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Esses chicletes de orelha...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em época de eleição, os jingles eleitorais grudam na orelha da gente. Há momentos em que me surpreendo cantando um refrão enquanto faço a barba. "Agora tá na mão da gente/vote nesse moço que é trabalhador". O spot de Rodrigo Agostinho é o mesmo da campanha de 2008 ? só mudou o tempo do verbo. O que era futuro, está no presente, comme il faut. Nem os surdos escapam porque já se utiliza da linguagem de sinais (Libras). O ritmo é de samba pagodeiro. Ou então sincopado como a da "mulher de garra, mulher de palavra/ de pé no chão." A letra procura persuadir o eleitor. Aparentemente inofensivos, são estrategicamente estruturados e elaborados para causar impacto: "Com Chiara eu sei que água não vai faltar". Gazzetta usa o soul romântico para sugerir mudança: "Quero buscar o novo/ sem limites para sonhar". Talvez até por escassez de tempo a interrupção do jingle do candidato "das esquerdas" é brusco: "Contra burguês, vote Paulinho, vote 16". Hoje o proletariado se aburguesou. Tem carro, celular e televisor de tela larga.

A qualidade dos jingles é bem melhor do que nos anos 1960, quando o então candidato Jânio Quadros grudou na cabeça dos brasileiros seu "Varre, varre, vassourinha/ Varre, varre a bandalheira". Era um contraponto ao Caixa 2 confesso de Adhemar de Barros que encomendou a Herivelto Martins e Benedito Lacerda estas pérolas: "Quem não conhece/ quem não ouviu falar/ na famosa caixinha do Adhemar/ Que deu livro, deu remédio, deu estradas/ caixinha abençoada". A letra tenta fazer que a "caixinha" passe a significar uma coisa boa, responsável pela prestação de grandes serviços ao povo. Todo contratante com o Estado tinha que pingar na abençoada caixinha. Jânio se elegeu e a corrupção continua. As preferências musicais passam por estilos distantes ? variações de samba, rap e pop/rock ? mas, de preferência, bem próximos das fatias (a palavra está na moda) eleitorais que mais interessam aos candidatos. As marchinhas não dão as caras há décadas. Chegavam a ser cantadas no Carnaval, a exemplo do que foi o jingle de Getúlio Vargas em 1950, "Bota o retrato do velho, outra vez/ Bota no mesmo lugar". A marchinha carnavalesca também foi usada com sucesso por um discípulo de Getúlio: "Agora todo mundo vai jangar/ É Jango, é Jango, é o Jango Goulart".

O jingle eleitoral não é uma manifestação musical espontânea que nasce de um movimento social ou cultural, de massa ou segmentado; é uma peça publicitária e nem sempre convence. Principalmente quando utilizado apenas como ? diriam os franceses ? "bourrage de crâne" ? ou método de convencimento por meio de argumentos falsos. O eleitor percebe que não há recursos para que o candidato, se eleito, possa cumprir tudo o que promete. A propaganda é ferramenta de convencimento, e não de argumentação. "Lula, lá/ brilha uma estrela". Sem medo de ser feliz.

A peça publicitária musical que enaltece um candidato passou a ser utilizada em campanhas eleitorais na eleição de 1930. A primeira música feita exclusivamente para uma campanha eleitoral foi "Seu Julinho vem", criada para a campanha de Júlio Prestes e cantada por Francisco Alves. Jingle comercial é uma ideia importada dos Estados Unidos pelo rádio. Há jingles que se tornaram mais importantes que o produto anunciado. Talvez o mais genial, e detestado pelas crianças tenha sido o dos cobertores Parahyba: "Tá na hora de dormir/ não espere mamãe chamar/ um bom sono pra você/ e um alegre despertar". O spot "Pílulas de Vida do Dr. Ross/ fazem bem ao fígado de todos nós" transformou-se em paródia: "Plínio Salgado, quando abre a voz/ faz mal ao fígado de todo nós." O jingle dispensa muitas firulas. Boni, quando era publicitário criou o "Varig, Varig, Varig", que inspirou também o Plim-Plim da TV Globo, o mais curto de todos. Lembramos, também, da simplicidade e da eficiência do jingle do Melhoral: "É melhor e não faz mal". Desde o século 19 os vendedores de rua usavam o mesmo esquema ? embora confiando apenas no alcance da própria voz ? ao gritar as suas mensagens sobre a forma de pregão. "Olha a pamonha quentinha, freguês/ Não deixe de experimentar". O jingle eleitoral tem característica própria. Procura traduzir em linguagem emocional o que o eleitor deseja. Funciona quando traduz o sentimento oculto do eleitor, aquilo que nós chamamos de inconsciente. Sem esquecer a razão. Cada eleição tem seu perfil.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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