Os países que mais se desenvolvem atualmente têm muitos recursos naturais? A resposta, algo surpreendente, é não! Um estudo feito por Jeffrey Sachs, e publicado no jornal The Economist, avalia uma amostra de 97 países, relacionando desenvolvimento econômico e recursos naturais, com resultados inesperados. Nas três últimas décadas o crescimento econômico foi maior nos países com menores recursos naturais; os países de recursos mais exuberantes não escaparam à estagnação econômica.
Por que existe essa relação entre riqueza de recursos e lento crescimento econômico? Primeiro, os recursos naturais não se transformam gratuitamente em riquezas. Para se retirar os recursos do solo, os investimentos são elevados, o que implica em desviar muito dinheiro e muita mão de obra para essa atividade extrativa. Estes recursos deixam de fortalecer a atividade industrial que, de outra forma, exerceria um papel fundamental na geração do crescimento econômico.
O segundo fator econômico que explica a relação entre riquezas de recursos e lentidão do crescimento econômico é a valorização da taxa cambial: as exportações levam a um superávit comercial; o dinheiro do país superavitário tende a se valorizar em relação às outras moedas; os produtos industrializados deste país ficam proporcionalmente mais caros no mercado internacional, pois seus preços são cotados em moedas fortes; inversamente, as importações de produtos industrializados ficam mais fáceis. Resultado final: os consumidores preferem os produtos importados, o que pode levar ao sucateamento industrial do país exportador de recursos naturais.
Para curar esta doença econômica, alguns governos, ao invés de encontrar um remédio (uma política fiscal e monetária consistente), envenenam a economia erguendo barreiras comerciais para proteger o setor industrial, o que reduzirá, em longo prazo, o crescimento econômico. Outro problema: os preços de commodities variam muito. E isso é ruim, independentemente do choque de preços for para baixo ou para cima! Parece difícil aceitar que o aumento de preços de commodities pode prejudicar os países que as exportam, mas é exatamente isto que ocorre. O que estes países descobriram (aliás, como muitos ganhadores de prêmios na loteria!) é que é extremamente difícil gastar de maneira sensata os ganhos imprevistos. Não se pode (e não se deve) apenas consumir este dinheiro fácil; é necessário também investi-lo.
Na hora de investir os lucros provenientes dos aumentos de preço das commodities, a maior parte dos países exportadores expande o setor público. A expansão dos gastos governamentais leva a outro problema: quando iniciados, não mais conseguem ser freados. Por exemplo, será que algum povo aceitaria a redução da estrutura previdenciária ou a de saúde, caso a arrecadação pública, em virtude da redução dos preços das commodities, diminuísse? Claro que não! Isto explica a epidemia de déficits públicos e até de falências de países exportadores, nos últimos 20 anos. Conclusão: não são os recursos naturais em si, que provocam problemas, mas os efeitos colaterais sobre o comportamento dos setores público e privado. O azar é que muitos países ricos são governados por gente pobre de espírito...
O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela