Para o líder do governo Dilma Rousseff no Congresso, Arlindo Chinaglia (PT), o julgamento de petistas acusados de participação de um suposto esquema de compra de votos, batizado de “mensalão” pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), ainda não foi endossado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao comentar sobre o julgamento, o petista reclamou também do “furor” condenatório de ministros, sem citar nomes. O ministro e relator do processo, Joaquim Barbosa, tem sido um dos mais críticos ao proferir o voto a favor da condenação dos envolvidos.
O deputado federal petista esteve ontem de manhã no “Café com Política” no JC, onde declarou também que o esquema semelhante ao “mensalão” de empréstimos envolvendo o PSDB de Minas Gerais ainda não foi a julgamento no STF. “Acho que o Supremo também deve explicações de julgar primeiro um e não o outro que está há mais tempo”, criticou.
Chinaglia cumpriu extensa agenda de visitas na região de Bauru. Segundo ele, o partido deve eleger vários prefeitos e vereadores. O petista aproveitou para gravar depoimentos em programas eleitorais e reuniu-se com lideranças. Entre as cidades por onde o deputado passou estão Bocaina, Jaú, Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Macatuba, Iacanga e Bauru. A seguir veja trechos da entrevista.
JC - Na opinião do senhor, o julgamento do chamado ‘mensalão’ pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) está sendo justo?
Deputado Arlindo Chinaglia - Como cidadão e como deputado do PT, eu acho que ainda não está definido, mas tenho a impressão de que o Supremo não necessariamente vai endossar a tese do Roberto Jefferson (ex-deputado do PTB que denunciou o suposto esquema ilegal). Ele passou a ideia de ‘mensalão’, virou um termo que designa muitas coisas e o que está se discutindo é se o empréstimo do Banco Rural ao PT era ou não algo verídico e não necessariamente aquela história de dar dinheiro para a base aliada... Temos que deixar para os advogados as críticas, as manifestações ou até mesmo as concordâncias. Eu não pretendo dizer que o Supremo está errando.... Eu acho que o debate no Supremo é elucidativo. Tem alguns ministros que têm um furor condenatório e outros se atêm, na minha opinião, para qualquer grande disputa que tenha ali. Esse é o grande desafio do Supremo - você condenar tendo prova ou condenar porque você concluiu. Tem uma delicadeza aí. O PT não tem o que comemorar por estar tendo pessoas vinculadas ao PT sendo julgadas. Agora eu quero registrar, se estamos falando do ‘mensalão’, que o ‘Valerioduto’, esse sistema, começou com o PSDB. Este processo está no Supremo há muito mais tempo do que o que está sendo julgado agora. Acho que o Supremo também deve explicações de julgar primeiro um e não o outro que está há mais tempo. Devia tentar julgar os dois ao mesmo tempo até porque criaria aquela situação que você não teria critérios diferentes para julgar procedimentos eventualmente equivalentes. É isto que chama a atenção. Até porque, o fato de ser a última instância, não significa que não falha. Isto não é frase minha, é frase do (ministro) Gilmar Mendes.
JC - Como o senhor avalia a campanha dos candidatos petistas da região nessas eleições?
Chinaglia - Eu vou dar o exemplo de Bocaina. Hoje, o prefeito é do PV e o vice é do PT, o ‘Pipoca’. Agora, o ‘Pipoca’ vai para prefeito com 12 partidos. Nós estamos na frente. É uma eleição polarizada, mas estamos trabalhando pela vitória objetivamente. Em Macatuba, nós temos um candidato que nunca disputou a eleição majoritária, temos um vice do PT, que eu conheço há muitos anos e, lá, estamos caminhando também para a vitória. Em Jaú, tivemos conversas, fiz gravação e também caminhamos para a vitória. Minha opinião é que, em coligação, o PT vai eleger mais vereadores, inclusive aqui em Bauru. Ele vai crescer no número de vereadores, de prefeitos e de vice-prefeitos.
JC - A que o senhor atribui esse crescimento da legenda nos últimos anos?
Chinaglia - Eu atribuo isso a dois fatores principais. Primeiro, o governo Lula e, agora, o governo da Dilma. O PT se credenciou muito em camadas onde nós não chegávamos. Na fundação, éramos fortes nas cidades onde tinha movimento sindical forte. Tínhamos vínculos com a classe média, nas universidades e nos vários espaços de setores bastante politizados. O PT nasceu e cresceu junto a essas mobilizações. Com o governo do presidente Lula, o PT chegou naquelas camadas que, mesmo sem ter militância política no seu cotidiano, e que de alguma maneira resistia ao PT, hoje não mais.... O outro aspecto, e tem a ver também com o governo Lula, é que o PT tinha resistência em fazer aliança. E os outros partidos tinham resistência também em fazer aliança com o PT. Eu acho que isso também mudou. Eu acho que essa normalidade democrática pela qual lutamos propiciou fazermos alianças e, nos pleitos municipais, vemos alianças de partidos que, no plano nacional, são oposição”.
JC - A política de redução de impostos, adotada pelos governos Lula e Dilma, ajudou a fortalecer o partido?
Chinaglia - O resultado do governo Lula não é pelo mito Lula. Foi o que ele fez enquanto era presidente. Ele pegou aquilo que era o nosso programa desde sempre, que é você fazer o crescimento econômico dividindo renda e aumento o consumo de massas. O Lula teve que buscar os instrumentos para que isso acontecesse como aumento real do salário mínimo em mais de 70% pegando o governo Lula e o governo Dilma. Isso aumentou o consumo, de imediato, de 50 milhões de brasileiros que vivem do salário mínimo e das suas famílias.... Todos nós sabemos que quem mais gera emprego é a micro e a pequena empresa. Houve uma aposta firme desde a agricultura familiar.... Ao mesmo tempo, o Lula teve forte atuação internacional. Isso não é, digamos, uma atuação na economia de forma heterodoxa. Muita gente fala que a economia já estava indo bem, estávamos exportando. Em alguns ramos, é verdade. Agora, quando o Lula se insurgiu à invasão do Iraque e assinou, junto com a Síria, que os Estados Unidos tinham que sair do Iraque, aumentou as exportações para a Síria em 800%.
JC - Os investimentos na saúde e a defasagem da tabela do SUS são alvos de reclamação por parte de muitos municípios. O que o governo tem feito para tentar solucionar essa questão?
Chinaglia - A rede básica é pública. Agora, o atendimento, em nível secundário e terciário, normalmente fica para iniciativa privada. Antes havia muito roubo, os hospitais recebiam por procedimento. Aí se lançava procedimentos não feitos e aquilo era uma corrupção desenfreada. Isso, depois, mudou para o tratamento de determinadas patologias. Eu não estou dizendo que a tabela do SUS (Sistema Único de Saúde) é suficiente, ok? Mas com certeza, sem o SUS, a iniciativa privada não sobreviveria.... Em termos modernos, você tem que promover a saúde, prevenir a doença e depois recuperar, e não discutir digamos, de cima para baixo. Tem que tem atenção básica. Qual é a grande conquista? Começou o atendimento odontológico, as equipes do Programa de Saúde da Família se multiplicaram. Falar que a saúde está ótima, eu não teria coragem de dizer. O Brasil tem o maior número de casos de hanseníase do planeta. Olha o tamanho da China e da Índia. 90% das cirurgias cardíacas em crianças é consequência de febre reumática, que é algo evitável. Nós temos muita coisa para fazer, não se nega. Agora, não se pode apenas fazer a fotografia. Tem que pegar o filme