Delgallo: além de médico, um amigo do peito
O médico mastologista William Davila Delgallo é mais do que um profissional na luta contra o câncer de mama. Ele é um ativista no enfrentamento da doença que mexe com a saúde física e psíquica das mulheres e familiares que têm que enfrentar o problema.
Para a melhora na qualidade de vida das pacientes, Delgallo mobiliza pessoas no Amigas do Peito, grupo de voluntariado de câncer de mama, formado por pacientes e colaboradores, entre os quais profissionais da área médica, advogados, entre outros amigos do peito.
Em muitas circunstâncias, a relação médico-paciente exige transparência com sensibilidade do médico para saber que não pode esconder a realidade da paciente, porém essa realidade precisa ganhar uma dimensão suportável para quem está vulnerável. “Na oncologia parece que existe um pacto entre o paciente e médico em que ela não precisa perguntar muito coisa e você não precisa dizer muita coisa. Ela sabe exatamente o que está acontecendo”, define Delgallo.
Os familiares de William são bauruenses. Os pais são Luiz Carlos Delgallo e Irene D’Avila Delgallo, e o irmão é Marcelo Davila Delgallo, mais novo entre os dois irmãos e que atua na área de vendas. “O D’Avila dela (mãe) tem apóstrofo. O meu, esqueceram”, comenta. O médico bauruense explica que “Delgallo” vem da parte italiana da família. Familiares e amigos são muito bem vindos na casa de William, entusiasta das reuniões. “A família é um centro para gente”, define.
Ele é casado com Michela Gavioli Pinto, 41 anos. Os filhos do casal são Iago, 12 anos, e Yuri, 9. Há 2 anos, a jovem Liessa, afilhada de William, integra a família.
William frequenta simultaneamente duas pós-graduações, uma na área de gerenciamento empresarial no segmento hospitalar e psicologia, para poder dar um melhor apoio às pacientes. Ele é formado em medicina pela Universidade de Campinas (Unicamp), onde também fez a residência médica. A pós-graduação - mestrado e doutorado - foi em mastologia na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMU), da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Desde 1996, ele atua como mastologista. A turma de medicina da Unicamp de 1991 festejou os 20 anos de formatura no ano passado em um encontro no Guarujá. A turma mantém em dia o papo em uma página no Facebook.
A primeira impressão do consultório do mastologista William Davila Delgallo é de estranhamento. O roxo em uma das paredes da recepção sugere a transformação. No consultório, novamente o roxo está no caminho da paciente até um espaço reservado para exames. Ouve-se ao fundo uma música instrumental para criar um ambiente relaxante e envolvente para transmissão de energia boa à paciente. Na outra ponta do consultório, o médico experiente em salvar e orientar vidas tem um móvel que ampara objetos simbolizando crenças religiosas ao lado de cristais e metais. A pequena sala é onde a paciente pode se recuperar deitada em um sofá ondulado, desfrutando da vista de um jardim interno.
Jornal da Cidade - Alguma vez o senhor chegou a pensar que teria o número de pacientes que atende atualmente. São 7 mil mulheres?
William Davila Delgallo - Sempre acreditei que os pacientes que eu tiver que cuidar vão, de certa forma, cruzar o meu caminho. Uma sensação difícil até para o médico que está começando a trabalhar é a questão da preocupação se você vai ter pacientes ou não. Eu nunca tive essa preocupação porque sempre acreditei que eu teria o paciente que me fosse destinado mesmo.
JC - Por que seguiu a carreira de médico?
William - Eu não me lembrava. Minha avó Maria Carmem e que faleceu há dois anos, aos 92 anos, me contou no leito de morte, ainda muito lúcida. Quando eu nasci, eu tinha um tio médico dermatologista Silvio Cremer e que era Espírita. Ele me pegou no colo na maternidade e falou que: “Esse aqui vai ser médico”. Ainda pequeno, ela disse que eu sempre falava que seria médico. Só fui me lembrar disso e buscar a medicina quando estava no colégio.
JC - Como é a relação no Amigas do Peito?
William - Sempre foi um grupo que não é atrelado à minha imagem. É um grupo de voluntários de câncer de mama em que qualquer médico poderia participar e qualquer paciente, independente do médico dela, poderia participar. Temos um pessoal que batalha muito. Não é um grupo que você vai para se lamentar. É para ouvir alguma coisa e são as pacientes que determinam, por exemplo, uma palestra sobre dermatologia.
