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Eu faria até mais!

Wellington Anselmo Martins
| Tempo de leitura: 2 min

"Isso é uma piada com a cara do brasileiro!", disse Carlito Prestes à repórter da TV Globo. Ele ? que é estudante da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ? não aguentava mais a greve dos seus professores. E falou mais: "Essa greve é a maior prova de que os docentes federais se tornaram elitistas, capitalistas nojentos, que se usam dos sindicatos pra dobrar seus salários e aumentar seu consumo!" Ana Cláudia Bertoni, repórter da Globo, nitidamente estava gostando das palavras duras do estudante. Filmava tudo. E sabia que a fala dele iria repercutir.

Então, a repórter formulou a seguinte pergunta: "Carlito, há quanto tempo você e seus colegas já estão sem aulas?" "Olha, por causa da porcaria da greve", respondeu o estudante, "já faz quase quatro meses que estamos aguentando esse show reacionário e, aula que é bom mesmo, nada!" Nesse momento da entrevista, o câmera da Globo virou bruscamente a filmadora para pegar a manifestação dos estudantes. Eram os colegas do centro acadêmico do Carlito. Eles faziam muito barulho e gritavam em coro: "Alunos ociosos / Professores gananciosos / Alunos ociosos / Professores gananciosos..." Alguns deles até batiam tambores enquanto faziam o protesto.

Carlito, no meio da gritaria, era o mais entusiasmado, era o líder que puxava a todos. Num certo momento, ele chegou a pegar o microfone das mãos da repórter e, olhando para a câmera, discursou. Aquela foi uma situação emocionante. Foi possível reparar que alguns universitários escutavam as palavras de Carlito com admiração. E ele dizia: "Onde já se viu, um educador deixar seus alunos desamparados por tanto tempo! Isso é uma vergonha! Esses professores querem é ganhar vinte mil por mês sem trabalhar! Eles querem é dinheiro pra comprar roupa de marca e fazer viagem pra Europa! Raça de burgueses sem escrúpulos!" Todos aplaudiram calorosamente.

Passado um momento e, por fim, acabada a barulheira, a Ana Bertoni já estava guardando o microfone quando viu o Carlito, agora sozinho, ali por perto, e foi agradecê-lo pela excelente entrevista. Ele correspondeu dizendo que estaria à disposição da imprensa sempre que ela precisasse. A Ana já ia saindo, mas seu espírito de repórter a fez voltar: "Viu, Carlito, mas você não acha nada aceitável essa greve dos professores? Poxa, o plano de carreira deles é péssimo e os salários são baixos mesmo, você não pensa por esse lado também?" Carlito, o revolucionário, ao ouvir o teor da pergunta, fitou a repórter com olhar firme, deu um leve sorriso e declarou: "Se eu fosse professor, eu faria igualzinho, quer dizer: eu faria até mais!" E saiu de perto da repórter, foi juntar-se ao seu grupo para continuar o protesto contra a greve.

O autor, Wellington Anselmo Martins, é mestrando em filosofia (PUC) e graduado em filosofia (USC) / am.wellington@hotmail.com

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