Regional

Casal vai ?viajar? pela hidrovia Tietê/Paraná

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Navegar pela hidrovia Tietê/Paraná e coletar dados sobre a qualidade e vida da água e da população ribeirinha. Com esta ideia na cabeça, o casal Yamandú Rodriguez Villalba, 69 anos, e Elaine Alves Pereira, 49 anos, partiu para mais uma aventura em um catamarã.

O Projeto S.O.S começou em Barra Bonita e terminará no mesmo lugar, explica o uruguaio Villalba. “Vamos navegar integralmente o rio Paraná/Paraguai e a parte navegável do Amazonas. Daqui vamos para São Simão, descemos até o rio Paraná e seguimos até o encontro dele com o rio Grande, com o rio Paranaíba, onde começa o Paraná. Entro no rio Paraná, navegamos 160 quilômetros até São Simão, onde está a hidroelétrica. Aí, temos ainda   uma interrogação, porque há dois rios. O  Aporé  o Corrente. Eventualmente posso ir por ele, mas não sei até quando.”

Para alcançar o rio das Mortes, o Catamarã terá que ser levado por mais de 200 quilômetros em um caminhão. “Chega um momento em  que o barco será colocado em um caminhão. Devemos andar cerca de 300 quilômetros para alcançar o rio das Mortes. Nele, vamos descer até o rio Araguaia, Tocantins, Pará e Belém do Pará. De Belém do Pará subimos o Amazonas até Manaus. De lá, entramos no rio Madeira e por ele chegamos até Porto Velho.”

De Porto Velho, segundo Villalba, a navegação será feita pelo rio Mamoré. “Entramos na Bolívia, no rio Grande, perto de Santa Cruz, e embarcamos de novo em um caminhão que nos levará a Cáceres. No rio Paraguai, descemos toda a hidrovia até Palmira e então voltamos a navegar pelo rio Paraná. Subimos todo ele até o Tietê e retornamos para Barra.”

Pela primeira vez em águas doces, o casal quer conhecer quem conhece bem os rios. “Compramos uma filmadora semiprofissional para conhecer quem conhece os rios. Queremos ouvir quem nasceu, brincou, se criou e trabalha no rio. Quero registrar os depoimentos e fazer um documentário, porque acredito que vou encontrar histórias fantásticas.”

Através dos depoimentos, Villalba pretende descobrir quais eram os peixes que povoavam aquelas águas até um tempo atrás e quais aqueles que hoje vivem nesse rio. “Aqui em Barra Bonita, por exemplo, tem tilápia. Essa espécie não é daqui, é africana. Foi a Cesp que colocou esse tipo de peixe no Tietê. Antigamente, aqui tinha pacu, atualmente essa espécie é plantada.”

A história de vida da população ribeirinha é outro registro que interessa aos aventureiros. “Eles vivem em contato diário com o rio e a maneira como vivem, se alimentam e se relacionam uns com os outros é um item cultural que nos interessa.”

 

Dificuldades a bordo

O espaço restrito também é um obstáculo para aqueles que optam pela aventura em um veleiro ou barco. A despensa fica no chão, entre o piso e a água. Todos os cereais têm que ser guardados em garrafas pets. Frutas, verduras e produtos de higiene também ficam nessa espécie de subsolo. Para retirá-los, é preciso erguer a tampa.

Mas as dificuldades não param aí. Para as mulheres, o tamanho do quarto e do banheiro também é obstáculo, comenta Eliane Alves Pereira. “Você tem uma casa inteira num espaço pequeno. Não é fácil. Tudo tem que estar em seu devido lugar, do contrário, atrapalha. Para depilar, o banheiro não ajuda e eu tenho que me virar de um lado para outro para conseguir. Fazer as unhas é coisa rara e pintar os cabelos já faz parte das coisas menos prioritárias.”

Lavar as roupas em uma pia de banheiro e cozinhar com o barco balançando também faz parte da lista de dificuldades. “Tudo isso é contornável. O problema é que eu não entendo nada de navegação e quando surge um problema, me preocupo porque já passei por experiências traumáticas no mar. Em água doce ainda não naveguei o suficiente para saber se vou ou não sentir enjoos e passar mal.”

A pior situação em mar vivida pela professora aconteceu em Florianópolis. “Um medo enorme tomou conta de mim. Pegamos uma tempestade e ficamos à deriva. A vela estava toda rasgada, sem motor e pensando como faria para chegar em terra. Eu só rezava. Nem sei se pensei que ia morrer. Eu não via uma solução razoável. Pensava que uma hora ia chegar em terra, nem que fosse com um pedacinho de vela, minha dúvida era quanto tempo ia demorar para isso acontecer. Fiquei traumatiza. Depois disso, me apavora quando quebra uma peça.”

Embora o medo tenha sido grande, Elaine Pereira tem certeza que não vai desistir. “Com certeza vou passar muitos medos ainda. Vamos encerrar meu projeto ‘aventureiro’ até o final da minha licença de professora. Terei que voltar a dar aulas, até aposentar.”

As noites no mar são solitárias, lembra a velejadora. “Vez ou outra, vemos a luz de outro barco. Quando tem lua cheia, ela nos faz companhia. Do contrário, abrimos os olhos e não vemos nada. Dormimos cedo e acordamos por volta das 4h.”

 

Qualidade e vida dos rios

As pesquisas sobre a qualidade e vida das águas dos rios é um projeto que ainda depende de patrocínio, avisa Villalba.

“Temos o dinheiro para fazer a viagem, não preciso de recursos para isso. Mas, se for para fazer medições e adquirir equipamentos eu vou ter que ter algum patrocínio,” diz Yamandú Villalba. 

Segundo ele, no catamarã tem um pequeno laboratório, mas falta uma ‘injeção’ de tecnologia. “Existem equipamentos modernos. Medidor com sensores que você programa para que ele envie dados a cada 10 minutos ou conforme a necessidade. O aparelho  vai medindo a quantidade de oxigênio da água, temperatura e outros parâmetros. Enquanto o barco vai navegando, ele vai coletando as informações.”

O medidor precisa ficar em um tubo para não sofrer com a turbulência. “As informações são enviadas para um computador que acumula e grava. Um receptor de satélite manda via Internet de qualquer lugar para os órgãos interessados. Para universidades. Ainda não há nada certo, mas conversei com um professor da Universidade de São Carlos, ele é perito do Instituto Internacional de Ecologia. Ele gostou do projeto e fez uma carta falando da importância.”

 

Dia e noite no mar

O perigo do mar é a terra, diz Yamandú Villalba. Isso porque ele garante que estando em alto mar não há risco de afundar. “Só afunda se bate contra outro barco ou se vai nas pedras. Há lugares no mar que viajamos com o piloto automático. Os ventos são constantes. Próximo da terra tem muita elevação e temos que mudar a vela a cada momento. Em alto mar, isso não acontece.”

Villalba lembra que quando viajava pela costa brasileira, houve um trecho bastante calmo em águas salgadas. “Descemos de Recife, passamos por Salvador, quando eu regulei as velas, e só em Cabo Frio tive que fazer mudanças. É uma calmaria.”

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