Um homem pacato e sensato. Assim parece ser José Ferreira Barbosa Neto, 49 anos. Enquanto aguardava na Delegacia de Investigações Gerais (DIG), o funcionário público ainda comentava sobre o assalto que resultou em um tiro contra sua esposa Idalina Aparecida Lorusso Barbosa, 46 anos. “Tenho medo de acontecer de novo. O mais impressionante é que você está quieto e o problema vem até você”.
Ele ainda falou sobre o fato de ter passado a noite na delegacia depois de ter atirado contra o trio de ladrões que invadiu sua residência. Mesmo sem ressentimentos com a polícia, confessa que achou sua prisão injusta. “Mas não foi abusivo. Eles estavam apenas cumprindo a lei. Não quero mais criar polêmica”. Confira a entrevista na íntegra:
JC - Como foi o assalto?
José Neto - Eu estava chegando em casa. Quando abri o portão, um dos homens rolou por baixo dele e anunciou o assalto. Enquanto um deles ficou comigo e meus dois filhos na parte de baixo da casa, os outros foram arrecadando os objetos no piso de cima.
JC - Eles ameaçavam vocês?
José Neto - Eles falavam muito pouco. Diziam que era para nós não olharmos para eles. Um deles ficava batendo na minha cabeça com o canto do revólver e perguntando se mais alguém iria chegar na casa.
JC - Como foi ver seus filhos naquela situação?
José Neto - É um sentimento horrível. E não foi pouco tempo. Pelo que os vizinhos viram nas câmeras, eles ficaram 18 minutos dentro de casa. Tenho medo de acontecer de novo. O mais impressionante é que você está quieto e o problema vem até você. Estava chegando em casa do trabalho para tomar um banho e ocorre tudo isso.
JC - E como foi quando sua esposa chegou?
José Neto - Quando ela chegou, eles já estavam amarrando meus filhos e eu no piso superior. Ela chegou, deve ter percebido algo errado e tentou dar ré. Foi quando um dos ladrões desceu e atirou nela.
JC - O que passou pela sua cabeça?
José Neto - Deu um branco. Nem lembro direito. Só saí correndo e peguei a arma.
JC - Aí você atirou neles da sacada, correto?
José Neto - Não. Eu pulei para o chão. A altura é de uns cinco metros. Pulei e vi alguns vultos correndo. Foi neles que eu atirei. Antes, dei dois tiros para cima para alertar a polícia de que estava ocorrendo um assalto.
JC - Foi por conta de ter usado essa arma que você foi preso. Como se sente?
José Neto - Acho que foi injusto. Injusto, mas não abusivo. Foi muito ruim ficar na delegacia esperando depois de tudo que ocorreu. Não consegui dormir. Passei a noite toda acordado. Mas não tenho nenhum ressentimento do delegado. Eles estavam apenas cumprindo a lei. Não quero mais criar polêmica.
JC - Mas a arma era mesmo irregular?
José Neto - A arma era do meu pai. Ele é um senhor de 78 anos e pediu que eu a guardasse na minha casa. O registro está vencido (a licença venceu no último dia 13 de julho), mas ela está ainda no período de recadastramento. De acordo com a polícia, o problema foi estar no nome do meu pai e eu ter utilizado.
JC - E como vocês estão agora?
José Neto - Minha esposa já está bem melhor. Meus filhos também estão tranquilos, apesar do susto. Hoje (ontem), visitei minha esposa e ela falou em mudarmos do bairro. Não sei se é o que vamos fazer. Estamos nos reunindo com os vizinhos para contratar um segurança por lá.
JC - Para finalizar, esperava passar por uma situação dessas?
José Neto - É a segunda vez que fui assaltado. Em 1994, fui abordado, mas consegui fugir. O assaltante deu uma coronhada na minha cabeça. Eu corri pro meio do mato e escapei. Agora, teve tudo isso de novo. Realmente, tenho medo de ser vítima novamente.
Redes sociais
A notícia da prisão em flagrante de José Ferreira Barbosa Neto, 49 anos, por posse irregular de arma de fogo, repercutiu nas redes sociais ontem. Na maioria dos comentários, a população se revoltou contra a legislação.
Alguns, porém, defenderam a lei em referência ao armamento e também a atuação da polícia. Para eles, o entendimento é de que a lei existe e precisa ser seguida para qualquer pessoa e em qualquer situação.
No quarto
A advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa saiu da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Beneficência Portuguesa na tarde de ontem. Em um dos quartos do hospital, ela recebeu familiares e amigos.
De acordo com a assessoria de comunicação da instituição, ainda não há previsão para que ela receba alta. Tampouco há qualquer data para a retirada da bala, que continua alojada no tórax da vítima.
Marido da vítima usou arma do pai para atirar no trio de ladrões durante o assalto no Estoril
O revólver que José Ferreira Barbosa Neto, 49 anos, usou para atirar nos bandidos que invadiram sua casa era de seu pai. Ontem, ele mostrou o registro da arma de fogo à reportagem do Jornal da Cidade. Apesar de o prazo de validade já ter expirado no último dia 13 de julho, o funcionário público garante que ainda está no período de recadastramento.
A dor de cabeça toda teria sido justamente porque a arma não estava em seu nome. Por conta disso, José Barbosa Neto, mesmo sendo a vítima do assalto e tendo sua esposa baleada, passou a noite preso e foi autuado em flagrante por porte irregular de arma.
Somente pela manhã, ele foi liberado. Como estava sem dinheiro na ocasião, precisou esperar abrirem os caixas eletrônicos e sacar os cerca de R$ 700,00 pedidos na fiança. “A arma não tem procedência desconhecida. Não quero que pensem, por exemplo, que era produto de furto. A arma era do meu pai. A procedência é conhecida”, complementa.
O delegado chefe da Delegacia de Polícia Federal em Bauru, Carlos Alberto Fazzio Costa, explica que uma arma é algo pessoal. Ou seja, deve estar no nome de alguém. “Uma arma irregular é aquela que está no nome de ninguém ou com registro vencido”, destaca.
Atualmente, o registro das armas vale por três anos. Passado esse período, a pessoa precisa fazer a renovação e passar por vários exames, como o de aptidão psicológica e de manuseio.