JC - O que colabora para a mulher que perde um seio recuperar a autoestima?
William - Quando comecei a trabalhar nesta área, as cirurgias eram mais radicais. Você acabava lesando mais a paciente. Hoje, temos técnicas bem menos agressivas. Você faz uma mastectomia e reconstrói a mama. Mexer na axila e tirar um gânglio ao invés de tirar todos. Mudou muito o pós-operatório. Associado a isso é você confiar no tratamento e no seu médico.
JC - A relação médico-paciente se transforma ao se tratar dos riscos provocados por um câncer conjugado com a autoestima da mulher?
William - Falo sempre para minhas pacientes que se não confiar no tratamento, o melhor é mudar de médico. Eu não costumo omitir nada da paciente, mas tem formas de se falar. No grupo Amigas do Peito, em que sou um dos fundadores junto com as pacientes, o fato da mulher que está passando pelo problema do câncer de mama ter o contato com outras mulheres que tiveram câncer de mama ajuda muito ela saber como está indo aquela pessoa após 10, 15 anos. Aqui no consultório eu procuro estimular e encaminhar para um psicólogo para um trabalho em conjunto. Costumo dizer para elas que as coisas só vão melhorando conforme vai passando o tempo. Não adianta eu falar para elas que daqui a 5 anos vai estar bem. Elas têm que vivenciar essa experiência.
JC - O que muda para um paciente vivenciando um instante limite de sua vida?
William - A questão oncológica é um momento para a mulher rever alguns conceitos dela. Rever alguns conceitos de doença, família, de pessoas que estão ao lado dela e as prioridades que ela tem na vida. A gente percebe que o paciente oncológico, às vezes, tem algumas prioridades que mudaram totalmente. Coisas que eram muito importantes hoje não têm mais importância. Hoje você passa a dar importância a coisas pequenas. Como estar com filho e com marido. Passear, curtir a família e aquelas pessoas que estão próximas. Antigamente, você associava a palavra câncer à morte. Hoje os pacientes com câncer têm uma sobrevida muito boa, sem doença e morrendo de outra coisa. A minha avó teve câncer de mama aos 75 anos e morreu por outra coisa e aos 92 anos. Ela tratou na época que eu estava estudando com um bauruense e que é primo meu, o Cesar Cabello, que operou ela e depois eu vim para cá e acompanhava. Costumo falar para as pacientes que todos nós temos passagem de volta comprada. A gente só não sabe quando vai picotar o nosso cartão. O que a gente tem que fazer é vivenciar nosso dia a dia. Não dar valor às coisas pequenas que incomodem a gente.
JC - O senhor pratica isso em sua vida?
William - Quantas coisas você tem no seu dia a dia. Pessoas que te olham meio atravessado e você dá um valor tão grande naquilo e você queimou toda sua energia naquela ira, na raiva. E deixou de aproveitar alguma coisa boa que estava por ali. A gente costuma prestar atenção nas coisas negativas. Eu sempre acreditei que a gente deve olhar para frente, traçar nosso objetivo e ir em busca dele.
JC - Se sente também revigorado ao atuar em uma área médica tão sensível?
William - Desde a formatura, eu fazia essa parte ginecológica, inclusive partos. Parei há uns 7 anos de fazer essa parte obstétrica. Optei mais por fazer a parte oncológica e fazer mama e pélvica. Sempre fiz a parte de mama. A oncologia me dá um retorno muito bom, não no sentido financeiro, mas no sentido de vida. Cada paciente que está passando um problema grave como esse, você aprende muito para sua vida.
JC - Porque quando ficamos vulneráveis passamos a observar nossa importância insignificante?
William - Quando está tudo bem você se acha o dono de tudo, pode fazer tudo. Principalmente criticar as pessoas. Você pode querer as coisas só do seu jeito. E de repente quando você é surpreendido por uma doença grave, você vê que está nas mãos dos outros. Você vê que não tem comando das coisas. Nossa vida é serrada em um ponto. Se você abrir a mão e soprar, ele se perde no Universo. O conhecimento do real valor do ser humano, aquilo que você está fazendo aqui, qual é nosso objetivo, isso é que fortalece a gente. Na doença, a gente acaba despertando para isso. Você vê que aqueles momentos pequenos ali de convívio com seu filho e com sua esposa, ninguém pode dar. Um sorriso de um filho, por exemplo, ninguém é capaz de trocar aquela alegria. Esses dias atrás meu filho esqueceu o trabalho da escola em casa. Ele ligou no meu celular e perguntou se eu já estava atendendo. Falei que já e ele falou tudo bem. Insisti para que falasse. Eu moro do outro lado da cidade. Atendi as três pacientes, fui lá buscar, atrasei uma hora aqui, deixei na escola e voltei. Dali 15 minutos que já estava aqui, recebi uma mensagem dele no celular: “Pai muito obrigado. Eu te amo.” Não tem nada que pague isso. Eu ter que me desculpar com as pacientes porque estava atrasado. Tudo isso é secundário, diante daquilo que você ouviu lá atrás. Isso te impulsiona, te empurra e te leva adiante.
JC - Como o senhor convive com o fato da morte sendo um espírita?
William - Uma vez eu ouvi uma colocação de um amigo espiritual de que a morte é como trocar de roupa. Nós trocamos de roupa e saímos para um novo trabalho. A questão da morte, o mais importante não é para quem vai embora. É para quem fica. Eu costumo dizer para as pessoas que ficam que a gente tem que imaginar que Deus abriu a gaiola daquela pessoa. Nós ainda estamos dentro da nossa gaiola. Para pessoa que está indo, é como se ela estivesse se mudando de uma cidade e foi trabalhar em outra cidade. Eu acho mais difícil para as pessoas que ficam. Porque você sente a falta física, o afeto e a questão da distância. Para as pessoas que ficam a gente tem que acreditar no amanhã e acreditar que todos nós estamos em uma grande viagem. Todos nós vamos nos encontrar. Por isso que acho importante que a gente faça sempre o máximo aqui. Porque nós não sabemos a hora de chegar a nossa parada. E nem com quem nós vamos nos encontrar. Dependendo do tipo de vibração nossa, do amor e daquilo que eu tento exalar, é com o que vou me sintonizar do outro lado. Se eu tiver pensamentos bons, carinho, amor, dedicação para as pessoas, automaticamente eu vou me ligar com esse tipo de vibração. Se eu tiver mágoa, rancor, discórdia eu também vou me ligar com esse tipo de vibração.
JC - O senhor tem uma preocupação específica com o momento da humanidade?
William - Acho que estamos em um momento delicado de transição do nosso planeta. Acho que é hora da gente despertar. Costumo dizer que não tem muito tempo mais. Nós temos que despertar nossa espiritualidade. Acho que essa espiritualidade não é espírita. É a espiritualidade dentro de sua religião. Qualquer que seja, você deve buscar a espiritualidade. Estar ali para se congregar com Deus. E vivenciar o Deus dentro do nosso interior. E não o externo.
JC - Como é a convivência com sua alma gêmea?
William - A Michela é enfermeira e trabalha no Lauro de Souza Lima. Adora o trabalho dela e tem um carinho especial. É uma pessoa muito especial. O relacionamento que a gente tem é maravilhoso. Somos almas gêmeas. Eu comecei a namorar ela e ela tinha 15 anos de idade. E nós temos 19 anos de casamento e mais 7 de namoro. É uma companheira mesmo. Uma tia disse a ela: “Você tem certeza que vai querer casar com médico? Mulher de médico não tem marido”. Michela sabe dividir as coisas. Eu tenho um monte de afazeres. Sempre que dá ela está junta e está próxima. É companheira mesmo. Agradeço muito a ela por estar no meu caminho.
Perfil
Nome: William Davila Delgallo
Idade: 49 anos
Cidade: Bauru
Filhos: Iago Delgallo, 12 anos, e Yuri Delgallo, 9 anos
Música: Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Rita Lee entre outros da MPB
Livro: O Evangelho Segundo o Espiritismo, autor Allan Kardec
Filme: Em Algum Lugar do Passado
Prato: Strogonoff
Time: São Paulo F.C.
Nota 10: Madre Teresa de Calcutá
Nota 0: Políticos
E-mail : wi.delgallo@uol.com.br