Aceituno Jr. |
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A menina usou uma faca que estava sobre a pia da cozinha para golpear o pai ontem |
Um ovo. Foi este o motivo de uma briga ocorrida, na noite de ontem, entre pai e filha e que resultou em um ferimento a faca na cabeça do homem. Mas, mais do que a agressão motivada por comida, a ocorrência escancara, mais uma vez, as mazelas sociais e os danos incontestáveis provocados pelo avanço do crack.
A filha, uma adolescente de 16 anos, é usuária de crack e diz não ter nem forças para voltar a estudar. O pai, um pintor autônomo de 46 anos, já possui passagens pela polícia, acusado de roubo e estupro.
Casado com ele há 21 anos, a mãe, uma costureira de 37 anos, tem outros quatro filhos, incluindo um menino de 4 anos, que presenciou toda a cena na noite de ontem. Os nomes dos envolvidos serão preservados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A discussão ocorreu na casa da família, localizada no Parque Santa Edwirges. De acordo com mãe e filha, a jovem havia comido um ovo frito no jantar e pretendia preparar outro, mas foi repreendida pelo pintor.
“Eu ia fritar ovo para o meu irmão e minha mãe e ele achou que era pra mim. Disse que eu já tinha comido o meu”, conta a garota. Segundo a mãe, o marido sempre reclama sobre o fato de a adolescente comer demais.
Ainda conforme a versão das duas, o pintor teria avançado sobre a adolescente e começado a desferir socos em sua cabeça. Neste momento, a menina teria se apoderado de uma faca que estava sobre a pia e tentado golpeá-lo.
“Eu queria jogar a faca na direção dele. Mas ele segurou minha mão e consegui acertar a cabeça dele”, relembra a filha. A vítima sofreu um corte profundo do lado direito da cabeça, que se estendia desde atrás da orelha até próximo ao olho. Durante a luta corporal, a lâmina da faca também provocou ferimentos na mão da garota.
A pedido do pintor, a própria esposa chamou a Polícia Militar (PM), que recomendou o acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O homem foi encaminhado ao Pronto-Socorro Central (PSC), onde o corte foi suturado. Ainda na noite de ontem, ele deveria receber alta.
No Plantão Policial, a adolescente contou que as brigas dentro de casa são constantes. No ano passado, ela já teria ferido o pai superficialmente com uma faca. “Pegou na altura do ombro. Ele vem bater em mim, me dá socos e me xinga de nomes que nenhum pai deveria dizer para uma filha. Eu não vou ficar quieta”, diz.
Conforme adiantou o delegado plantonista Mário Henrique Ramos, o homem informou que não prestaria queixa contra a filha. Depois de prestar depoimento, a jovem seria liberada para responder a inquérito por ato infracional por lesão corporal dolosa leve, cuja pena prevista é de três meses a um ano de prisão.
Conflito
A costureira, que acompanhava a filha no Plantão Policial, demonstrava preocupação diante do relacionamento conflituoso entre os membros de sua família. Mas, de alguma forma, ainda tentava defender o marido. Ao ser questionada se ele também a agredia, respondeu que não. A filha, no entanto, a desmentiu e ela acabou relativizando a resposta dada inicialmente.
“Se ele me bate, eu também parto para cima. Não fico quieta, não”, comenta. Sobre a acusação de estupro que pesa sobre o marido, a mulher diz que se trata de uma amante dele, que o teria denunciado depois de uma briga.
Ela também não soube precisar quantas vezes o homem já teria sido detido por conta de seu envolvimento com crimes. “Acho que foram alguns furtos, mas ele nunca foi condenado a nada. Foram só acusações”, cita.
