Articulistas

Mística e "santidade política"

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 3 min

No mês que antecede as eleições municipais, em tempos de crise política evidenciada pelas inúmeras denúncias de corrupção e impunidade, urge resgatar o conceito de mística aqui aplicado à política, à participação cidadã e ao comprometimento responsável em vista da transformação social, que passa, necessariamente, pela conversão pessoal.

A mística, na ótica latino-americana, é o cruzamento da experiência religiosa e solidariedade concreta. A mística cristã não é uma forma de contemplação desinteressada da verdade, mas, sobretudo, participação e comprometimento. Neste ponto emerge o tema da relação mística e política que, no horizonte da fé cristã, pode ser denominada "santidade política" (cf. Dom Pedro Casaldáliga), ou seja, a política como caminho de santidade, considerando que a política "é uma das expressões mais altas da caridade" (papa Paulo VI) e meio para a justiça social.

A santidade política é uma relevante dimensão da mística transformadora. É a mesma santidade de sempre, porém alargada. Não se trata de contraposição, mas de integração. Não desconsidera o âmbito pessoal da conversão, mas se abre e assume as "grandes causas" do Reino de Deus e as virtudes suscitadas pelo Espírito Criador dentro e fora da Igreja. É uma santidade que sai de si e busca os irmãos, é "extra-muros", ou seja, inserida consciente e criticamente no mundo, principalmente no lugar social dos pobres. É a santidade das grandes causas: justiça, paz, novas estruturas, vida com qualidade e dignidade. Em síntese, trata-se de viver e lutar pelas causas de Jesus, exercendo a "diakonia política", somando forças com todos aqueles e aquelas que lutam pelas mesmas causas maiores, no horizonte do macroecumenismo e da macrosolidariedade (cf. Casaldáliga). É um ato profundamente cristão contribuir para colocar o mundo dos pobres na agenda política, na ordem do dia, como resultado da incidência da fé no âmbito político-social.

O cenário político atual não pode gerar em nós sentimentos de resignação, desesperança e conformismo. Antes, pode ser ocasião de mobilização de energias para sinergeticamente buscar soluções e colocar a ética na política, na agenda do dia e na consciência de todos. Por isso, vamos exercitar o direito ao voto com responsabilidade e esperança. É a nossa participação política que fará surgir a nova sociedade. A motivação para a atitude consciente e cidadã, emerge do Evangelho de Cristo, da mística cristã e das palavras do papa Bento XVI, em sua encíclica Deus caritas est (n.28): "A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja: deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem".

A Palavra de Deus, celebrada de modo mais intenso no mês de setembro, denominado "mês da Bíblia", é fonte primeira para o nosso agir ético-transformador, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho. Deixemo-nos guiar pela Palavra de Deus, não apenas fazendo o que Ele quer, mas querendo o que Ele quer, ou seja, um mundo melhor, mais humano, fraterno, justo e ético. Aos candidatos e candidatas que buscam concretizar por meio da política a sociedade justa desejada por todos, nossos sinceros agradecimentos pela disponibilidade e coragem, com votos de que tanto a campanha quanto o exercício do mandato sejam ocasião para a "santidade política".

O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é sacerdote e colaborador de Opinião

Comentários

Comentários