Bairros

Bate na madeira!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Madeira de aluguel

Localizada na quadra 4 da rua Antônio dos Reis, no bairro Higienópolis, a casa onde mora Paulino Justino da Silva, 53 anos, chama a atenção de quem passa pelo local. O imóvel, que tem muros baixos de fachada graciosa, é a única casa de madeira da rua e divide espaço com residências de alvenaria, equipadas com cerca elétrica, muro alto, câmeras de segurança e tudo mais que o avanço tecnológico dá direito.

“É uma casa bem antiga. Pra ser sincero, não sei precisar quando ela foi construída, mas acho que foi na década de 70”, presume Paulino.

Alugada, a residência pertence aos herdeiros de seu antigo dono, que nunca tiveram a intenção de morar no local. Segundo Paulino, este é um dos motivos pelos quais a casa resiste intacta nos dias de hoje.

“Eles preferem alugar e, por conta disso, não têm a preocupação em substituir a madeira por tijolos”, justifica.

Morador do local há três anos, ele viu na casa de madeira uma opção para morar em um bairro bem localizado dentro do município sem ter de dispender de valores astronômicos para pagar o aluguel.

“É um bairro muito bom e o aluguel, apesar de ser caro, não tem valor tão alto quando o das casas de alvenaria”, pontua.

Paulino, que já havia morado em casas de madeira anteriormente, diz que não vê diferença entre o imóvel se comparado com um de alvenaria. Os problemas enfrentados são decorrentes do tempo de existência da casa, como as pequenas rachaduras que começam a surgir na ripa e deixam a água infiltrar nos cômodos nos dias de chuva.

“Do mais, é tranquilo. Não tenho do que me queixar”, afirma.

 

Madeira própria

A Vila Cardia é um dos bairros mais antigos de Bauru. Talvez seja por conta disso que, mesmo nos tempos atuais, suas ruas preservem muitas das casas de madeira que no passado determinavam o cenário do bairro.

Uma destas casas está localizada na quadra 5 da rua Oswaldo Caçador e é de propriedade de Elias Floriano Filho, 56 anos. Construído há cerca de 50 anos, o imóvel tem uma aparência colonial. Diferente da maior parte das casas do tipo, não tem madeiras coloridas e, sim, envernizadas.

“Eu que preferi assim. Moro aqui há 7 anos e aos poucos estou fazendo algumas mudanças na casa. Uma delas foi tirar os tacos de madeira do chão de um dos cômodos e colocá-los do lado de fora da casa. Acho que ficou bom”, constata.

Elias, que já morou outras vezes em casas de madeira, conta que se mudou para o local fugindo do aluguel. O fato de a casa ser de madeira foi um agente facilitador na tomada da decisão.

“Era mais barato e compensava comprar uma casa de madeira. As casas de alvenaria são bem mais caras, não cabem no meu orçamento”, resume.

Como alternativa para fugir do aluguel, Elias decidiu comprar a casa e, aos poucos, ir modificando-a. Atualmente, já substituiu três paredes de madeira internas da residência por outras de tijolo.

“Devagar eu vou trocando. Não me importo de a casa ser de madeira, mas prefiro que seja de alvenaria”, justifica.

 

De geração para geração

“Por aqui, todas as casas eram de madeira. Umas eram mais conservadas, outras um pouco mais feias... Fato é que, pouco a pouco, elas foram sendo substituídas por casas de tijolo. As que restaram foram a minha e a da vizinha da esquina”.

É com esse relato que Eliane Cristina Rodrigues, 40 anos, descreve a rua das Azaleias, no Parque Vista Alegre, onde passou três das quatro décadas de sua vida. Natural do Paraná, a casa de madeira foi a primeira residência da família em Bauru.

“Meu pai comprou esta casa e foi aqui que eu e meus quatro irmãos crescemos”, conta.

Com o passar dos anos, a vida dos irmãos assumiu outros rumos. Os pais se mudaram para uma casa de alvenaria e Eliane acabou ficando com a casa, onde atualmente mora com duas filhas.

“Pretendo comprá-la da minha mãe. Gosto muito deste lugar”, afirma ela, que não vê nenhum ponto negativo no fato de o imóvel ser de madeira. “Não tenho nenhum trabalho extra por conta disso”, pontua.

Contudo, apesar do valor sentimental que a casa tem para ela, Elaine confessa que pretende, aos poucos, substituir as ripas de madeira por tijolos.

“É que quero ampliar a casa, construir mais cômodos. A casa sendo de madeira não tem como”, justifica.

 

De valor sentimental

Madeira, suor e muito amor. É destes materiais que foi construída a casa onde hoje vive Marcia Elena de Paula, 52 anos. Por conta de sua aparência conservada, o imóvel de madeira localizado na Vila Falcão chama a atenção de quem passa pela Nilo Peçanha, uma das ruas mais movimentadas do bairro.

