentro do ônibus, a animação imperava. Afinal, todos ali eram estudantes. Ao passar pela avenida Rodrigues Alves, no Centro, Dalva viu na calçada um jovem que lhe chamou a atenção. Segundo ela, era um jovem bonito, charmoso, que usava um suspensório. “Eu achava lindo suspensório”, comenta. Ela não teve dúvidas, pegou a rosa vermelha que tinha nas mãos, apanhada momentos antes em um jardim, e gritou: “Pega moço”.
O moço era Nilton Silveira, que estava acompanhado de outros dois amigos. Surpreso e ao mesmo tempo encantado com a atitude da jovem estudante, ele passou a seguir o ônibus em que ela estava. Quando o ônibus parou, ele esperou a garota descer e se apresentou. Nascia ali uma emocionante história de amor que dura 67 anos. Mesmo após o falecimento do marido, com quem viveu intensamente e teve três filhos, Dalva continua apaixonada.
Depois de terem se conhecido, começaram a namorar, noivaram, casaram, ela se formou professora, psicóloga, foi uma das figuras mais atuantes no meio assistencial, enquanto Nilton formou-se em direito e tornou-se um dos mais respeitados magistrados do País. O casal viajou o mundo, às vezes a passeio, outras a trabalho. Viveram incontáveis momentos juntos. E em muitos deles, pelo menos nos mais importantes, a rosa vermelha sempre esteve presente como testemunha do amor que sentiam um pelo outro.
Jornal da Cidade - Que lembranças a senhora tem da época em que era professora?
Dalva Guimarães Leite Silveira - Eu dei aula sempre na 4ª série, em várias escolas municipais e estaduais. Somente na escola estadual Lourenço Filho, eu trabalhei 20 anos, inclusive como auxiliar da diretora. Eu gostava demais de dar aulas. Sinto muita saudade daquela época, sinto falta. Eu gostava muito dos meus alunos. Fui professora, inclusive, do Edson Celulari. Ele tinha cerca de 10 anos. Como faz muito tempo não lembro se ele era um aluno comportado, se foi bom aluno.
JC - A senhora sempre deu aulas em Bauru?
Dalva - Não. Eu dei aulas também em escola estadual de Arealva. A escola ficava no meio do mato. Um dia, tivemos de enfrentar até cobra dentro da sala. De lá, eu vim dar aulas na escola Lourenço Filho, onde permaneci por 20 anos, como já falei.
JC - Quanto tempo durou sua carreira como professora?
Dalva - Trinta anos. Foram 20 no Lourenço Filho e 10 em outras escolas.
JC - A senhora fez psicologia também? Como foi isso?
Dalva - É isso mesmo. Eu me formei depois de velhinha (risos). Mas não atuei como psicóloga, porque meu marido falou que não havia necessidade. Eu queria trabalhar, mas ele achava melhor não.
JC - Quando a senhora fez o curso de psicologia, ainda trabalhava como professora?
Dalva - Eu fiz as duas coisas juntas. Eu era professora e fazia faculdade ao mesmo tempo. Era um sacrifício tremendo. Era um tal de preparar aulas, corrigir cadernos. Na minha época, um professor dava 11 matérias. Olha que absurdo. Hoje não é mais assim, um professor normalmente dá uma matéria.
JC - Nesta época, a senhora já tinha os filhos?
Dalva - Eu já tinha os três filhos. Todos pequenos ainda.
JC - E conseguia dar conta de tudo, como professora, estudante e mãe?
Dalva - Olha, foi um tempo bastante tumultuado. Era o Nilton (marido) com a vida dele tumultuadíssima e eu com a minha, bastante corrida também. Mas apesar de todo sacrifício, vivemos muito felizes.
JC - E por que a senhora decidiu fazer o curso de psicologia?
Dalva - Porque eu sempre gostei muito de estudar o comportamento humano. Muito embora, eu acho que cada um age de um jeito. Cada ser é um ser. Cada um dá o que tem. E não podemos exigir dos outros que eles sejam como nós queremos. Eu achava bonito estudar o comportamento humano, apesar de também achar isso algo muito difícil. Sempre admirei o comportamento das pessoas, e queria conhecer isso mais profundamente. Fiz a psicologia clínica e tinha vontade de montar uma clínica de testes e aconselhamentos psicológicos, mas o Nilton achou que eu não devia, então, fiz a vontade dele.
JC - Vejo que a senhora sempre foi bastante ativa. Estou certo?
