Polícia

Marido de advogada baleada foi detido após atirar nos bandidos

Vitor Oshiro com João Pedro Feza e Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Se já não bastasse o drama da advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa, 46 anos, que foi baleada ao chegar a sua casa no Jardim Estoril 3 e segue internada (leia mais abaixo), a família teve outra dor de cabeça. O marido da vítima passou a noite preso por ter usado uma arma de fogo irregular para tentar se defender dos ladrões. A ironia, que ganha tons dramáticos, é o que manda a lei. "Mas foi inusto. Não foi abusivo, mas injusto", disse ele ao JC - leia mais abaixo.

A advogada e professora universitária foi baleada anteontem à noite, quando chegava a sua casa, localizada na quadra 2 da rua Evandro Ruivo. Ao abrir o portão da residência, a mulher, que é ex-policial militar, se deparou com três assaltantes armados.

Pouco antes, os bandidos já haviam rendido o marido dela, de 49 anos (cujo nome é preservado), a filha de 15 anos e o filho de 18 anos. A resposta da Polícia Militar (PM) foi eleger o Jardim Estoril 3, bairro onde o crime ocorreu, como piloto do projeto “Vizinhança Solidária” (leia mais na página 9).

Os bandidos conseguiram fugir a pé, levando uma pistola 765 e um revólver, que seriam do marido da vítima. Quando eles saíram da residência, o homem conseguiu se soltar e subiu ao piso superior. Da sacada da casa, ele efetuou quatro disparos contra o trio.

O problema é que, ao verificar o estado da arma de fogo usada na legítima defesa, os policiais descobriram que o revólver estava irregular.

Com isso, o marido da advogada baleada foi detido em flagrante por posse irregular de arma de fogo, como manda a lei. Nem o fato de ele possuir porte de arma serviu para amenizar sua situação. “A vítima mesmo confirmou que usou a arma. O delegado plantonista não tinha outra opção. Ele agiu no estrito cumprimento da lei”, explica o delegado seccional de Bauru, Marcos Mourão.

Caso o delegado de plantão não seguisse a lei, ele estaria cometendo prevaricação. Marcos Mourão ainda faz questão de ressaltar que o flagrante não ocorreu pelos disparos, mas pelo estado em que a arma se encontrava. “Se fosse pelos disparos, seria realmente um absurdo”, conclui o delegado seccional.

No fim da madrugada, o marido de Idalina Barbosa pagou a fiança mínima (o valor não foi informado) e foi liberado. As punições para porte irregular de arma estão previstas no artigo 12 da lei federal n.º 10.826, que incluem prisão de 1 a 3 anos, mais multa.

Investigações

Na madrugada de ontem, um dos suspeitos de ter atirado contra a advogada foi localizado pela PM. Ele foi conduzido ao Plantão da Polícia Civil, onde foi averiguado. Como não havia provas contra ele, foi liberado após ser ouvido.

O caso está sendo apurado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Ontem, o titular da unidade especializada, Kleber Granja, revelou que foi realizada ampla coleta de vestígios. “Fizemos um trabalho chamado de recognição visuográfica. É a coleta de impressões digitais, material biológico e outras provas que colocam suspeitos na cena do crime”.

O delegado afirma que a linha de investigação realmente será de tentativa de latrocínio (roubo seguido de morte). “É a única linha de investigação. Eles foram lá realmente para roubar”, complementa o titular da DIG.

Bala no corpo

De acordo com a assessoria de comunicação da Beneficência Portuguesa, o estado da advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa é estável. Ontem, ela estava consciente e conversando. A todo o momento, a mulher, de acordo com o que apurou a reportagem do JC, perguntava dos filhos.

O projétil, que atingiu a região das costelas, ainda está alojado no corpo da vítima. Ainda segundo a assessoria de comunicação da Beneficência, a conduta do corpo médico é aguardar para analisar quando e se a bala será retirada cirurgicamente.

A vítima está sendo medicada com analgésicos por conta da dor. Quando ela foi atingida, conseguiu dirigir o Corolla em que estava por duas quadras até pedir socorro a um vizinho. Ela foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao Pronto-Socorro Central (PSC).

Intenção de matar

O para-brisa do Corolla que era guiado pela advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa, 46 anos foi perfurado pelo disparo dos ladrões. Pela direção do disparo, as investigações já tem uma conclusão: o tiro foi para matar a vítima.

Quem garante é o delegado Kleber Granja, que conduz as investigações. “O tiro era para ter sido fatal. Pela marca e por onde o atirador estava é possível ver isso. Por sorte, ela conseguiu sair bem.”

Sem reação

Uma dúvida que ainda pairava sobre o caso é se a advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa, 46 anos, que é ex-policial militar, teria reagido ao se deparar com o assalto. A Polícia Científica realizou a perícia, porém, preliminarmente, não parece ter havido qualquer reação.

“Pelos relatos e pelo que apuramos, parece que não houve reação. Ela abriu o portão eletrônico e buzinou. Nisso, o bandido disparou”, explica o titular da DIG, Kleber Granja.

Uma triste ironia

Lei é lei. E deve ser cumprida. Agiu corretamente o delegado de polícia. Porém, é no mínimo uma grande hipocrisia do sistema legal um cidadão que acabou de ser atacado em sua residência, que teve os filhos reféns e a mulher baleada ser preso em seguida porque ousou defender a família. Há algo pra lá de anormal nisso tudo.

Este é o intuito desta reportagem: provocar a reflexão e, com muita sorte, a ação de quem tem o dever de legislar. Portanto, que fique bem claro o cumprimento da lei pelo delegado. Mas certamente ele mesmo, em seu íntimo, deve ter se sentido contrariado por ter de manter na cadeia durante quase toda a noite um pai de família cuja mulher estava no hospital baleada e os filhos, adolescentes, em pânico com tamanha agressão à intimidade, moral e material.

É uma situação quase surreal que nos deixa aturdidos, ainda mais inseguros do que já estamos e com a sensação de total incapacidade diante da escalada da criminalidade. Sem querer questionar o mérito, mas gastou-se tempo e milhões de reais em um plebiscito sobre o desarmamento. Por outro lado, agora tentam reformar o Código Penal com uma celeridade espantosa e a quatro paredes. A quem interessa tudo isso? Os cidadãos de bem pedem socorro!  

João Jabbour

 

"Arma é do meu pai e foi do meu avô"

"É preciso dizer que o revólver que resultou na minha detenção é do meu pai e foi do meu avô. Não tem procedência duvidosa. Essa arma é da família há anos. Ocorre que estava comigo e, sim, não sou o dono 'oficial'. Seja como for, e diante das circunstâncias, considerei injusta a minha detenção. Injusta, não abusiva. Se a arma fosse de calibre restrito, seria inafiançável. Como não é, pude pagar fiança. Mas não aceitam cheque. Então, precisei esperar o caixa eletrônico abrir, às 6 da manhã de ontem, para aí sim retirar os R$ 700 reais e ficar livre do plantão policial. Só consegui dormir nesta noite de quarta para quinta, já em casa, mas não é fácil. Sei que a autoridade policial aplicou a lei, mas não quero que passe a impressão de que a arma é, por exemplo, produto de um furto. Não é. Agora, só espero que minha esposa vá para o quarto do hospital ainda nesta quinta-feira. Vamos aguardar."   

(Depoimento de marido de mulher baleada concedido ao Jornal da Cidade)

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