Na mesma madrugada em que 22 túmulos foram violados em Bauru, na quarta-feira (4), dois boletins de ocorrência de roubo a sepulturas foram registrados em Agudos.
O delegado Paulo Calil, de Bauru, acredita que trata-se de ação de uma quadrilha especializada e que estaria em busca de dentes de ouro, principalmente. O bando teria feito uma espécie de "arrastão" pelos cemitérios.
No caso das violações em Bauru, a polícia avalia que a intenção era mesmo roubar dentes de ouro em função das arcadas dentárias levadas.
Relembre o caso
Em ação aparentemente orquestrada e facilitada pela fragilidade de segurança do local, vários jazigos foram violados no Cemitério da Saudade, região central de Bauru. O boletim de ocorrência (BO) aponta que arcadas dentárias foram subtraídas. Além do modo de operação, o que chamou a atenção foram os “alvos”. Dos 22 jazigos violados, a maior parte é de famílias tradicionais da cidade.
O crime atípico ocorreu na madrugada de quarta-feira (5) e foi descoberto pela manhã por funcionários do cemitério. O local, que possui mais de 48 mil metros quadrados e cerca de 6 mil jazigos, fica totalmente vazio durante a noite. De acordo com a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), há somente a ronda externa de um vigilante responsável por uma escola municipal nas proximidades.
A suspeita é de que os invasores tenham pulado, pela rua Monteiro Lobato, a cerca de concertina que protege o cemitério. Depois, eles arrombaram as portas das galerias, adentraram e mexeram em vários jazigos.
Dentre os “alvos”, a maioria era de famílias tradicionais de Bauru. Nas inscrições, estavam nomes conhecidos como o dos Dabus, Madi, Svizzero, Tarzia, Avalone e até o de Alfredo Moreira, empresário conhecido como “cabelo de fogo”.
Em princípio, informações obtidas pela reportagem davam conta de que maxilares haviam sido levados. A principal suspeita seria de que os ladrões estavam atrás de dentes de ouro. Depois, o fato foi negado pela Emdurb. Mais tarde, a subtração foi confirmada no BO.
Somente quem poderá apontar o que fora levado no total é a Polícia Científica, que foi acionada ao local para realizar a perícia técnica.
Ainda na tarde de ontem, era possível ver a ação dos invasores. Por todo canto, era fácil encontrar alguma galeria com a tranca estourada ou a porta completamente arrancada. Dentro, um buraco feito na parede dava acesso aos ossos.
Familiarizados
Alguns detalhes chamavam a atenção. Além da profundidade das galerias - algumas tinham até três metros -, todos os buracos feitos nas paredes eram exatamente no local onde estavam posicionados os crânios.
“Esses fatos dão indícios de que os invasores estavam familiarizados com uma rotina funerária. Não é qualquer um que faz isso. Se você tentar, não vai conseguir. Além de saberem a posição dos corpos, sabiam como descer em uma galeria. Não é algo simples”, aponta Adilson Motta, chefe de setor de funerárias.
Tanto a Polícia Militar (PM) quanto a Civil estiveram no Cemitério da Saudade. Foi registrado BO por furto qualificado, violação de sepultura e destruição, subtração ou ocultação de cadáver. O caso será encaminhado ao 3.º Distrito Policial (DP). Já os familiares dos jazigos violados serão avisados nos próximos dias pela Emdurb.
Segurança será ampliada,
porém, continuará precária
Logo após a violação em série dos 22 jazigos na madrugada de ontem, a Emdurb anunciou que ampliará a segurança do Cemitério da Saudade. Entretanto, as medidas ainda não parecem ser suficientes para amenizar a vulnerabilidade.
As portas do cemitério se fecham às 17h30 e não fica ninguém no local. O mesmo ocorre nos outros três cemitérios municipais de Bauru. “Tem um vigilante municipal que faz a ronda em uma escola nas proximidades. Iremos dar a cópia da chave para ele fazer uma ronda aqui dentro”, aponta Paulo Jorge André, gerente de Necrópoles e Funerária da Emdurb.
Questionada sobre o porquê de não manter um vigilante interno fixo no Cemitério da Saudade, a assessoria de comunicação da Emdurb disse que é uma área bastante extensa e que o custo seria muito alto. O que está sendo estudado é apenas colocar mais uma cerca concertina no local.
O cemitério já foi alvo de problemas em outras ocasiões, conforme noticiado pelo Jornal da Cidade. Nada, porém, com a gravidade do ocorrido na madrugada de ontem. Em março deste ano, vândalos arrancaram argolas de bronze de jazigos e jogaram pelo local. Dois meses antes, dois vasos de cobre foram furtados. (VO)
Crime atípico
Tanto os funcionários da Emdurb quanto as polícias Civil e Militar revelaram que a violação em série dos jazigos é algo incomum em Bauru. “Lembro de algo assim há cerca de cinco anos”, relatou Paulo Jorge André, gerente de Necrópoles e Funerária da Emdurb.
O delegado plantonista Paulo Calil confirma o caráter incomum do fato. “Já houve casos semelhantes na região, mas, faz tempo. É algo que vai ser investigado. A princípio, parece que os jazigos foram violados na eventual existência de ouro”, explica.
Segundo o tenente Pedro Batista Lamoso Júnior, comandante da Base Centro da PM, é preciso esperar o trabalho da Polícia Científica para saber o que realmente foi levado. “De início, não há sinais de arrombamento de cercas ou do portão do cemitério. Iremos intensificar o patrulhamento na área externa”, complementa. (VO)
Assustador
Alguns funcionários, que pediram para ter a identidade preservada pela reportagem, apontaram um medo que vai muito além do que trabalhar ao lado de caixões e jazigos. O temor deles é o de que as invasões no Cemitério da Saudade se tornem frequentes.
“Tenho medo de que isso volte a ocorrer com mais frequência. Antes, havia mais. Depois, deu uma parada. Tememos que isso vire uma onda”, aponta um funcionário.
Outro, que comercializa peças de bronze, afirma que pode até ter uma queda em seus negócios. “Quando começa a ocorrer muitos problemas assim, as famílias não querem mais colocar peças de bronze sobre as galerias. Sabem que colocam e elas são levadas”, complementa.