Dalva - Fui presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer por oito anos em Bauru. Todo mês, eu ia jantar no hospital do câncer, em São Paulo. Trabalhei bastante, muita gente me ajudou, entre elas, Lindinha Franciscato, Marlene Amarantes, Cida Simão e Meire Nassif. Tínhamos dois ótimos oncologistas, que cuidavam dos nossos doentes. Além disso, tínhamos equipamentos e condições de tocar sozinhos a assistência aos doentes de câncer de Bauru. Assim, deixamos a rede feminina e fundamos o Fundo Assistencial Oncológico, que logo depois teve o nome mudado para Associação Bauruense de Combate ao Câncer. Na época, alegaram que oncológico era uma palavra difícil de o povo compreender. Era só ensinar, né! Não custava nada ensinar o que era oncológico. Fiz várias festas, entre elas, a Festa das Nações, com barracas de vários países. Um ano teve até barraca com comidas típicas da França. E todas as participantes vestidas a caráter. Atuei também nos trabalhos sociais do Lions Clube.
JC - Qual foi o primeiro trabalho assistencial de que participou?
Dalva - Foi na Legião Brasileira de Assistência (LBA – entidade fundada em 28 de agosto de 1942 pela então primeira-dama Darcy Vargas com o objetivo de ajudar as famílias dos soldados enviados à Segunda Guerra Mundial. Com o fim da guerra, tornou-se uma entidade filantrópica, que prestava serviços à sociedade, principalmente às famílias mais carentes e necessitadas em geral). Eu fui presidente da entidade aqui em Bauru e também em Pirajuí, no período em que o Nilton foi juiz lá.
JC- E por que decidiu se engajar nesses trabalhos assistenciais?
Dalva - Ah, porque eu gostava de ajudar as pessoas carentes, que são muitas na nossa sociedade. E eu acho que ainda fazemos pouco. Deveríamos fazer muito mais. Não é convencimento meu, mas quando parei com a Festa das Nações ninguém deu sequência ao trabalho. E a festa rendia um dinheirão (a festa tinha caráter beneficente).
JC - A senhora acha que os jovens da sua época eram mais engajados com trabalhos assistenciais do que os jovens de hoje?
Dalva - Eu acho que os jovens de hoje estão mais desanimados, meio descrentes.
JC - Por que?
Dalva - Não sei o motivo. Só sei que no meu tempo havia um interesse maior em ajudar a população mais carente, parece que as pessoas tinham mais vontade de colaborar.
JC - Como conheceu seu marido?
Dalva - Eu estudava em Jaú e, um belo dia, vim a Bauru para um evento estudantil. E quando o ônibus passou pela avenida Rodrigues Alves, eu vi o Nilton na calçada, com dois amigos, e joguei para ele uma rosa vermelha que eu tinha na mão. Aí ele começou a correr atrás do ônibus e o seguiu até o local onde paramos. Eu desci e ele se apresentou. Foi assim que nos conhecemos. Foi amor à primeira vista. Depois disso, a rosa vermelha esteve sempre presente nos principais momentos da nossa vida, simbolizando o amor que sentíamos um pelo outro. Em quatro anos, namoramos, noivamos e casamos. Nos casamos em 1949.
JC - Durante o tempo em que permaneceram juntos, vocês tinham o costume de viajar?
Dalva - O mundo tem cinco continentes. Nós fomos conhecer quatro. Só não fomos para a Antártida, porque o que vamos fazer no meio daquele gelo todo? Adorei a África, é uma maravilha. Fomos conhecer as principais cidades imperiais, como Fez, Marrakech, Casablanca, que não tem nada a ver com o filme. Conhecemos dez países da Europa, muitas cidades dos Estados Unidos. Canadá é uma maravilha. Lá, visitamos um shopping enorme que foi construído debaixo da terra. Na Alemanha, ficamos um mês. Um amigo nosso alugou uma casa perto da casa dele. Adorei a França. A Itália é lindíssima.
JC - E o Brasil?
Dalva - Conheço de ponta a ponta. Só não conheço Manaus, Teresina e mais umas duas capitais. O resto conheço tudo. O Nilton viajava muito para participar de congressos e eu ia com ele.
JC - De que forma a senhora se diverte hoje?
Dalva - Eu toco piano. Gosto muito. Adoro música clássica. Eu nunca estudei piano. Aprendi ouvindo minha mãe tocar. Toco de ouvido. Meu pai tocava violino de ouvido. Todos meus irmãos tocavam violão. Nós éramos oito.
JC - Como é ser esposa de juiz?
Dalva - Eu adorei. Acompanhei a carreira do meu marido bem de perto. Fui com ele em todas as cidades que ele foi. Chorei muito quando ele aposentou. Como ele começou a trabalhar cedo, ele se aposentou cedo, com 59 anos. Não deu tempo de chegar a ser desembargador. Mas o tempo que ele trabalhou como juiz em São Paulo o desgastou muito. Ele ficou lá durante cinco anos e atuava junto aos menores das unidades da antiga Febem, como juiz da infância e juventude. As rebeliões eram constantes. Isso o cansou demais.