“Foi minha mãe quem fez esta casa, há 42 anos. Meu pai era doente e não pode ajudar na construção. Minha mãe contratou ajuda, mas carregou ripa por ripa de imbuia, uma madeira muito comum na época”, lembra Marcia Elena.

Criada na casa, ela viu a família crescer e se espalhar pela cidade. Hoje, é a única moradora do local, sem contar os cachorros Tony e Leonardo, é claro.

“Como não me casei nem tive filhos, acabei ficando com a casa. E gosto muito daqui. Não pretendo me mudar por nada”, afirma.

Quando questionada se nunca pensou em derrubar as paredes de madeira para colocar outras de tijolos no lugar, Marcia Elena titubeia.

“Tenho, sim, o sonho de reformar minha casa. Quero muito ampliar os cômodos, dar uma renovada... Mas não sei se teria coragem de pôr tudo abaixo”, pondera.

Entre os pontos negativos de morar no imóvel, Marcia Elena aponta as ações do tempo.

“Quando a casa foi construída, a Nilo Peçanha não tinha o movimento que tem hoje, consequentemente, a estrutura da casa podia ser mais simples. Atualmente, com o intenso fluxo de veículos, algumas madeiras já estão apresentando problemas”, pontua.

 

Chique, aconchegante e ecológico

Quando o assunto são as casas de madeiras que resistem nos bairros da cidade, muita gente logo pensa “é falta de opção, afinal, quem gostaria de morar em uma casa de madeira se tivesse escolha?” Porém, quando se trata do artesão João Gomes, este pensamento está equivocado. Não somente morar, mas trabalhar em uma casa de madeira foi uma escolha feita por ele.

João é conhecido na cidade e região por dar a pedaços de madeira formato de móveis, como bancos, mesas e cadeiras. Sendo assim, nada melhor que utilizar seu talento para construir sua moradia e seu ateliê.

“Esta casa tem cerca de 120 metros quadrados, divididos em dois andares. Levei cerca de seis meses para construí-la. Foi a segunda casa do tipo que fiz. A primeira foi no Jardim Pagani, onde, na época, ficava meu ateliê”, conta ele, que atualmente mora na Chácara São João, próxima do Mary Dota.

João Gomes explica que a casa não é uma simples casa de madeira, forjada pela necessidade. Ao contrário. Nela, foram utilizados conceitos de sustentabilidade. A madeira empregada na construção, por exemplo, é a costaneira, primeira madeira que sai da tora, geralmente utilizada para fazer carvão, lenha ou cavaco. Além disso, a casa tem pilares de paralelepípedos e janelas de vidro, que permitem maior penetração da luz.

Entre os benefícios da escolha, João aponta o clima aconchegante e a sustentabilidade. “Não é como o concreto, que depois fica de entulho na natureza”, justifica.

Segundo ele, uma casa como esta pode ficar até 30% mais cara que uma construção de alvenaria, não por conta do material, que é reciclado, mas por conta da mão de obra, que deve ser especializada.

“Além dos cuidados com a madeira, quem constrói uma casa como esta deve ter um cuidado extra com a instalação elétrica”, frisa.

 

Cantinho especial

Quem vê a fachada da casa de propriedade de Cidinha Oliveira, 52 anos, localizada na Vila Independência, custa a acreditar que o imóvel foi construído há 34 anos e ainda mantém em sua estrutura madeiras originais da época.

Graciosa e superconservada, a casa, que já foi moradia da família, serve atualmente como ateliê de artesanatos de Cidinha e sua filha.

“Meu pai construiu esta casa em 1978. Eu era adolescente quando me mudei para cá. Fiquei por dois anos e depois me casei. Meu pai e minha mãe viveram nesta casa até o fim de seus dias. Depois que eles faleceram, o imóvel ficou alugado por um tempo até que há 13 anos transferi meu ateliê para cá”, conta Cidinha, que lembra que na época o quarteirão era composto principalmente de casas de madeira e terrenos baldios.

Preservar a casa sempre foi uma das grandes preocupações de Cidinha. Mesmo quando o imóvel estava alugado, ela e a família sempre faziam questão de zelar por sua conservação.

“Uma vez alugamos a casa para um homem que tinha uma oficina mecânica. Quando percebemos que isso estava prejudicando a casa, decidimos romper o contrato”, conta.

Entre os segredos de Cidinha para manter a qualidade da madeira mesmo após tantos anos de uso, está a manutenção constante.

“Estamos sempre repintando a madeira, fazendo um reparo aqui, outro ali”, explica ela, que confirma que o fato de ela e a filha trabalharem diretamente com artesanatos facilita a manutenção.

E o que no passado representou o único recurso disponível para se construir uma casa, atualmente agrega charme ao negócio de Cidinha.

“Acho que a casa de madeira combina com o ateliê”, avalia. 

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