Eles utilizam fertilizantes e pesticidas de origem natural para se desenvolver e são indicados para a saúde, inclusive como remédios naturais. Os alimentos orgânicos (veja definição no quadro abaixo) estão entrando pouco a pouco em cena no mercado da cidade. Segundo a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), a área cultivada com produtos orgânicos em Bauru tem crescimento anual de 30% com o aumento do consumo pela população.
Em um decreto publicado pelo Diário Oficial da União no dia 21 de agosto deste ano, o governo federal deu um importante passo com a instituição da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo). No decreto são valorizadas a oferta e o consumo de alimentos saudáveis e a biodiversidade brasileira, por meio de um trabalho articulado entre o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e diversos órgãos, que irão fortalecer a população rural e apoiar as ações voltadas para a agricultura familiar.
Entre as diretrizes da Pnapo está a promoção da segurança alimentar e nutricional, por meio da oferta de produtos agroecológicos isentos de substâncias que ponham em risco a saúde da população. Uma das metas do país com a iniciativa é abandonar o título de campeão mundial no uso de agrotóxicos.
Em vista ao aquecimento do mercado e a valorização da atividade pelo governo, uma cooperativa chamada Grão de Ouro, no assentamento Horto Florestal Aimorés, formada por mais de 30 famílias, corre contra o tempo para buscar a redução da utilização de agrotóxicos e de adubos químicos para obter a certificação participativa do governo federal para tornar-se, reconhecidamente, produtora de orgânicos.
“Eles já atendem uma média de 72 entidades, o que representa 17 mil pessoas, por conta da compra de alimentos oriundos da agricultura familiar pelo programa federal Mesa Brasil e o resto da produção escoa por feiras e venda direta aos consumidores”, explica Marco Aurélio Beraldo, engenheiro agrônomo e assistente de planejamento do Cati Regional Bauru, que acompanha as ações no assentamento junto ao Ministério da Agricultura.
A cooperativa já existe há cinco anos e produz desde hortaliças, a vegetais e legumes como abobrinha e cenoura. Mas, segundo Beraldo, o processo para a transição e obtenção da certificação no local ocorre há cerca de três meses.
“Numa mesma produção convencional é possível encontrar de 20 a 30 princípios ativos para o controle de pragas e doenças. Nesses produtos que estão para obter a certificação como orgânicos, esse índice cai para menos de 10. E a intenção é de que se chegue a zero daqui alguns meses”, enfatiza o assistente de planejamento da Cati.
Atualmente, o espaço que possui cerca de 10 alqueires obtêm um crescimento anual de 30% e a perspectiva é de que a área se amplie ainda mais para 2013.
Conforme Beraldo, os programas governamentais de incentivo aos produtores de orgânicos chegam a pagar 30% a mais no valor dos produtos, comparados ao preço dos convencionais.
‘Consumo pelos olhos’
Aparência, textura, tamanho e cor. Essas são as palavras que resumem a escolha do consumidor final para a aquisição de legumes, frutas, hortaliças e vegetais em feiras e supermercados. E, segundo o engenheiro agrônomo Marco Aurélio Beraldo, essa escolha é feita de modo errado.
“A população costuma consumir pelos olhos. Mas no caso dos orgânicos não dá, pois o tamanho é menor e a cor dificilmente será ofuscante, afinal é um produto natural”, ressalta Beraldo, reforçando o benefício nutricional dos orgânicos. “Mas ao mesmo tempo que parece ser frágil, a casca é geralmente mais grossa e também mais resistente”, completa o engenheiro agrônomo do Cati.
Embora a Cati não tenha dados de quantos produtores de alimentos 100% orgânicos existam na cidade, estima-se que o número não ultrapasse dez propriedades. Algumas conquistaram a certificação orgânica por meios próprios, pagando pelas inspeções realizadas por um instituto em Botucatu. Marcelo Bueno Gaio, por exemplo, conta desembolsar pela certificação ao menos R$ 3 mil por ano.
Os alimentos orgânicos são aqueles que utilizam, em todos seus processos de produção, técnicas que respeitam o meio ambiente e visam a qualidade do alimento. Desta forma, não são usados agrotóxicos nem qualquer outro tipo de produto que possa vir a causar algum dano à saúde dos consumidores.
Na agricultura, por exemplo, utiliza-se apenas sistemas naturais para combater pragas e fertilizar o solo. Embora apresentem praticamente as mesmas propriedades nutricionais dos alimentos convencionais, os orgânicos apresentam a vantagem de seres mais saudáveis, pois não possuem agrotóxicos. Também são mais saborosos.
Homeopatia em vacas e galinhas
Esterco, restos de vegetais e remédios homeopáticos para o combate de parasitas nos animais produtores de ovos e leite. É assim que o produtor Renato Walter Streger trata suas 30 vacas leiteiras e suas 400 galinhas no Sítio Cantinho do Sol, em Bauru.
Para a produção de ovos, nada de luzes artificias na intenção enganar os animais e fazer com que produzam mais ovos. “Aqui é tudo natural, desde a luz do sol até os ninhos e alimentos”, salienta.
Ao invés de aplicar injeções para que as vacas leiteiras produzam, o produtor se contenta em deixa-la à vontade com sua cria para que, mesmo perdendo um pouco de leite, ganhe na qualidade do produto. “Dá mais trabalho, sai caro e temos uma perda bem maior, mas é tudo saudável”, comenta o produtor, que também busca a certificação de seus produtos como 100% orgânicos.
Dificuldades
Mas nem tudo são flores. De acordo com os produtores, o preço diferenciado dos orgânicos, que acabam saindo mais caros que os convencionais tornam o escoamento do produto difícil no mercado. “Os brasileiros de um modo geral ainda não se preocupam em comer bem, se preocupam somente com o preço, mesmo com todos os benefícios, inclusive medicinais, dos orgânicos”, ressalta Marcelo Bueno Gaio, 47 anos, produtor de legumes, verduras e frutas orgânicas há quase 15 anos na cidade.
Outra dificuldade apontada por ele seria a perda da produção por conta das mudanças bruscas do tempo. “Se vem chuva forte, os produtores de alimentos convencionais fazem um preparado químico e até ‘ressuscitam’ a plantação. Já no caso dos orgânicos, se der uma chuva forte ou uma mudança brusca no tempo, podemos perder tudo”, considera o produtor, que já chegou a perder parte de sua produção por conta do clima.
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